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A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões Sobre Alguns Temas Comuns aos Dois Livros Sagrados

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O presente texto tem o objetivo de refletir sobre alguns temas comuns existentes tanto na Bíblia Hebraica quanto no Alcorão, a saber: Deus, o Livro Sagrado, a Criação, Abraão, Determinismo versus Livre-Arbítrio e Escatologia. O estudo desses temas, ainda que sucinto, nos mostrará como o judaísmo e o islamismo os enxergam a partir de suas respectivas fés.

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A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões Sobre Alguns Temas Comuns aos Dois Livros Sagrados

  1. 1. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________ ARTIGO TEOLÓGICO A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões Sobre Alguns Temas Comuns aos Dois Livros Sagrados1 por Carlos Augusto VailattiDoutorando em Estudos Judaicos e Árabes, com concentração em Estudos Judaicos, pela Universidade deSão Paulo (USP), Mestre em Teologia, com especialização em Teologia Bíblica, pelo SeminárioTeológico Servo de Cristo (STSC), Bacharel em Teologia pela Faculdade Betel / Instituto Betel de EnsinoSuperior (IBES) e também Bacharel em Teologia pela Escola Superior de Teologia (EST). Atualmente, éprofessor de Teologia no Seminário Teológico Evangélico do Betel Brasileiro e na Faculdade Betel /Instituto Betel de Ensino Superior (IBES).RESUMO O presente texto tem o objetivo de refletir sobre alguns temas comuns existentestanto na Bíblia Hebraica quanto no Alcorão, a saber: Deus, o Livro Sagrado, a Criação,Abraão, Determinismo versus Livre-Arbítrio e Escatologia. O estudo desses temas,ainda que sucinto, nos mostrará como o judaísmo e o islamismo os enxergam a partir desuas respectivas fés.ABSTRACT The present text has the objective of reflect on some commom themes existentboth in the Hebrew Bible and in the Qur’an, namely: God, the Holy Book, Creation,Abraham, Determinism versus Free Will and Eschatology. The study of these issues,though brief, will show us how judaism and islam sighted them from their respectivefaiths.1 Esse artigo foi apresentado pela primeira vez em forma de trabalho na Universidade de São Paulo (USP)em julho de 2012.
  2. 2. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________INTRODUÇÃO O judaísmo, o cristianismo e o islamismo, além de serem as três maiores religiõesmonoteístas do mundo, também compartilham entre si o fato de terem recebido a divinarevelação na forma escrita. Isto fez com que os adeptos dessas três fés monoteístasfossem identificados, e com justiça, como “Povo do Livro”.2 Contudo, devido àslimitações e propósitos do presente trabalho, nos restringiremos a abordar apenas algunstemas comuns tanto à Bíblia Hebraica quanto ao Alcorão. Dessa forma, alusões aoNovo Testamento somente serão feitas quando julgadas necessárias para a elucidação ecompreensão de algum assunto ou tópico tratado em nossa pesquisa. Depois dessesbreves, mas necessários esclarecimentos, voltemos, então, a nossa atenção aos doislivros que serão alvo do nosso estudo. A Bíblia Hebraica ou Tanakh3 experimentou um longo processo de formação até oseu estabelecimento final na forma escrita que abrange um período de mais de milanos.4 No II século a.e.c. o livro de Eclesiástico (também conhecido por outros trêsnomes: “Sabedoria de Jesus, filho de Sirac”, “Ben Sirac”, ou simplesmente “Sirácida”)já fazia referência em seu prólogo grego à divisão tripartida da Bíblia Hebraica,mencionando ho nómos kaì hai profēteîai kaì tà loipà tōn biblíōn,5 isto é, “a Lei e osProfetas e o resto dos Livros” (Prólogo do Eclesiástico 1.24,25). Contudo, foi somenteentre o I e II séculos e.c. que o cânon da Bíblia Hebraica foi definitivamenteestabelecido para todas as comunidades judaicas.6 Já o Alcorão ou simplesmente Corão7contém exclusivamente ditos do profeta Maomé, os quais foram pronunciados2 PATERSON, Andrea C. Three Monotheistic Faiths – Judaism, Christianity, Islam. Bloomington,AuthorHouse, 2009, p.139.3 Tanakh é o acrônimo usado para se referir às três principais divisões da Bíblia Hebraica: Tōrâ(Pentateuco), Nevī‘īm (Profetas) e Ketūvīm (Escritos). Hoje, em ambiente acadêmico cristão, a fim depromover o diálogo interreligioso entre judeus e cristãos, por ex., dá-se preferência ao uso do nome“Primeiro Testamento” em vez do conhecido “Antigo Testamento”, como designação da Bíblia Hebraica.(Para maiores informações quanto à discussão sobre essas nomenclaturas, veja: ZENGER, Erich et al.Introdução ao Antigo Testamento. [trad. Werner Fuchs]. São Paulo. Edições Loyola, 2003, pp.19-21).4 GNILKA, Joachim. Bíblia e Alcorão – O Que os Une, O Que os Separa. [trad. Irineu J. Rabuske]. SãoPaulo, Edições Loyola, 2006, pp.44,45.5 A minha transliteração e tradução do texto grego estão baseadas em: RAHLFS, Alfred. Septuaginta.Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 2004, p.378.6 BARRERA, Júlio Trebolle. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã: introdução à história da Bíblia. [trad.Ramiro Mincato]. Petrópolis, Vozes, 1995, pp.183,184.7 O termo qur’ān significa tradicionalmente “recitação, leitura”. Para outras possibilidades de tradução dotermo, veja: LEAMAN, Oliver. (ed.). The Qur’an: an encyclopedia. New York, Routledge, 2006, p.521. 2
  3. 3. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________“aproximadamente do seu quadragésimo ano de vida até sua morte, isto é, entre os anos610 e 632”.8 A composição definitiva do Alcorão só ocorreu a partir de 632, logo após amorte de Maomé.9 Estas informações de cunho histórico são importantes para o nosso trabalho, poisnos servem de base para comprovar a ordem cronológica em que os três livros sagradossurgiram em sua forma escrita definitiva: Bíblia Hebraica (II século e.c.), NovoTestamento (IV século e.c.)10 e Alcorão (VII século e.c.). Não obstante isso, essesdados, além de apontarem para a anterioridade da Bíblia Hebraica em relação ao NovoTestamento e ao Alcorão, também nos ajudam a compreender porque estes dois últimosfazem inúmeras referências e alusões, diretas e indiretas, à Bíblia Hebraica, a qual lhesserve inúmeras vezes de fonte.11 No caso da Bíblia Hebraica e do Alcorão em particular,nota-se, portanto, um entrelaçamento textual o qual ocorre, contudo, apenas nesteúltimo, que, ao ocupar-se das histórias e das tradições da Bíblia Hebraica, acaba porreconhecê-las e legitimá-las dentro de seu próprio contexto de fé. Ora, essaintertextualidade presente no Alcorão nos será especialmente importante, pois nospermitirá refletir sobre alguns temas compartilhados por estas duas fés, a judaica e amuçulmana, descortinando assim diante de nossos olhares algumas