Successfully reported this slideshow.
We use your LinkedIn profile and activity data to personalize ads and to show you more relevant ads. You can change your ad preferences anytime.

Poesia e Bíblia Hebraica: Uma Análise do Poema "Avshalom" de Yona Wallach

2,894 views

Published on

Poesia, Yona Wallach, Bíblia Hebraica

  • Login to see the comments

Poesia e Bíblia Hebraica: Uma Análise do Poema "Avshalom" de Yona Wallach

  1. 1. > W , hW z t s 1 ARTIGO LITERÁRIO POSESIA E BÍBLIA HEBRAICA: UMA ANÁLISE DO POEMA “AVSHALOM” DE YONA WALLACH por Carlos Augusto VailattiRESUMO O presente artigo tem por objetivo analisar o poema chamado “Avshalom”de autoria da poetisa israelense Yona Wallach através do ponto de vista literário,lexical, ideológico e comparativo. No que diz respeito a este último item, nosinteressará estudar as semelhanças e as dissimilaridades existentes entre estepoema e alguns trechos bíblicos do livro de 2 Samuel, os quais também tratam detraços biográficos do personagem Avshalom (Absalão).Palavras-Chave: Yona Wallach, Avshalom, Análise Literária, 2 Samuel.ABSTRACTThis article aims to analyze the poem called Avshalom authored by the Israelipoet Yona Wallach through the literary point of view, lexical, ideological andcomparative. Regarding this last item, will interest us to study the similarities anddissimilarities between this poem and some biblical excerpts of the book of 2Samuel, which also deal with the traits biographical of character Avshalom(Absalom).Keywords: Yona Wallach, Avshalom, Literary Analysis, 2 Samuel.1 Este artigo foi apresentado originalmente como trabalho em 12/2010 para a Faculdade de Filosofia,Letras e Ciências Humanas (Departamento de Letras Orientais) da Universidade de São Paulo (USP).
  2. 2. W , hW z t sINTRODUÇÃO Uma das poetisas mais controvertidas das últimas décadas foi, sem dúvidaalguma, a israelense Yona Wallach. Wallach nasceu na cidade israelense deKiriat Ono, próximo a Tel Aviv, em 1944, e morreu ainda muito jovem emdecorrência de um câncer de mama, em 1985.2 Portanto, quando faleceu, elatinha apenas 41 anos de idade. Todavia, além da precocidade da sua morte, outroacontecimento trágico que marcou a sua vida foi a morte de seu pai, MichaelWallach, o qual foi morto de forma brutal durante a Guerra da Independência deIsrael, em 1948. Quando seu pai morreu, Wallach tinha somente quatro anos deidade, e, conforme pode ser visto em alguns dos seus poemas, essa “orfandade”influenciou grandemente os seus trabalhos.3 Essa poetisa, orgulhosa de sua bissexualidade, chocou os seus leitores comseus poemas ousados, nos quais misturava sexualidade e espiritualidade.4 Alémdisso, os seus poemas também combinam elementos do rock and roll, dapsicologia junguiana e da gíria de rua.5 Todavia, embora estejamos diante de uma escritora cujos poemas refletemum vigoroso ecletismo, no presente estudo, porém, buscaremos analisar um deseus poemas que possui um pano-de-fundo nitidamente bíblico, a saber:Avshalom. O nosso objetivo será analisar este poema sob o ponto de vistaliterário, lexical, ideológico e comparativo, sendo que sob esse último aspectonos interessará fazer a correlação entre o poema de Wallach e o texto da Bíblia2 Yona Wallach. [Breve biografia]. Wikipedia – The Free Encyclopedia. Disponível em:http://en.wikipedia.org/wiki/Yona_Wallach. Acesso em: 25/10/2010.3 Guide to the City of Qyriat Ono. (Arquivo em PDF em inglês). Disponível em: http://www.kono.org.il.Acesso em: 20/10/2010. A influência da ausência paterna parece ser vista de alguma forma, por exemplo,nos seguintes poemas de Yona Wallach nos quais ela menciona a figura do pai: “Novamente a Alma”,“Hebraico”, “Quando Você Vier para Deitar Comigo, Venha como Meu Pai” e “Meu Pai e Minha MãeSaíram para Caçar”, dentre outros.4 Yona Wallach. [Breve biografia]. Wikipedia – The Free Encyclopedia.5 Yona Wallach. [Breve biografia]. Disponível em: http://www.ithl.org.il/author_info.asp?id=280. Acessoem: 24/10/2010. W