incríveissemelhanças conceituais e temáticas entre ambas. Em nosso estudo, veremos que hámais elementos que unem a Bíblia Hebraica e o Alcorão, do que os separam. No presente trabalho, escolhemos como objeto de nossas reflexões seis temas quesão compartilhados entre a Bíblia Hebraica e o Alcorão. Esses temas são: Deus, o LivroSagrado, a Criação, Abraão, Determinismo versus Livre-Arbítrio e Escatologia. Aescolha pela abordagem desses assuntos em nossa pesquisa se deve não apenas àimportância que o pensamento bíblico e qurânico lhes conferem em seus textos, mas sedeve, antes de tudo, ao caráter agregador desses temas, que permite, por sua vez, maiorproximidade e diálogo entre judeus e muçulmanos, os principais observadores dosprincípios contidos nestes dois livros sagrados.8 GNILKA, Joachim. Bíblia e Alcorão – O Que os Une, O Que os Separa, p.47.9 Idem, Ibidem, p.48.10 CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. [trad. Bertoldo Weber]. São Leopoldo,Sinodal, 2001, p.92.11 O Alcorão também faz muitas referências ao Novo Testamento e, mais particularmente, às tradiçõessobre Jesus. Porém, tais referências não são tão numerosas quanto aquelas que o Alcorão faz à BíbliaHebraica. 3
  4. 4. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________ Depois dessas observações, vejamos o que o estudo em conjunto da BíbliaHebraica e do Alcorão nos reserva. 4
  5. 5. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________1. DEUS O primeiro tema comum à Bíblia Hebraica e ao Alcorão que nós destacamos aquié: Deus. Não poderia ser diferente. No Tanakh, Deus é conhecido principalmente como’ēl ou ’ĕlōhīm. Aliás, deve-se dizer que o termo semítico ocidental, ’ēl, que tem relaçãocom o ugarítico il(u), é comumente usado nas línguas semíticas para se referir a “deus”em sentido amplo.12 Já o termo árabe usado com referência a Deus, allāh, é a formacontraída de al-ilah (literalmente, “o Deus”).13 Provavelmente, a evolução do termo (deal-ilah para allāh) deve ter acontecido por assimilação do “i” nesta última forma dovocábulo. Tal assimilação pode ter ocorrido devido ao uso bastante freqüente dapalavra.14 Quanto ao tetragrama divino (YHWH), este curiosamente não é mencionadono Alcorão.15 Seja como for, tanto ’ēl quanto allāh são vocábulos muito semelhantes emtermos de sua morfologia e significado.16 Aliás, um dos temas comuns à Bíblia Hebraica e ao Alcorão é o monoteísmo. NaBíblia Hebraica, a centralidade da fé monoteísta se destaca, de maneira que ninguémpode duvidar que um de seus grandes temas seja o “seu monoteísmo puro, penetrante einflexível”.17 Vemos no Tanakh,18 por exemplo, que “Deus é um” (Deuteronômio 6.4),que “não há outros deuses diante dele” (Êxodo 20.3) e que, tal fato é admitido,inclusive, pelo próprio Deus, que diz: “fora de mim não há Deus”, “fora de mim não háoutro” e “eu sou o Senhor, e não há outro” (Isaías 45.5,6). Esta unicidade divina12 POPE, Marvin H. El in the Ugaritic Texts. Vol.2. [Vetus Testamentum: Supplements]. Leiden, Brill,1955, p.1; CHANAN, Ami Ben. Qur’an-Bible Comparison: A Topical Study of the Two Most Influentialand Respectful Books in Western and Middle Eastern Civilizations. Bloomington, Trafford Publishing,2011, p.316. Para outras informações sobre o termo ’ēl e a sua relação com Yahweh, veja: DAY, John.Yahweh and the Gods and Goddesses of Canaan. New York, Sheffield Academic Press, 2000, pp.13-41.13 CAMPO, Juan E. Encyclopedia of Islam. [Encyclopedia of World Religions]. New York, InfobasePublishing, 2009, p.34.14 GNILKA, Joachim. Bíblia e Alcorão – O Que os Une, O Que os Separa, p.86.15 Khalil entende que Yahweh era o nome do Deus particular de Israel. (Cf. KHALIL, Shauqi Abu. Atlasof the Qur’an: Places, Nations, Landmarks. Houston, Darussalam Publications, 2003, p.63).16 COOGAN, Michael David. (ed.). Stories From Ancient Canaan. Louisville, The Westminster Press,1978, p.12. Veja também: HASTINGS, James. Encyclopedia of Religion and Ethics. [Vol.11]. Whitefish,Kessinger Publishing, 2003, p.248.17 YOUNGBLOOD, Ronald F. The Heart of the Old Testament: a survey of key theological themes.Grand Rapids, Baker Book House, 1998, p.13.18 Todas as citações da Bíblia Hebraica, salvo indicação contrária, são extraídas de: ALMEIDA, JoãoFerreira de. (trad.). Bíblia Sagrada. [Edição Revista e Corrigida]. Rio de Janeiro, Imprensa BíblicaBrasileira, 1991. 5
  6. 6. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________também encontra eco nas páginas do Alcorão,19 que afirma: “Vosso Deus é o Deusúnico. Não há deus senão Ele” (A Vaca, 2.163), “Não há deus senão Ele” (o Gado,6.106) e, nas palavras do próprio allāh, “Não adoteis dois deuses. Somente eu sou oDeus único” (As Abelhas, 16.51). Ora, mas será que a maneira como a Bíblia Hebraica compreende a Deus éexatamente a mesma pela qual Ele é compreendido no Alcorão? Para Gnilka, há umadiferença decisiva na imagem de Deus retratada nos dois livros. Segundo ele, “o Deusda Bíblia age na história”. Já o Deus retratado no Alcorão, “mantém-se fora dahistória”.20 Em outras palavras, se na visão bíblica Deus se relaciona com os sereshumanos, na visão qurânica, por outro lado, Ele permanece inacessível, devido à Suaabsoluta transcendência.21 Contudo, na visão do Alcorão, o Deus da Bíblia Hebraica e o Deus do próprioAlcorão são o mesmo Deus: “Cremos no que nos foi revelado [o Alcorão] e no que vosfoi revelado [a Bíblia Hebraica e o Novo Testamento]. Nosso Deus e vosso Deus é omesmo”. (A Aranha, 29.46).22 Seja como for, a compreensão do Alcorão sobre a unicidade divina, somada àsdeclarações semelhantes que tanto o Tanakh quanto o Alcorão fazem sobre Deus, comovimos acima, favorecem uma aproximação entre as duas teologias, bem como,contribuem para a existência de um proveitoso diálogo interreligioso capaz de promoveruma maior proximidade entre judeus e muçulmanos.19 Todas as citações do Alcorão, salvo indicação contrária, são extraídas de: CHALLITA, Mansour.(trad.). O Alcorão. Rio de Janeiro, BestBolso, 2011.20 GNILKA, Joachim. Bíblia e Alcorão – O Que os Une, O Que os Separa, p.93.21 Idem, Ibidem, p.94. Essa idéia da transcendência divina pode ser vista no seguinte trecho do Alcorão:“E a nenhum mortal é dado que Deus lhe fale, exceto por revelação ou por detrás de um véu ou porintermédio de um Mensageiro enviado para transmitir o que Deus determinar”. (A Consulta, 42.51).22 Os acréscimos entre colchetes são meus. 6