  3. 3. W , hW z t sHebraica que lhe serve de inspiração para a composição do seu poema. Veremoscomo estes textos interagem e que semelhanças e dissimilaridades os mesmosnos apresentam. Bem, depois dessas informações preliminares, vejamos então oque nos reserva a leitura e a análise do poema Avshalom. W
  4. 4. W , hW z t sI – AVSHALOM: O POEMA TRANSLITERADO E TRADUZIDO 6 Poema Transliterado Poema Traduzido1 ’ani mukhrahah pa‘am nosefet 1 Eu sou obrigada de novo a2 lehizakher biveni ’avshalom 2 relembrar meu filho Avshalom3 shesa‘arotayn nitpesu berahmi 3 cujos cabelos ficaram presos no4 velo’ yatsa’ li meu útero5 ligmor ’et ’avshalom beni 4 e eu não logrei6 ’ani bonah ’efsharuyot 5 ’et acabar Avshalom meu filhohargashati 6 eu gero as possibilidades de7 harahamim shotfim bi minhas emoções8 vehara‘av ha’efshari 7 a piedade jorra nas entranhas9 retsonot hatorashah 8 e a fome possível10 ve’avshalom shelo’ hurshah 9 o desejo de descendência11 begilgul ’aher ’avshalom yihyeh 10 e Avshalom que não foi autorizado12 ’ahuvi va’ani ’ahush zikhra 11 em outra encarnação Avshalom13 keshe’avshalom ’ahuvi será14 tehushah gufanit ’o ’eykh bitni 12 meu amante e eu sentirei a15 reyqah me’avshalom beni lembrança dela16 sidur shel kokhavim 13 quando meu amante Avshalom17 noflim veherev macah 14 é uma sensação corpórea ou como meu ventre18 bamagnet ‘al liba 15 está vazio de Avshalom meu19 haregashah meduyaq filho20 bameh tilahem 16 um concerto de astros21 veal‘ mah tanuah 17 cai e a espada golpeia22 haruah 18 com um magneto o coração dela23 le’an tisaakha 19 exato sentimento:24 haruah beni 20 o que guerreará 21 e sobre o que descansará 22 o vento 23 aonde levará 24 o vento meu filho6 Poema de Yona Wallach traduzido diretamente do hebraico pelo Prof. Dr. Moacir Aparecido Amâncio. W
  5. 5. W , hW z t sII – ANÁLISE LITERÁRIA O poema acima transliterado e traduzido nos apresenta uma variedade deelementos literários que merecem a nossa análise de forma mais pormenorizada.Dentre estes elementos, destacamos os seguintes: 2.1) Estrutura Quiásmica do Poema Em primeiro lugar, podemos perceber que Avshalom é um poema que foiconstruído dentro da estrutura literária do quiasmo.7 Tal estrutura pode ser vistanas linhas do poema que selecionamos abaixo.2 (A) relembrar meu filho Avshalom 5 (B) acabar Avshalom meu filho 10 (C) e Avshalom que não foi autorizado 11 (D) em outra encarnação Avshalom será 12 (D) meu amante e eu sentirei a lembrança dela 13 (D’) quando meu amante Avshalom 15 (B’) está vazio de Avshalom meu filho24 (A’) o vento meu filho Neste bloco literário, representado pelas linhas 2-5-10-11-12-13-15-24 dopoema, podemos notar um padrão “quiásmico” em estilo A-B-C-D-D’-B’-A’, noqual se pode perceber uma progressão seguida de uma regressão no pensamentoda autora. Na escala progressiva, o poema apresenta Absalão (Avshalom): 1)como filho (2A-5B), 2) como alguém que “não foi autorizado” ou “abortado”(10C) e 3) como amante (11D-12D). Já na escala regressiva, o poema, em ordem7 Quiasmo é o nome dado à “figura de estilo pela qual se repetem palavras invertendo-se-lhes a ordem”.(Cf. CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira da Língua Portuguesa. Riode Janeiro, Nova Fronteira, 1997, p.654). W
  6. 6. W , hW z t sinvertida, apresenta Absalão: 1) como amante (13D’) e 2) como filho (15B’-24A’). Percebe-se na ordem invertida a falta do item C’, isto é, a referência aAbsalão como alguém que “não foi autorizado” ou “abortado”. Segundo Patzia e Petrotta, o propósito do autor ao utilizar esse tipo derecurso literário, o quiasmo, que é caracteristicamente semítico, pode ser o dequerer mostrar progressão de pensamento e intensificação de significado.8 Em setratando do presente poema, tal propósito pode ser visto claramente no usorepetido que Wallach faz do nome daquela criança que ela esperaria que nascessede seu ventre e para quem ela, inclusive, já tinha escolhido o nome, isto é,Avshalom (Absalão). Wallach cita o nome do filho abortado, “Avshalom”, seisvezes (linhas: 2-5-10-11-13-15). Além disso, ela se dirige a Avshalom chamando-o de “meu filho” (beni) quatro vezes (linhas: 2-5-15-24) e também se refere a elecomo “meu amante” (’ahuvi) duas vezes (linhas: 12-13). Logo, podemoscompreender a tríade Avshalom – meu filho – meu amante como sendo o centrodeste poema wallachiano. Lilach Lachman, ao comentar a construção dessepoema, declara: “Absalão” é construído com a “lógica” do sentimento e da fantasia. Ela [Yona Wallach] transforma o trauma de um aborto em uma mistura um tanto surreal de nascimento, erotismo e morte. Em uma metamorfose, o filho que não nasceu será seu amante (linhas 11-12) assim como ele é sua perda.9 Diante desses dados podemos notar que Avshalom é um poema que possuiuma forma de dispor as palavras e temas seguindo uma estrutura literáriabastante concatenada.8 “Quiasmo”, in: PATZIA, Arthur G. PETROTTA, Anthony J. Dicionário de Estudos Bíblicos. [Trad.Pedro Wazen de Freitas]. São Paulo, Editora Vida, 2003, pp.129,130.9 LACHMAN, Lilach. In: BURNSHAW, Stanley (ed.) et al. The Modern Hebrew Poem Itself. [New andUpdated Edition]. Detroit, Wayne University Press, 2003, p.274. Os acréscimos entre colchetes são meus. W
  7. 7. W , hW z t s 2.2) A Questão da Identidade Encontramos também em Avshalom uma questão relacionada à “definiçãoda identidade”10 da personagem feminina das linhas 12 e 18. Wallach fala sobre a“lembrança dela” (zikhra) na linha 12 e também menciona o “coração dela”(liba) na linha 18 do poema. Afinal, a quem se refere essa preposição seguida deum pronome feminino? Bem, se levarmos em consideração todo o contexto dopoema, nos veremos convencidos de que a própria Yona Wallach é essa mulhercuja identidade não é citada explicitamente, mas cujo contexto não deixa dúvidasa respeito de quem ela é de fato. Nas linhas 11 e 12, Wallach escreve: “em outra encarnação Avshalom serámeu amante e eu sentirei a lembrança dela”. Já nas linhas 1 e 2, ela declara: “Eusou obrigada de novo a relembrar meu filho Avshalom”. Então, ao dizer: “eusentirei a lembrança dela” (linha: 12), a poetisa Wallach está se referindo àpersonagem do seu poema (que é ela mesma), dirigindo-se a si própria naterceira pessoa. Tal fato é reforçado pelas metáforas do “concerto de astros(estrelas) que cai” e pela “espada [que] golpeia com um magneto o coração dela(isto é, da própria Wallach, por causa do aborto que ela experimentou)”.11 Sendo assim, o aparente “enigma” da identidade da mulher “anônima” daslinhas 12 e 18 é “desvendado” pelo próprio contexto do poema que acaba sendoauto-explicativo. 2.3) Ruptura do Fluxo Literário Em seu poema, Avshalom, percebemos ainda que Wallach, em umdeterminado momento, rompe com o fluxo literário convencional e fragmenta o10 Para um estudo detalhado sobre a questão da identidade em vários poemas de Yona Wallach, veja:CARANDINA, Elisa. La Problematica Identitaria in Alcune Poesie Di Yona Wallach. XLIV, 3. (Articoliin PDF). [Analli Di Ca’ Foscari. Rivista Della Facoltà Di Lingue e Letterature Straniere Dell’ UniversitàCa’ Foscari Di Venezia]. Venezia, Università Ca’ Foscari, 2005.11 Lilach Lachman também enxerga as metáforas das “estrelas que caem” e da “espada que golpeia”como alusões à experiência física do aborto vivida pela própria Yona Wallach. (Cf. LACHMAN, Lilach.In: BURNSHAW, Stanley (ed.) et al. The Modern Hebrew Poem Itself, p.274). W
  8. 8. W , hW z t sseu pensamento, provocando rupturas na sintaxe do poema. Isto pode ser vistonas linhas 13 e 14, onde ela escreve: “quando meu amante Avshalom (...) é umasensação corpórea ou como meu ventre”. Essa ruptura abrupta no fluxo do pensamento parece fazer ecoar dealguma forma a dor que Wallach sente por não ter o seu filho ao seu lado, vivo,no momento em que escreve. Tal situação parece descrever uma mente que estáum tanto quanto confusa – todavia, isto é feito deliberadamente – o que acabarefletindo na estrutura desconexa de seu texto. W