  7. 7. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________2. O LIVRO SAGRADO Além da fé monoteísta, a Bíblia Hebraica e o Alcorão também compartilham ofato de serem, ambos, livros sagrados. Para os judeus, o seu livro sagrado (hasēfer) é oTanakh, que está originalmente dividido em 24 livros, os quais estão dispostos em trêsseções, Tōrâ (Pentateuco), Nevī‘īm (Profetas) e Ketūvīm (Escritos).23 Já para osmuçulmanos, o seu livro sagrado (al-kitāb) é o Alcorão, ou simplesmente Corão. Esteúltimo está dividido em 114 suras ou capítulos, os quais são subdivididos por sua vezem versículos, somando o total de 6.235.24 Isso torna o Alcorão semelhante ao NovoTestamento em termos de sua extensão.25 É digna de nota a afirmação que tanto a Bíblia Hebraica quanto o Alcorão fazemsobre a sua procedência divina. Com relação à primeira, tal afirmação pode ser vista emcada uma de suas três divisões, como podemos notar nas seguintes expressões que nosservem de exemplo: a) Na Tōrâ: “falou Deus todas estas palavras” (Êxodo 20.1) e“falou o Senhor a Moisés” (Números 1.1; 2.1; 4.1); b) Nos Nevī‘īm: “Josué escreveuestas palavras no livro da lei de Deus” (Josué 24.26); e c) Nos Ketūvīm: “leram no livroda lei de Deus” (Neemias 8.8) e “o livro da lei do Senhor” (2 Crônicas 34.14). Já noAlcorão, essa reivindicação de origem divina é ainda mais explícita, como se podeperceber nos seguintes trechos qurânicos: “Foi no mês de Ramadã que o Alcorão foirevelado, um guia para os homens” (A Vaca, 2.185), “[Deus] revelou-me este Alcorão”(O Gado, 6.19), “é uma blasfêmia atribuir este Alcorão senão a Deus” (Jonas, 10.37),“o Alcorão é a verdade enviada por teu Senhor” (A Peregrinação, 22.54) e “este é, semdúvida, o livro enviado pelo Senhor dos mundos” (A Prostração, 32.2). Ora, este caráter sagrado do Alcorão é ainda reforçado não somente pelas própriasdeclarações qurânicas sobre sua procedência divina, mas também pelo seu conteúdocomo um todo que, apesar de datar do VII século e.c., é capaz de atualizar a suamensagem ao leitor contemporâneo, transformando assim as suas palavras em palavrassupra-históricas. Tal aspecto é observado por Khalidi, que diz:23 ROTH, Cecil. (ed.). The Standard Jewish Encyclopedia. Jerusalem, Massadah Publishing CompanyLtd., 1958/9, p.306.24 CHALLITA, Mansour. (trad.). O Alcorão. Rio de Janeiro, BestBolso, 2011, p.11.25 KALTNER, John. Introducing the Qur’an for Today’s Reader. Minneapolis, Fortress Press, 2011, p.3. 7
  8. 8. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________ [...] as narrativas são expressas como contos meta-históricos e parábolas do espírito humano e da perigosa jornada da fé, em vez de histórias. Em quase todos os casos, o Alcorão assume familiaridade com os contornos do conto em questão, e assim procura recordar sua audiência da verdadeira importância do conto e da moral.26 Além disso, esse conteúdo meta-histórico também tem estado presente na BíbliaHebraica desde sempre, fato este que explica o profundo impacto que ela tem exercidono mundo (principalmente ocidental) em termos de avanços em questões éticas esociais, por exemplo, as quais receberam novas dimensões e novo tratamento a partirdos valores ensinados neste livro sagrado.27 É evidente que não podemos negar os inúmeros males praticados ao longo dahistória em nome da religião e em nome de Deus. Contudo, tais atrocidades perpetradasem nome do sagrado não sobrepujam, a meu ver, os incontáveis benefícios que estesdois livros têm proporcionado à humanidade de uma forma geral. Aliás, o Alcorão novamente nos fornece uma postura reconciliadora com a BíbliaHebraica, ao declarar: “Creio em todos os Livros que Deus fez descer [...]. Que não hajadiscussões entre nós. Deus nos unificará. É para Ele que todos caminhamos” (AConsulta, 42.15) e “Antes dele [o Alcorão], havia o Livro de Moisés: uma orientação euma misericórdia. E este livro corrobora o outro em língua árabe para advertir os queprevaricam e trazer boas-novas aos benfeitores” (As Dunas, 46.12). O reconhecimento da Bíblia Hebraica como livro sagrado por parte do Alcorão e ocompartilhamento da crença comum da sacralidade de seus livros também se constituemfatores que contribuem substancialmente para o diálogo e para uma maior proximidadeentre estes dois “povos do livro”.26 KHALIDI, Tarif. The Qur’an. New York, Viking Penguin, 2008, p.xvi.27 STRAUSS, Mark L. How to Read the Bible in Changing Times: understanding and applying God’sword today. Grand Rapids, Baker Books, 2011, p.2. 8
  9. 9. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________3. A CRIAÇÃO A compreensão do mundo como criação (em hebraico, berī’â; em árabe, khalq) deDeus é, talvez, um dos temas que mais aproxime a Bíblia Hebraica do Alcorão.28 Issonão deve nos causar surpresa, pois, como a primeira influenciou profundamente esteúltimo, logo, já era de se esperar a existência de certa afinidade temática entre ambos. A concepção de que Deus criou o mundo e tudo o que há nele é algo tãoimportante e fundamental para a Bíblia Hebraica que tal pensamento lhe serve deprefácio.29 Lemos já no início do primeiro livro do Tanakh que berēšīt bārā’ ’ĕlōhīm ’ēthašāmayim we’ēt hā’ārets,30 “no princípio criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1.1).Tal assertiva será repetida várias vezes ao longo do texto bíblico, como, por exemplo,nas expressões: “o Senhor Deus fez a terra e os céus” (Gênesis 2.4), “Ele [Deus] é ocriador de todas as coisas [...]. Senhor dos Exércitos é o seu nome” (Jeremias 10.16) e“[...] vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste” (Salmo8.3). Além disso, a criação do ser humano por Deus também é enfatizada no Tanakh,onde lemos que “criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; machoe fêmea os criou” (Gênesis 1.27). No Alcorão, allāh também é descrito várias vezes como o criador de todas ascoisas. Vejamos alguns textos que indicam isso: “Louvado seja Deus que criou os céuse a terra” (O Gado, 6.1 – compare com Gênesis 1.1), “Foi Ele quem vos fez descenderde um único homem” (O Gado, 6.98), “Vosso Senhor é o Deus que criou os céus e aterra em seis dias” (As Alturas, 7.54 – compare com Gênesis 1.31; 2.1), “Foi Ele quemvos criou de um só homem e dele lhe tirou a esposa para que com ela convivesse” (AsAlturas, 7.189 – compare com Gênesis 1.21,22), “Deus disse aos anjos: ‘Vou criar umhomem de argila seca, de barro maleável’” (Al-Hijr, 15.28 – compare com Gênesis 2.7).Como podem ser percebidos, são notáveis os paralelos entre o Alcorão e a BíbliaHebraica sobre o tema da criação do mundo e do homem. Além do mais, também chama a nossa atenção o emprego da “palavra” comoinstrumento criador divino tanto no Alcorão quanto na Bíblia Hebraica. Nós28 GNILKA, Joachim. Bíblia e Alcorão – O Que os Une, O Que os Separa, p.99.29 Essa concepção também está presente em várias solenidades judaicas, como, por exemplo, na festa decasamento, durante a qual é pronunciada a seguinte bênção: “Bendito és tu, Senhor nosso Deus, Rei doUniverso, que criaste tudo para a tua glória”. (Cf. DORFF, Elliot N. & ROSETT, Arthur. A Living Tree:The Roots and Growth of Jewish Law. Albany, State University of New York Press, 1988, p.502).30 Minha transliteração do texto hebraico baseia-se em: ELLIGER, K. & RUDOLPH, W. (eds.). BibliaHebraica Stuttgartensia. Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 1997. 9
  10. 10. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________encontramos no Tanakh vários registros sobre a palavra criadora divina. Eis algunsexemplos: “E disse Deus: haja luz. E houve luz” (Gênesis 1.3),31 “pela palavra doSenhor foram feitos os céus” (Salmo 33.6), “Porque [Deus] falou, e tudo se fez;mandou, e logo tudo apareceu” (Salmo 33.9). A importância dada à “palavra” comoelemento criador do universo é explicitamente declarada no Sêfer Ietsirá (Livro daCriação), o qual afirma que “foi através das letras do alfabeto hebraico que o Universofoi criado”.32 Além disso, o Sêfer Ietsirá ainda diz: Os decretos mediante os quais Deus trouxe a Criação a ser consistiram em ditos. Estes, por sua vez, consistiam em palavras, e estas eram compostas por letras. Portanto, foi através das letras do alfabeto que o Universo foi criado.33 Embora essas palavras reflitam o pensamento do misticismo judaico, o qual estárelacionado, sobretudo, com a cabalá, todavia, elas retratam de forma bastante vívida(ainda que mágica) a relevância da “palavra” no processo divino da criação. Contudo, é no contexto do período do judaísmo rabínico (II-VI Século e.c.) que apalavra criadora divina mostra sua maior semelhança (em termos morfológicos esemânticos) com a sua equivalente árabe. Nesta época, encontramos nos escritos dossábios o termo aramaico mēmrā’, “palavra”, o qual é utilizado para se referir à palavracriadora de Deus, isto é, o agente por meio do qual Deus criou o mundo.34 Paraexemplificar o emprego desse termo, podemos citar duas referências encontradas nostargumim. No targum de Isaías 48.13 encontramos escrito: “pela minha mēmrā’ eufundei a terra, e pela minha força eu suspendi os céus” e no targum de Deuteronômio33.27 lemos: “O Deus eterno é o teu refúgio, e pela sua mēmrā’ o mundo foi criado”.35 No Alcorão, encontramos o vocábulo ’amr que, por sua vez, está relacionado ao31 A fórmula wayyō’mer ’ĕlōhīm yehī...wayehī, “e disse Deus: ‘haja’...e houve” é recorrente no primeirocapítulo de Gênesis, o qual apresenta as várias etapas (dias) da criação do mundo sendo criadas através dapalavra divina. Veja: Gênesis 1.3,6,9,11,14,20,24,29,30.32 KAPLAN, Arieh. Sêfer Ietsirá: O Livro da Criação. [Trad. Erwin Von-Rommel Vianna Pamplona].São Paulo, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 2002, p.58.33 KAPLAN, Arieh. Sêfer Ietsirá: O Livro da Criação, p.58.34 SHERBOK, Dan Cohn. A Concise Encyclopedia of Judaism. Oxford, Oneworld Publications, 1998,p.129.35 Estas duas referências targúmicas foram extraídas de: BARCLAY, William. Great Themes of the NewTestament. Louisville, Westminster John Knox Press, 2001, p.28. 10
  11. 11. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________aramaico mēmrā’ e ao grego logos.36 Em árabe moderno, ’amr significa “ordem,comando, instrução, regulamento, decreto”.37 Porém, a partir de estudos realizados nadécada de 1930, “tornou-se impossível estudar o significado de ’amr no Alcorão semconsiderar sua possível relação com mēmrā’, seja ele o da Síria ou o do Targum”.38Neste último caso, portanto, ’amr pode ser mais bem entendido como “palavra”, ouseja, o instrumento do qual Deus se vale para levar a efeito a Sua criação.39 Vejamosdois exemplos do uso de ’amr com este sentido: “Sua ’amr, quando Ele deseja algumacoisa, basta dizer: ‘Sê!’ para que seja” (Yā-Sīn, 36.82)40 e “Vosso Senhor é Deus quecriou os céus e a terra em seis dias, depois assentou-se no trono para dirigir o ’amr”(Jonas, 10.3). De qualquer forma, há fortes evidências que apontam para uma influênciatargúmica sobre o Alcorão, uma vez que “os targumim estavam aparentemente em usona Arábia na época da pregação de Maomé”.41 Em suma, vimos neste item que a criação do mundo e do homem, bem como, ouso da palavra como instrumento divino da criação, estão presentes tanto no Alcorãoquanto no Tanakh, além de fazerem parte também do pensamento místico judaico emuçulmano. Aqui, mais uma vez a teologia bíblica e qurânica se encontram. E essaconcordância teológica, em vez de afastar as duas religiões, estabelece uma importanteponte que as liga e as une.36 ALI, Michael Nazir. Islam, a Christian Perspective. Philadelphia, The Westminster Press, 1983, p.15.37 COWAN, J. Milton (ed.). A Dictionary of Modern Written Arabic. [Arabic-English]. Wiesbaden, OttoHarrassowitz Verlag, 1979, p.33.38 CROLLIUS, Ary A. Roest. The Word in the Experience of Revelation in Qur’ān and Hindu Scriptures.[Documenta Missionalia | Vol. 8]. Roma, Gregorian & Biblical Press, 1974, p.58.39 GNILKA, Joachim. Bíblia e Alcorão – O Que os Une, O Que os Separa, p.111. À semelhança do usomágico de mēmrā’ no judaísmo rabínico, Nicholson descreve um emprego mágico similar do termo ’amrno Alcorão. Segundo ele, “Deus criou o anjo chamado Ruh da sua própria luz e, a partir dele, Ele criouo mundo e o tornou seu órgão da visão no mundo. Um de seus nomes é a Palavra de Alá (’Amr Allāh)”.(NICHOLSON, Reynold Alleyne. Studies in Islamic Mysticism. Charleston, Forgotten Books, 1967,p.103).40 CROLLIUS, Ary A. Roest. The Word in the Experience of Revelation in Qur’ān and Hindu Scriptures,pp.67,68.41 Idem, Ibidem, p.74. 11
  12. 12. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________4. ABRAÃO Se há um personagem que desfruta de bastante prestígio tanto no judaísmo quantono islamismo, esse personagem é Abraão. Como já dissemos anteriormente, isso não éde estranhar, pois como o Alcorão se vale da Bíblia Hebraica em seu texto, é, porconseguinte, natural que alguns temas sejam compartilhados entre os dois livros. Na Bíblia Hebraica Abraão recebe destaque, sobretudo, no primeiro livro da Tōrâ,o qual lhe dedica especial atenção em Gênesis 11.26-25.11. Ele é a primeira pessoa doTanakh a ser chamada de “hebreu”42 (Gênesis 14.13) e, além disso, “todos os judeustraçam sua ancestralidade a Abraão, como pai da nação hebraica”. 