  9. 9. W , hW z t sIII – ANÁLISE LEXICAL12 Já o propósito da análise lexical será discutir e compreender o(s)significado(s) de algumas das principais palavras em hebraico que aparecem nopoema que ora estamos estudando. Tendo este propósito em mente, analisemosentão algumas palavras que selecionamos para o nosso estudo. Na linha 2, o verbo lehizakher, que é traduzido como “relembrar”, vem daraiz zkr (zayin-kaf-reysh), de onde vêm as palavras: - zakhar (com qamats seguido de patah), “lembrar, recordar, mencionar, aludir”; - ziker ou lezaker, “lembrar, fazer lembrar”; “masculinizar”; - zakhar (com dois qamats), “masculino”; - zekher, “memória, recordação, sugestão, alusão”; - zikaron, “memória, recordação”; - zakhrut, “virilidade”. Neste ponto, é interessante observarmos a presença do elemento lúdico napoesia de Wallach, pois ela faz um trocadilho com algumas palavras derivadas daraiz hebraica zkr, através do qual mistura deliberadamente o tema da “memória”com o tema da “sexualidade”, tema este que é sempre recorrente em seuspoemas. Aliás, vejamos o que Linda Zisquit tem a nos dizer sobre isso: Neste poema, Wallach usa a palavra ‘ser lembrado’ (le-hizakher) e depois ‘sua memória / traço’ (zikhra), brincando com a problemática associação na etimologia hebraica entre memória (zikaron) e masculinidade (zakhar) ou macheza. Portanto, “Eu devo relembrar” busca fazer essa conexão entre ‘sua memória’ e ‘sua macheza’.1312 Para efetuar tal análise me baseio neste item em: BEREZIN, Rifka. Dicionário Hebraico-Português.São Paulo, Edusp, 2003; HATZAMRI, Abraham HATZAMRI, Shoshana More. Dicionário Português-Hebraico e Hebraico-Português. São Paulo, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 2000.13 O original em inglês traz: “In this poem, Wallach uses the word ‘be reminded of’(le-hizakher) and later‘her memory/trace’ (zikhra), playing on the problematic association in Hebrew etymology betweenmemory (zikaron) and maleness (zakhar) or malehood. Hence, ‘I must remember’ seeks to render thatconnection between ‘her memory’ and ‘her malehood’”. (Cf. ZISQUIT, Linda. (Trad.). Wild Light:selected poems of Yona Wallach. New York, The Sheep Meadow Press, 1997, p.69). W
  10. 10. W , hW z t s Na linha 3 merece destaque a palavra berahmi, “no meu útero”. Aqui,notamos novamente a presença do elemento lúdico. Wallach se utiliza da raizhebraica rhm (reysh-hêt-mêm) para fazer um trocadilho entre os termos rehem,“útero, matriz” e rahamim, “misericórdia, piedade, compaixão, clemência” (linha7). Aliás, a palavra hebraica rahom, “amar”, também é proveniente da mesmaraiz. Logo, associar o “útero” à “piedade” e, implicitamente, ao ato de “amar”, é,sem dúvida alguma, um belíssimo pensamento. Na linha 10, o vocábulo hurshah, “autorizado, permitido” se refere ao fatode que Absalão não foi autorizado “a existir, a viver, a nascer”, uma alusão aoaborto que Yona Wallach havia sofrido. Na linha 11 encontramos o curioso vocábulo gilgul, que pode sertraduzido de várias maneiras, tais como: “rotação, giro”, “metamorfose”, “transe”ou ainda “transmigração”. De acordo com o significado que dermos à palavragilgul, poderemos ter pelo menos três interpretações distintas para a oraçãobegilgul ’aher ’avshalom yihyeh ’ahuvi. Por exemplo: Primeira, se traduzirmos gilgul por “metamorfose”, então a oração dopoema terá um significado voltado para a fantasia literária da autora, ou seja,“em outra metamorfose Absalão será meu amante”. Segunda, se traduzirmos gilgul por “transe”, logo, a oração terá umsignificado mais existencial e pessoal, que pode fazer referência ao “transenarcótico” provocado em Wallach em decorrência do freqüente uso que fazia deentorpecentes. Neste caso, a oração do poema ficaria assim: “em outro transeAbsalão será meu amante”. Terceira, se traduzirmos gilgul por “transmigração”, fazendo alusão àcrença na “transmigração das almas” (gilgul neshamot), então a oração terá umsignificado mais espiritual e religioso, pois estará fazendo menção à crença nareencarnação. Seguindo este último pensamento, a oração do poema ficaria dessaforma: “em outra encarnação Absalão será meu amante”. W