43 A Bíblia Hebraicadá a entender que Abraão, antes de conhecer a YHWH, era idólatra (cf. Josué 24.2,3).Entretanto, em um determinado dia YHWH se encontra com Abraão e lhe promete umagrande descendência (Gênesis 12.2) e a posse de um pedaço de terra (Gênesis 12.6,7).Neste ínterim, Abraão é submetido a um grande teste, que é oferecer Isaque, o filho dapromessa (Gênesis 21.12), em sacrifício a Deus no monte Moriá (Gênesis 22.1-19).Depois de passar por vários reveses em sua caminhada de fé com Deus, Abraãofinalmente se sagra vitorioso. Assim, ele serve de exemplo pela sua obediência aosmandamentos de Deus.44 Na literatura bíblica posterior, Abraão será conhecido como“amigo de Deus” (cf. Isaías 41.8; 2 Crônicas 20.7). No Alcorão, Abraão também recebe bastante destaque, sendo chamado ali,contudo, de Ibrahim.45 Aliás, a importância de Abraão é vista, por exemplo, nareferência feita às “Escrituras de Abraão e de Moisés” (O Altíssimo, 87.19). Além disso,42 Aqui, o termo ‘ivrī (“hebreu”) pode ser derivado do verbo ‘āvar, “atravessar”. Se esta opinião estivercorreta, então o vocábulo pode estar apontando para o fato de os hebreus, em seu passado distante, seremnômades que viviam andando de um lugar para o outro. (Cf. HOROWITZ, Edward. How the HebrewLanguage Grew. Jersey City, KTAV Publishing House, 1993, p.48).43 WILSON, Marvin R. Our Father Abraham: Jewish Roots of the Christian Faith. Grand Rapids, Wm.B. Eerdmans Publishing Company / Dayton, Center for Judaic-Christian Studies, 1989, p.4. O autorprefere usar aqui a expressão “nação hebraica” em vez de “nação judaica” por entender que o adjetivo“hebraica” descreve melhor os aspectos lingüísticos e culturais do povo de Israel, enquanto que o adjetivo“judaica” carrega uma conotação mais extensa e contemporânea. Para maiores informações sobre Abraão,veja ainda: GARDNER, Paul. (ed.). Quem é Quem na Bíblia Sagrada. [trad. Josué Ribeiro]. São Paulo,Vida, 2000, pp.10-16.44 BASKIN, Judith R. (ed.). The Cambridge Dictionary of Judaism & Jewish Culture. Cambridge,Cambridge University Press, 2011, p.2.45 Abraão é citado em 35 dos 114 capítulos do Alcorão. (Cf. PETERS, F. E. Islam: a guide for Jews andChristians. New Jersey, Princeton University Press, 2003, p.9). Como a tradução do Alcorão que estásendo utiliza neste trabalho, feita por Mansour Challita, emprega o nome “Abraão”, também adotarei essenome aqui, em vez de usar o nome “Ibrahim”. 12
  13. 13. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________o Alcorão se apropria da figura de Abraão, desvinculando-o assim de sua matrizjudaica: “Não era Abraão judeu ou cristão. Era um homem de fé pura e um submisso. Enão era um idólatra” (A Tribo de Omram, 3.67).46 Outro trecho do Alcorão diz: “Seguea religião de Abraão, um homem de fé pura, que não era um dos idólatras” (As Abelhas,16.123). O Alcorão também dedica um grande espaço para tratar do relato lendário quedescreve Abraão destruindo os ídolos de seu pai, Terá, onde ele, Abraão, atribui a umdos ídolos a culpa pela prática de tal ato (Os Profetas, 21.51-69).47 Deve-se dizer aindaque, assim como a Bíblia Hebraica, o Alcorão também se refere a Abraão como amigode Deus, dizendo: “Deus elegeu Abraão por amigo (ḥalil)” (As Mulheres, 4.125).Entretanto, talvez a questão mais divergente entre a Bíblia Hebraica e o Alcorão, no quediz respeito a Abraão, seja a questão que envolve a identidade daquele que Abraãoofereceria em sacrifício a Deus. A Bíblia Hebraica diz que Isaque seria sacrificado(Gênesis 22.1-19). Já o Alcorão, embora também mencione esse episódio em suaspáginas, todavia, acaba não mencionando o nome daquele que seria sacrificado (cf. AsFileiras, 37.99-111). Porém, como em seguida fala-se sobre as boas novas que Abraãorecebeu de Isaque (“e nós demos-lhe as boas novas de Isaque”, As Fileiras, 37.111),48os comentaristas e exegetas do Alcorão entendem que a referência só poderia ser feita aIsmael, uma vez que Abraão acabara de receber “as boas novas do nascimento deIsaque”.49 Em resumo, apesar da existência de algumas poucas divergências, a BíbliaHebraica e o Alcorão concordam, em linhas gerais, sobre a centralidade de Abraão para46 Outra tradução diz que “Abraão não era nem judeu nem cristão, mas monoteísta sincero, moslim. E nãoera dos idólatras”. (Cf. NASR, Helmi. (Trad.). Tradução do Sentido do Nobre Alcorão para a LínguaPortuguesa. Al-Madinah Al-Munauarah, Complexo do Rei Fahd para a impressão do Alcorão Nobre,S.d.).47 Essa lenda sobre Abraão e os ídolos de seu pai aparece em um famoso conto midráshico. Isso significaque o conto era bastante antigo, a ponto de Maomé já conhecê-lo em sua época e empregá-lo no Alcorão.Para saber mais sobre esse conto, veja: PATTERSON, José. Angels, Prophets, Rabbis and Kings from theStories of the Jewish People. Wallingford, Peter Lowe, 1991, p.22ss; UNTERMAN, Alan. (ed.).Dicionário Judaico de Lendas e Tradições. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1992, p.11.48 KHALIDI, Tarif. (Trad.). The Qur’an, p.365.49 ALI, Maulana Muhammad. The Holy Qur’ān: Arabic Text, English Translation and Commentary.Lahore, Pakistan, Ahmadiyyah Anjuman Isha‘at Islam, 1973, p.860. Para um excelente estudocomparativo sobre o sacrifício de Isaque relatado na Bíblia Hebraica versus o sacrifício de Ismaelencontrado no Alcorão, veja: FIRESTONE, Reuven. Comparative Studies in Bible and Qur’ān: A FreshLook at Genesis 22 in Light of Sura 37. In: HARY, Benjamin H., HAYES, John L. & ASTREN, Fred.(eds.). Judaism and Islam Boundaries, Communication, and Interaction: Essays in Honor of William M.Brinner. Leiden, Brill, 2000, pp.169-184. 13
  14. 14. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________a sua fé em suas Escrituras.50 Ora, se Ismael e Isaque eram, ambos, filhos de Abraão e,portanto, irmãos, logo, não há motivo para que judeus e muçulmanos não partilhem damesma bênção de seu personagem ancestral.50 ELKAYAM, Asher. The Qur’an and Biblical Origins: Hebrew, Christian and Aramaic Influences InStriking Similarities. Bloomington, Xlibris Corporation, 2009, p.37. 14
  15. 15. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________5. DETERMINISMO VERSUS LIVRE-ARBÍTRIO O ser humano é “livre” em suas ações ou está fadado a vestir sempre uma “camisade força invisível” que tolhe a sua liberdade? Antes de verificar sucintamente como aBíblia Hebraica e o Alcorão abordam essa controversa questão, é necessário definirmosprimeiro o que queremos dizer com os termos “determinismo” e “livre-arbítrio”.Segundo Rudman, determinismo é: a crença de que o pensamento, ação e sentimentos humanos são, em um maior ou menor grau, controlados por uma grande força e que os seres humanos têm pouco ou nenhum livre-arbítrio de si mesmos. Esta força pode ser chamada Deus ou Destino, ou os dois podem ser vistos como idênticos.51 Já o livre-arbítrio pode ser definido como “o poder das pessoas de originar outrazer à existência os propósitos e fins que guiam suas ações”. 52 Apesar de reconhecer ainsuficiência e a complexidade de tais conceitos, iremos, contudo, adotá-los em nossotrabalho. Verifiquemos, então, como os dois livros sagrados ora em estudo abordamesse controverso tema. De acordo com a Bíblia Hebraica, está determinado, entre outras coisas, que cadaano tenha várias estações (Gênesis 1.14), que o homem irá morrer algum dia (Gênesis3.19; 1 Reis 2.2), que Deus é tanto o doador da vida quanto Aquele que dá um fim a ela(1 Samuel 2.6), que as águas fiquem represadas, de maneira que não avancem além doslimites estipulados por Deus (Jó 38.8-11) e que nada e ninguém pode ir contra as açõese a vontade de Deus (Isaías 43.13). Por outro lado, o mesmo Tanakh que enquadra ohomem dentro de um esquema cósmico com leis definidas e pré-determinadas tambémclassifica este mesmo homem como um agente livre. Tal fato pode ser constatado emtextos que dizem, por exemplo, “te tenho proposto a vida e a morte, a bênção e amaldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua semente” (Deuteronômio30.19) e “se quiserdes e ouvirdes, comereis o bem desta terra. Mas, se recusardes efordes rebeldes, sereis devorados à espada” (Isaías 1.19,20). Como pode ser percebidonestes breves exemplos, a Bíblia Hebraica vive numa constante tensão filosófico-51 RUDMAN, Dominic. Determinism and Anti-Determinism in the Book of Koheleth. [The Jewish BibleQuarterly]. Vol.XXX, Nº 2. Jerusalem, Jewish Bible Association Press, 2002, p.1.52 KANE, R. Free Will and Values. Albany, State University of New York Press, 1985, p.22. 15
  16. 16. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________teológica que, ora enfatiza o determinismo divino, ora ressalta a liberdade humana.Como o Tanakh ensina estas duas verdades, então, torna-se necessário apresentar uma“terceira via” argumentativa que leve em consideração estes dois pontos extremos emconjunto. Creio que Arthur W. Pink faz isso muito bem, ao dizer: Duas coisas são indisputáveis: a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. [...] Reconhecemos que existe, sem dúvida, o perigo de salientar demais uma delas e negligenciar a outra. [...] Ressaltar a soberania de Deus, sem afirmar, ao mesmo tempo, a responsabilidade do homem, tende ao fatalismo; [Por outro lado], preocupar-se tanto em manter a responsabilidade do homem, ao ponto de perder de vista a soberania de Deus, é exaltar a criatura e desonrar o Criador.53 O Alcorão, apesar de ensinar tanto sobre a liberdade humana54 quanto sobre odeterminismo divino, tende a enfatizar este último. Os seguintes textos exemplificamisso muito bem: “Deus guiou os que acreditavam na verdade e desencaminhou osoutros. Deus guia quem quiser na senda da retidão” (A Vaca, 2.213), “Nada nosacontecerá senão o que Deus determinou” (O Arrependimento, 9.51), “se Deus não otivesse determinado, eu não vo-lo teria recitado [o Alcorão]” (Jonas 10.16), “Quemdetermina todas as coisas? Responderão: Deus” (Jonas 10.31), “Deus não criou os céuse a terra e [tudo] quanto existe entre eles senão pela verdade e por um prazopredeterminado” (Os Bizantinos, 30.8), “Cada um de nós tem seu lugar predestinado”(As Fileiras, 37.164), “Não pertence a crente algum e a crente alguma, quando Deus eSeu Mensageiro decidirem algo, escolher outra opção” (Os Coligados, 33.36),“predeterminamos a data de vossa morte – e ninguém escapa de Nós” (O Dia Inelutável,56.60),55 “Ele [Deus] determinou uma medida para cada coisa” (O Divórcio, 65.3) e“[Deus] determinou e orientou o destino de tudo o que criou” (O Altíssimo, 87.3).53 PINK, A. W. Deus é Soberano. São José dos Campos, Editora Fiel, 1997, p.5. Os acréscimos entrecolchetes são meus.54 Algumas suras falam sobre a responsabilidade humana de forma ampla, destacando, portanto, oconceito de livre-arbítrio. Alguns exemplos: 4.84; 10.41; 42.30; 46.19; 57.11.55 Aqui, o Alcorão entende tradicionalmente que o pronome na primeira pessoa do plural, “nós”, queocorre indiretamente no início da oração e diretamente no seu final seja uma referência a Deus. Para umaampla discussão sobre o significado desse pronome em todo o Alcorão, como uma possível referência aDeus, aos anjos, ou a uma mera figura de linguagem, veja: MCCANTS, William F. Founding Gods,Inventing Nations: Conquest and Culture Myths from Antiquity to Islam. New Jersey, PrincetonUniversity Press, 2012, pp.37-40. 16
  17. 17. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________ Todavia, assim como ocorre com a Bíblia Hebraica, o fato de o Alcorão tambémconter ensinamentos tanto sobre a liberdade humana quanto sobre o determinismodivino, requer, de igual modo, uma posição equilibrada sobre o assunto. Dessa vez, opensador muçulmano, aiatolá Nasir Makarim Shirazi, nos ajuda com sua concisa, mascerteira opinião, ao dizer: [...] nós sabemos que os seres humanos têm liberdade de escolha e livre-arbítrio, ao mesmo tempo em que sabemos que Deus é o Governante sobre todas as pessoas e ações.56 Ora, diante dessa tensão bíblica e qurânica sobre o complexo tema dodeterminismo divino e da liberdade humana, a que conclusão podemos chegar? Pensoque as posições extremas devem ser evitadas. Creio que se adotarmos apenas opensamento determinista como verdade e negarmos o livre-arbítrio, acabaremospendendo inevitavelmente para o fatalismo. Por outro lado, se aceitarmos unicamente oconceito do livre-arbítrio e rejeitarmos o determinismo divino, estaremos criando ummundo totalmente ilusório. Além disso, ao adotarmos esta última opção estaremosreduzindo Deus à condição de um ser totalmente impotente e insignificante e, porconseguinte, dispensável em “nosso” mundo. Sendo assim, devemos dizer neste pontoque “determinismo” e “livre-arbítrio” não são duas verdades necessariamenteirreconciliáveis. Isso foi argumentado de maneira bastante convincente por Geisler, que,dentre outras coisas, disse: [...] ninguém jamais demonstrou uma contradição entre predestinação e livre-escolha. Não há conflito insolúvel entre um acontecimento predeterminado por um Deus onisciente e um evento que é livremente escolhido por nós.5756 SHIRAZI, Nasir Makarim. Principios Basicos del Pensamiento Islamico. (Vol. IV: Justicia Divina).Tehran, Bonyad Be‘zat, 1987, p.43. Há entre os muçulmanos um grupo chamado qadarīah que nega apredestinação absoluta e acredita no poder (qadr) do livre-arbítrio humano. (Cf. HUGHES, ThomasPatrick. A Dictionary of Islam. New Dehli, AES Publications, 2001, p.478). O pensamento exposto porShirazi lembra a declaração do Pirkê Avot 3:15, que diz: ‟Tudo está previsto, [mas] a liberdade deescolha é concedida”. (Cf. BERKSON, William. Pirke Avot: Timeless Wisdom for Modern Life.Philadelphia, The Jewish Publication Society, 2010, p.126. O acréscimo entre colchetes é meu).57 GEISLER, Norman. Eleitos, Mas Livres: uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio. São Paulo, Editora Vida, 2001, pp.47,48. 17
  18. 18. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________ A meu ver, apesar desse relacionamento entre determinismo divino e livre-arbítriohumano se constituir um verdadeiro mistério, tal relacionamento não significanecessariamente contradição. Os argumentos produzidos pela razão humana, limitada efalível, não podem comprovar de forma inequívoca a suposta contradição entre essasduas verdades ensinadas tanto pelo Tanakh quanto pelo Alcorão. Assim, tanto odeterminismo quanto o livre-arbítrio, apesar de serem duas coisas distintas eaparentemente paradoxais, podem ser vistas, igualmente, como duas verdadescomplementares, que não são necessariamente mutuamente excludentes. 18