  11. 11. W , hW z t s Entretanto, em razão desses três elementos (fantasia literária, uso dedrogas e espiritualidade) estarem muito presentes na vida e nos textos de YonaWallach, qualquer uma das três opções de tradução para gilgul estaria correta,pois se encaixaria bem no fluxo narrativo do poema e em seu contexto literário,bem como, se harmonizaria com o modus vivendi da escritora. Na linha 16 vemos a palavra sidur, que foi traduzida como “um concerto”e que significa também “ordenação, arranjo”; “trabalho tipográfico”; “livro deorações”. Tal palavra vem da raiz sdr (samekh-dálet-reysh) de onde vem tambéma palavra seder, que faz referência à “primeira noite da páscoa judaica”. Por fim, nas linhas 22 e 24 nós nos deparamos com a palavra ruah, cujossignificados são: “vento, brisa”; “ar, atmosfera”; “alma”; “tendência, espírito”;“fantasma, aparição”; “ponto cardeal, lado”. Como a palavra ruah tambémsignifica “espírito”, e, como o poema se insere dentro do contexto geral que tratado tema do aborto (linhas: 1-2-3-9-10) e da reencarnação (linhas: 11-13), então,traduzir o termo ruah por “espírito” parece ser mais apropriado. Sendo assim, aslinhas 22 a 24 ficariam assim: “o espírito | aonde levará | o espírito meu filho”.1414 É curioso notar a semelhança existente entre as linhas 22 a 24 de Avshalom (se traduzirmos ruah por“vento”), isto é, “o vento | aonde levará | o vento meu filho”, e o texto do Evangelho de João 3.8a, quediz: to. pneu/ma o[pou qe,lei pnei/ kai. th.n fwnh.n auvtou/ avkou,eij( avllV ouvk oi=daj po,qen e;rcetai kai. pou/u`pa,gei(literalmente: “o vento onde quer sopra e a voz dele ouves, mas não sabes donde vem e aondevai”). (Cf. ALAND, Barbara, ALAND, Kurt, KARAVIDOPOULOS, Johannes, MARTINI, Carlo M. METZGER, Bruce M. (eds.). The Greek New Testament. Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 2005). W
  12. 12. W , hW z t sIV – ANÁLISE IDEOLÓGICA Antes de tudo, se faz necessário definirmos aqui o que pretendemos dizercom “ideologia”. Usamos o termo “ideologia” para nos referirmos ao “modo dever, próprio de um indivíduo ou de uma classe”.15 No presente caso, portanto,buscaremos analisar os principais temas existentes no poema, os quais, segundoentendemos, apontam para a maneira peculiar wallachiana de olhar para certoselementos da vida a partir da sua experiência vivencial. Em Avshalom,detectamos seis temas principais: - Aborto - Bíblia Hebraica - Descendência - Reencarnação - Complexo de Édipo às Avessas (Complexo de Jocasta) - Vida Além-Túmulo Em primeiro lugar, podemos perceber que o tema do aborto, (que, aliás,foi experimentado pela autora duas vezes) é retratado de forma bastante explícitaem Avshalom, principalmente na linha 10: “e Avshalom que não foi autorizado [anascer]”.16 Isso mostra que o poema não é escrito a partir de um ponto de vistaneutro, extrínseco e impessoal. Pelo contrário, Avshalom possui uma forte cargaexistencial e empírica. Wallach escreve tendo como pano-de-fundo a sua própriaexperiência, e não baseada em abstrações literárias fictícias. Em segundo lugar, percebemos, de igual modo, que o tema da BíbliaHebraica também está presente nos “bastidores” de Avshalom. Aliás, o próprio15 FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o minidicionário da língua portuguesa. 7ª ed.Curitiba, Ed. Positivo, 2008, p.459.16 De acordo com Igal Sarna, “Avshalom” foi escrito em 1963 depois do segundo aborto sofrido porWallach. (Cf. SARNA, Igal. In: COHEN, Zafrira Lidovsky. “Loosen the Fetters of Thy Tongue,Woman”: The poetry and poetics of Yona Wallach. Cincinnati, The Hebrew Union College Press, 2003,note 13, p.77). W
  13. 13. W , hW z t snome do poema, Avshalom, que remete ao personagem bíblico homônimo (Cf.Shemuel Bet, capítulos 13, 14 e 18) é citado seis vezes ao todo ao longo dopoema. Some-se a isto ainda o fato de que os dizeres “[Avshalom] cujos cabelosficaram presos no meu útero” (linha: 2) remetem a 2 Sm 18.9: “(...) Absalão iamontado numa mula; (...) pegou-se-lhe a cabeça no carvalho, e ficou penduradoentre o céu e a terra (...)”. Por fim, as frases “meu filho Avshalom” (linha: 2),“Avshalom meu filho” (linhas: 5 e 15) e “meu filho” (linha: 24) ecoam o tristelamento do próprio rei Davi ao saber da morte de seu filho, Avshalom: “Meufilho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão!” (2 Sm 18.33). Mais adiante,falaremos um pouco mais sobre as ligações entre o poema de Wallach e essetexto bíblico que lhe serve de pano-de-fundo. Em terceiro lugar, Avshalom também aborda o tema da descendência.Wallach, como qualquer outra mulher, fala sobre o desejo de ser mãe, ou “odesejo de descendência” (retsonot hatorashah – linha: 9). Como bem declarouZafrira Cohen a esse respeito: “a maternidade tem sido considerada umcumprimento da mulher de seu destino fisiológico, seu ‘chamado’ natural eresponsabilidade”.17 Logo, a não realização desse “chamado”, principalmentepara uma mulher israelense, se torna algo extremamente deprimente e lastimável,uma vez que, segundo a Bíblia Hebraica, o ato de gerar filhos era um sinalindicativo da bênção divina (Cf. Gn 1.27,28a; Sl 127.4,5). Em quarto lugar, encontramos em Avshalom (caso aceitemos a tradução degilgul com o significado de “transmigração”) o tema da reencarnação: “em outraencarnação Avshalom será meu amante” (linhas: 11,12a). Segundo SeverinoCelestino da Silva, os praticantes do judaísmo em geral, e, em especial osseguidores das correntes ortodoxas e cabalistas, crêem que, após a morte, a almaencarna em uma nova forma física.18 Sendo assim, não é de admirar que Wallach17 COHEN, Zafrira Lidovsky. “Loosen the Fetters of Thy Tongue, Woman”: The poetry and poetics ofYona Wallach, p.77.18 SILVA, Severino Celestino. Analisando as Traduções Bíblicas: refletindo a essência da mensagembíblica. João Pessoa, Idéia, 2002, p.159. Cf. também o verbete “Metempsychosis”, in: SHERBOK, DanCohn. A Concise Encyclopedia of Judaism. Oxford, Oneworld Publications, 1998, p.130. W
  14. 14. W , hW z t sreflita tal tipo de crença em seu poema. Todavia, vale lembrar aqui que a palavragilgul, além de ser traduzida como reencarnação, pode ser traduzida tambémcomo metamorfose ou transe.19 Em quinto lugar, identificamos em Avshalom uma espécie de Complexo deÉdipo às avessas, ou seja, um tipo de Complexo de Jocasta. Porém, antes deentendermos esse conceito, devemos nos dirigir primeiramente à conhecidahistória da mitologia grega que fala sobre Édipo e Jocasta. Um jovem chamadoÉdipo, ao decifrar o enigma da esfinge, monstro mitológico que assolava acidade de Tebas, no Egito, acabou ganhando como prêmio a rainha Jocasta emcasamento. Contudo, casando-se com a rainha, sem o saber, Édipo estava secasando com a própria mãe. Para resumir a história, no fim, Jocasta se suicida, eÉdipo, enlouquecido, fura os seus olhos e foge para Tebas.20 Tendo como baseessa história mitológica, Freud desenvolve a sua teoria sobre o que ele chama deComplexo de Édipo. De acordo com Freud, o Complexo de Édipo é verificadoquando a criança atinge o período sexual fálico e começa a discernir a diferençaentre os sexos, manifestando a tendência de fixar a sua atenção libidinosa naspessoas do sexo oposto no ambiente familiar.21 Em se tratando do poemaAvshalom, podemos perceber um tipo de Complexo de Jocasta, no qual vemos,de forma invertida, Wallach (Jocasta) se apaixonando pelo próprio filho,Avshalom (Édipo), o que é evidenciado na seguinte parte do poema: “em outraencarnação Avshalom será meu amante” (linhas: 11, 12a).2219 Veja as observações anteriores sobre as possíveis traduções para gilgul nas páginas 10 e 11.20 Cf. BULLFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. Rio de Janeiro, Ediouro, 1999, pp.152,153.21 Complexo de Édipo. Wikipedia – The Free Encyclopedia. Disponível em:http://pt.wikipedia.org/wiki/Complexo_de_Édipo. Acesso em: 04/12/2010.22 De acordo com Lachman: “Ocultado atrás do aborto de Absalão está o desejo proibido [de Wallach]envolvendo seu pai e seu filho – a conversão de ‘o desejo de hereditariedade’ para o amor erótico e afantasia de que ‘Absalão será meu amante’”. (Cf. LACHMAN, Lilach. In: BURNSHAW, Stanley (ed.) etal. The Modern Hebrew Poem Itself, p.275). Kaufman, Rokem e Hess comentam que esses “cruzamentosde gênero” presentes, por exemplo, em Avshalom, têm um “efeito deslumbrante” na poesia de Wallach.