  19. 19. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________6. ESCATOLOGIA Finalmente, chegamos ao último tema de nosso estudo, o tema referente àescatologia. O vocábulo “escatologia” é oriundo de duas palavras gregas, eschatos,“último” e logos, “palavra, relato, declaração, consideração”.58 Trata-se da consideraçãoou estudo acerca dos eventos futuros e, portanto, últimos. No judaísmo, o termo “escatologia” está relacionado à esperança de “um futurocumprimento das promessas de Deus no momento em que Deus julgará todos os sereshumanos e iniciará uma era messiânica”.59 Contudo, como bem observou Gnilka: Escatologia trata da ação definitiva de Deus, que também acontece na história. Isso também se aplica quando ainda não se quer olhar para além das fronteiras da história, para uma vida no além. Tal é a situação no Antigo Testamento, que – não levando em conta os escritos mais tardios – ainda desconhece uma continuidade da vida do ser humano para além da morte, uma vida eterna no além. A história do mundo é o julgamento do mundo. Existe uma escatologia veterotestamentária.60 Essa escatologia histórica mencionada por Gnilka, a qual está presente na BíbliaHebraica, irá sofrer uma grande mudança com o surgimento da apocalíptica judaica.61A partir do surgimento desse gênero literário, a história passa a ser compreendida deoutra forma. Agora, a ação definitiva de Deus se realiza não somente na própria história,mas, sobretudo, além das fronteiras históricas, dando ensejo para que surjam, por58 LIDDELL, H. G. & SCOTT, R. An Intermediate Greek-English Lexicon. [Founded upon the SeventhEdition of Liddell and Scott’s Greek-English Lexicon]. Oxford, Oxford University Press, 1889,pp.319,476-477.59 PECK, Alan J. Avery. Eschatology (In Judaism). In: ESPÍN, Orlando O. & NICKOLOFF, James B.(eds.). An Introductory Dictionary of Theology and Religious Studies. Collegeville, The Liturgical Press,2007, p.410.60 GNILKA, Joachim. Bíblia e Alcorão – O Que os Une, O Que os Separa, p.175.61 A expressão “apocalíptica judaica” é usada para se referir a um tipo de gênero literário que empregaimagens simbólicas e visões que descrevem acontecimentos futuros nos fins dos tempos. (Cf.EISENBERG, Ronald L. Dictionary of Jewish Terms: a guide to the language of Judaism. Lanham,Taylor Trade Publishing, 2011, p.18). 19
  20. 20. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________exemplo, a esperança em uma vida no além, bem como, a crença na ressurreição dosmortos (cf. Daniel 12.1-3).62 A apocalíptica judaica é importante não somente para a compreensão daescatologia bíblica, mas também para a compreensão do próprio Alcorão, o qualtambém compartilha esse mesmo tema em suas páginas. Aliás, verifiquemos isso commaiores detalhes. Na Bíblia Hebraica, encontramos várias referências ao “dia do Senhor”.63Entender esse conceito não é algo fácil. Tal expressão pode fazer referência: a) a umjulgamento divino decisivo, breve ou remoto, na história, b) ao reinado soberano divinosobre todas as coisas, ou c) à manifestação divina especial num contexto de julgamentoe salvação, bem como, nos principais eventos da história humana. 64 Seja como for,parece que o sentido de “juízo” está mais presente nessa expressão.65 Esse conceito dejulgamento como o “dia” também aparece no Alcorão, onde lemos, por exemplo, sobre“o Soberano do dia do julgamento” (Abertura, 1.4) e sobre “o último dia” (A Vaca,2.228, 232). Além disso, encontramos também na Bíblia Hebraica, em seu estágio tardio, umareferência explícita à ressurreição, à vida eterna e ao sofrimento eterno: “e muitos quedormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna, e outros para vergonha edesprezo eterno” (Daniel 12.2). Esses mesmos elementos também podem serverificados no Alcorão, onde encontramos dezenas de referências ao “dia daressurreição”,66 além de várias outras menções feitas às recompensas e aos castigos62 Neusner, Chilton e Graham chamam essa abordagem escatológica que aparece tanto no judaísmotardio, quanto no cristianismo e no islamismo de “compreensão linear, unidirecional e teleológica dahistória”. (Cf. NEUSNER, Jacob, CHILTON, Bruce & GRAHAM, William. Three Faiths, One God: theformative faith and practice of Judaism, Christianity, and Islam. Boston, Brill Academic Publishers,2002, p.290).63 Veja, por exemplo: Isaías 2.12; 13.6,9; Joel 1.15; 2.1,11,31; Amós 5.18-20; Sofonias 1.7,14; Zacarias14.1.64 CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol.2. [D-G]. São Paulo, Hagnos,2001, p.440.65 METZGER, Bruce M. & COOGAN, Michael D. (eds.). The Oxford Companion to the Bible. Oxford,Oxford University Press, 1993, p.157.66 Veja, por exemplo, as suras: 2.85, 113, 174, 212, 275; 3.55, 77, 161, 180, 185, 194; 4.87, 109, 141,159; 5.14, 36, 64; 6.12; 7.32, 167, 172; 10.60, 93; 11.98, 99; 16.25, 27, 124; 17.13, 58, 62, 97; 18.105;19.95; 20.100, 124; 21.47; 22.9 etc. (Para maiores informações sobre o significado do “dia daressurreição” no Alcorão, veja: MEHAR, Iftikhar Ahmed. Al-Islam: Inception to Conclusion.Bloomington, AuthorHouse, 2003, pp.240-242). 20
  21. 21. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________existentes na vida além-túmulo.67 Dessa forma, a importância que o Alcorão confere àvida no além e à ressurreição o insere dentro do contexto da apocalíptica judaica, umsubtema da escatologia. Além desses temas, a Bíblia Hebraica e o Alcorão também têm em comum odiscurso sobre um novo céu e uma nova terra futuros (compare Isaías 65.17; 66.22, comAbraão, 14.48). De uma forma geral, podemos notar que a escatologia presente no Alcorão possuitraços que a aproximam mais da apocalíptica judaica tardia do que da escatologiahistórica presente na Bíblia Hebraica. Além do mais, podemos perceber também que areferência ao “dia do juízo” (yawm al-dīn) no Alcorão (Abertura, 1.4) encontra o seuparalelo nas várias alusões ao “juízo” divino (mišppāṭ) encontradas na Bíblia Hebraica.De qualquer modo, a temática escatológica pode ser claramente notada nestes doislivros sagrados e em suas teologias.67 Confira, por exemplo, as suras: 2.85, 114, 162; 4.93, 102, 151 (sobre os castigos) e 2.58, 62, 112; 3.57,136, 144 (sobre as recompensas). 21