(Cf. KAUFMAN, Shirley, ROKEM, Galit Hasan HESS, Tamar S. Hebrew Feminist Poems Fromantiquity to the Present: a bilingual anthology. New York, The Feminist Press, 1999, p.19). W
  15. 15. W , hW z t s Finalmente, em sexto e último lugar, encontramos em Avshalom o tema daVida Além-Túmulo. Além de o poema mencionar a ideia da reencarnação tantode Wallach quanto de Avshalom (linhas: 11,12a), ele também irá tratar, mais aofinal, do destino incógnito do filho abortado: “o vento (espírito) | aonde levará | ovento (espírito) meu filho” (linhas: 22-24). Ao mesmo tempo em que Wallachacredita na sua reencarnação e na de seu filho (linhas: 11,12a), ela tambémdemonstra ter dúvidas quanto ao paradeiro final de Avshalom (linhas: 22-24).Dessa forma, o poema termina com uma pergunta que fica sem receber umaresposta definitiva. Tendo terminado a nossa análise ideológica, passemos então para a últimaparte do nosso trabalho: a análise comparativa do poema Avshalom. W
  16. 16. W , hW z t sV – ANÁLISE COMPARATIVA Neste último ponto do nosso trabalho, o nosso propósito será fazer umaanálise comparativa entre o poema de Wallach e o texto da Bíblia Hebraica quelhe serve de background. Veremos, em linhas gerais, como estes textosinteragem e quais são as semelhanças e diferenças que eles nos apresentam. Antes, entretanto, creio que seja bastante pertinente para o nosso estudomencionarmos aqui o que David Jacobson tem a nos dizer sobre a singularidadedo papel da Bíblia, tanto para a cultura israelense, como para os poetasisraelenses de uma forma geral.Vejamos as suas palavras: Há uma qualidade única no papel da Bíblia na cultura israelense e nas formas pelas quais os poetas israelenses fazem uso da Bíblia. Não é somente a identidade nacional de Israel que está permeada pela sensação de que ela está reaproximando o povo judeu do seu passado bíblico, mas Israel também é o país no qual a maioria dos eventos bíblicos aconteceu.23 Prossegue Jacobson: Não há país no mundo onde uma familiaridade tão grande com a Bíblia possa ser encontrada. Isto faz com que um escritor não consiga aludir a um texto literário que os leitores da obra não possam identificar. O escritor israelense pode fazer alusão à Bíblia com a certeza de que, por causa do papel central da Bíblia para a cultura israelense, na maioria dos casos os leitores da obra irão identificar imediatamente o texto aludido sem consultar a Bíblia, e na pior situação eles não terão muita dificuldade para encontrar a alusão na Bíblia.24 Estas observações fornecidas por Jacobson são muito importantes para acompreensão dos poemas de Yona Wallach em geral, e, mais particularmente,para o entendimento do presente poema, Avshalom, que ora estamos estudando.Já dissemos anteriormente, na análise ideológica, que a Bíblia Hebraica estápresente nos “bastidores” de Avshalom. Agora, tal afirmação ficará mais evidente23 JACOBSON, David C. Does David Still Play Before You?: Israeli poetry and the Bible. Detroit,Wayne State University Press, 1997, p.20.24 Idem, Ibidem. W