  22. 22. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________CONCLUSÃO Este breve estudo que fizemos sobre alguns temas em comum entre a BíbliaHebraica e o Alcorão nos permitiu chegar às seguintes conclusões: Primeira, a Bíblia Hebraica e o Alcorão falam sobre a crença em um Deus único,o qual é, ao mesmo tempo, o Criador de todas as coisas. Nestes dois livros sagrados, opoliteísmo é fortemente rejeitado como idolatria, pois o que importa, de fato, é a fé em’ēl / allāh (termos estes que, como vimos, possuem afinidades morfológicas esemânticas) e a obediência (ou “submissão”) à Sua vontade. Este Deus único usou a SuaPalavra (mēmrā’ / ’amr) como instrumento da Sua obra criadora, trazendo assim àexistência os céus, a terra e o próprio homem. Segunda, o Deus único da Bíblia Hebraica e do Alcorão resolveu dar-se aconhecer à humanidade. Para isso, Ele escolheu se auto-revelar através de um livrosagrado que traz consigo o registro das Suas divinas palavras, que devem ser lidas,estudadas e praticadas. E este (s) livro (s) sagrado (s), por sua vez, veio (vieram) a serescrito (s) através da instrumentalidade de Seus servos: Moisés (especialmente) eMaomé. Terceira, a Bíblia Hebraica e o Alcorão conferem, ambos, grande destaque àpessoa de Abraão. Ele é tanto o patriarca dos judeus, que se veem como seus filhos(“filhos de Abraão”), quanto é o pai de Ismael, ancestral do povo árabe, segundo astradições judaica e árabe. Quarta, tanto a Bíblia Hebraica quanto o Alcorão apresentam em suas páginas atensão existente entre o determinismo divino e o livre-arbítrio humano. Apesar de oAlcorão pender mais para o primeiro destes conceitos do que o Tanakh, contudo, ambosmencionam tais elementos em seus escritos, retratando assim a sua compreensãoteológica, cosmológica e antropológica da complexa relação Deus-homem-mundo. Quinta, a escatologia também é um tema comum à Bíblia Hebraica e ao Alcorão.Porém, é um assunto muito mais trabalhado neste último, que, valendo-seprincipalmente da apocalíptica judaica, acabou desenvolvendo um conteúdoescatológico mais rico e variado do que aquele apresentado no Tanakh. Entretanto, osdois livros ressaltam tal tema, à sua maneira, em seus textos. Finalmente, a sexta e última conclusão à qual pudemos chegar neste trabalho e,talvez, a mais importante de todas, é que toda esta afinidade temática, todo estecompartilhamento de conceitos e crenças (ainda que de forma parcial) por parte da 22
  23. 23. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________Bíblia Hebraica e do Alcorão, a despeito de todas as suas idiossincrasias teológicas efilosóficas, devem servir de incentivo ao diálogo, à fraternidade, à cooperação mútua e,sobretudo, à paz, não somente entre judeus e muçulmanos, como também entre todos osdemais povos. Neste estudo sobre alguns temas comuns ao Alcorão e à Bíblia Hebraicapudemos aprender, acima de tudo, que quando nos dispomos a conhecer melhor o outroe as suas crenças, acabamos, na verdade, conhecendo melhor a nós mesmos! 23
  24. 24. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________BIBLIOGRAFIAALI, Maulana Muhammad. The Holy Qur’ān: Arabic Text, English Translation andCommentary. Lahore, Pakistan, Ahmadiyyah Anjuman Isha‘at Islam, 1973.ALI, Michael Nazir. Islam, a Christian Perspective. Philadelphia, The WestminsterPress, 1983.ALMEIDA, João Ferreira de. (trad.). Bíblia Sagrada. [Edição Revista e Corrigida]. Riode Janeiro, Imprensa Bíblica Brasileira, 1991.BARCLAY, William. Great Themes of the New Testament. Louisville, WestminsterJohn Knox Press, 2001.BARRERA, Júlio Trebolle. A Bíblia Judaica e a Bíblia Cristã: introdução à história daBíblia. [trad. Ramiro Mincato]. Petrópolis, Vozes, 1995.BASKIN, Judith R. (ed.). The Cambridge Dictionary of Judaism & Jewish Culture.Cambridge, Cambridge University Press, 2011.BERKSON, William. Pirke Avot: Timeless Wisdom for Modern Life. Philadelphia, TheJewish Publication Society, 2010.CAMPO, Juan E. Encyclopedia of Islam. [Encyclopedia of World Religions]. NewYork, Infobase Publishing, 2009.CHALLITA, Mansour. (trad.). O Alcorão. Rio de Janeiro, BestBolso, 2011.CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol.2. [D-G]. SãoPaulo, Hagnos, 2001.CHANAN, Ami Ben. Qur’an-Bible Comparison: A Topical Study of the Two MostInfluential and Respectful Books in Western and Middle Eastern Civilizations.Bloomington, Trafford Publishing, 2011.COOGAN, Michael David. (ed.). Stories From Ancient Canaan. Louisville, TheWestminster Press, 1978.COWAN, J. Milton (ed.). A Dictionary of Modern Written Arabic. [Arabic-English].Wiesbaden, Otto Harrassowitz Verlag, 1979.CROLLIUS, Ary A. Roest. The Word in the Experience of Revelation in Qur’ān andHindu Scriptures. [Documenta Missionalia | Vol. 8]. Roma, Gregorian & Biblical Press,1974.CULLMANN, Oscar. A Formação do Novo Testamento. [trad. Bertoldo Weber]. SãoLeopoldo, Sinodal, 2001. 24
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  26. 26. A r t i g o T e o l ó g i c o | A Bíblia Hebraica e o Alcorão em Diálogo: Reflexões SobreAlguns Temas Comuns Aos Dois Livros Sagrados | por Carlos Augusto Vailatti | 2012___________________________________________________________________________________________________________________________________KHALIL, Shauqi Abu. Atlas of the Qur’an: Places, Nations, Landmarks. Houston,Darussalam Publications, 2003.LEAMAN, Oliver. (ed.). The Qur’an: An Encyclopedia. Abingdon, Routledge, 2006.LIDDELL, H. G. & SCOTT, R. An Intermediate Greek-English Lexicon. [Foundedupon the Seventh Edition of Liddell and Scott’s Greek-English Lexicon]. Oxford,Oxford University Press, 1889.MCCANTS, William F. Founding Gods, Inventing Nations: Conquest and CultureMyths from Antiquity to Islam. New Jersey, Princeton University Press, 2012.MEHAR, Iftikhar Ahmed. Al-Islam: Inception to Conclusion. Bloomington,AuthorHouse, 2003.METZGER, Bruce M. & COOGAN, Michael D. (eds.). The Oxford Companion to theBible. Oxford, Oxford University Press, 1993.NASR, Helmi. (trad.). Tradução do Sentido do Nobre Alcorão para a LínguaPortuguesa. Al-Madinah Al-Munauarah, Complexo do Rei Fahd para a impressão doAlcorão Nobre, S.d.NEUSNER, Jacob, CHILTON, Bruce & GRAHAM, William. Three Faiths, One God:the formative faith and practice of Judaism, Christianity, and Islam. Boston, BrillAcademic Publishers, 2002.NICHOLSON, Reynold Alleyne. Studies in Islamic Mysticism. Charleston, ForgottenBooks, 1967.PATERSON, Andrea C. Three Monotheistic Faiths – Judaism, Christianity, Islam.Bloomington, AuthorHouse, 2009.PATTERSON, José. Angels, Prophets, Rabbis and Kings from the Stories of the JewishPeople. Wallingford, Peter Lowe, 1991.PETERS, F. E. Islam: a guide for Jews and Christians. New Jersey, PrincetonUniversity Press, 2003.PINK, A. W. Deus é Soberano. São José dos Campos, Editora Fiel, 1997.POPE, Marvin H. El in the Ugaritic Texts. Vol.2. [Vetus Testamentum: Supplements].Leiden, Brill, 1955.RAHLFS, Alfred. Septuaginta. Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 2004.ROTH, Cecil. (ed.). The Standard Jewish Encyclopedia. Jerusalem, MassadahPublishing Company Ltd., 1958/9. 26
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