  17. 17. W , hW z t satravés do quadro comparativo que criamos, o qual visa traçar algumassemelhanças entre o poema Avshalom de Yona Wallach e alguns recortes detextos da Bíblia Hebraica que falam sobre Absalão, um dos filhos do rei Davi. Vejamos como se configura tal quadro comparativo: 25 26 Avshalom (Poema de Yona Wallach) Absalão (Bíblia Hebraica) 13.39a1 Eu sou obrigada de novo a Então, tinha o rei Davi saudades2 relembrar meu filho Avshalom de Absalão (...). 18.9 (...) Absalão ia3 cujos cabelos ficaram presos no meu útero montado numa mula; (...) pegou-se-lhe a cabeça no carvalho, e ficou pendurado entre o céu e a terra (...). 18.334 e eu não logrei Então o rei se perturbou (...) e5 acabar Avshalom meu filho chorou; e andando, dizia assim: Meu6 eu gero as possibilidades de minhas filho Absalão, meu filho, meu filho,emoções Absalão! Quem me dera que eu7 a piedade jorra nas entranhas morrera por ti, Absalão, meu filho,8 e a fome possível meu filho! 18.18a Ora, Absalão, quando9 o desejo de descendência ainda vivia, tinha tomado e levantado10 e Avshalom que não foi autorizado para si uma coluna, que está no vale do rei, porque dizia: “Filho nenhum tenho para conservar a memória do meu nome”.11 em outra encarnação Avshalom será 14.25 Não havia, porém, em todo o12 meu amante e eu sentirei a lembrança dela Israel homem tão belo e tão aprazível13 quando meu amante Avshalom como Absalão; desde a planta do pé14 é uma sensação corpórea ou como meu até a cabeça não havia nele defeitoventre algum.15 está vazio de Avshalom meu filho16 um concerto de astros 18.14b E [Joabe] tomou três dardos, e17 cai e a espada golpeia traspassou com eles o coração de18 com um magneto o coração dela Absalão, estando ele ainda vivo no19 exato sentimento: meio do carvalho. 18.15 E o cercaram20 o que guerreará dez mancebos, que levavam as armas21 e sobre o que descansará de Joabe. E feriram a Absalão, e o22 o vento mataram. 18.17 E tomaram a Absalão e23 aonde levará o lançaram no bosque, numa grande24 o vento meu filho. cova, e levantaram sobre ele um mui grande montão de pedras.25 Poema de Yona Wollach traduzido diretamente do hebraico pelo Prof. Dr. Moacir Aparecido Amâncio.26 Estes trechos bíblicos de 2 Samuel (Shemuel Bet) foram extraídos de: ALMEIDA, João Ferreira de.(Trad.). Bíblia. [Edição Revista e Corrigida]. Rio de Janeiro, Imprensa Bíblica Brasileira, 1991. W
  18. 18. W , hW z t s Bem, depois de ter analisado o poema Avshalom a partir de váriasperspectivas, devemos analisá-lo agora através de uma comparação com algunstextos sobre outro Avshalom, o da Bíblia Hebraica. Como podemos perceber noquadro comparativo acima, há muitos pontos de contato entre o Avshalom deWallach e o Avshalom do Tanakh, bem como, há também diferenças. Dessa“leitura comparativa” entre ambos os textos podemos extrair o seguinte: 1) No poema, Wallach descreve a perda de Avshalom, seu filho, que nãoveio ao mundo (linha: 10). Na Bíblia Hebraica, a perda de outro Avshalom, filhodo rei Davi, também é relatada por meio da sua morte (2 Sm 18.14b,15). Logo, écurioso notar que Wallach parece pretender se auto-retratar como o rei Daviatravés de uma espécie de auto-masculinização que ela impõe a si própria.27 2) No poema, fala-se sobre “Avshalom cujos cabelos ficaram presos nomeu útero” (linhas: 2-3). Já na Bíblia Hebraica, lemos sobre Absalão que“pegou-se-lhe a cabeça no carvalho, e ficou pendurado entre o céu e a terra” (2Sm 18.9). Segundo Lilach Lachman, “na complexa cadeia de identidades que ela[Wallach] cria, ela é Absalão que perde tudo; ela é Davi que chora a perda de seufilho; ela é o carvalho, o instrumento da sua morte [de Avshalom]”.28 3) No poema, Wallach repete algumas frases de lamento, através das quaislamenta o não-nascimento de seu filho: “meu filho Avshalom” (linha: 2),“Avshalom meu filho” (linhas: 5 e 15) e “meu filho” (linha: 24). Na BíbliaHebraica, o rei Davi, ao saber da morte de seu filho, Avshalom, também olamenta repetidas vezes: “Meu filho Absalão, meu filho, meu filho, Absalão!” (2Sm 18.33). Aqui, o “papel” do rei Davi é assumido claramente por Wallach. 4) No poema, Yona Wallach realiza uma metamorfose “mágica” no quediz respeito a identidade de Avshalom. Ele é transformado de filho não-nascido27 Em outro de seus poemas que é bastante conhecido, Yonatan, Wallach se auto-retrata como um menino,que é decapitado por outros meninos, os quais desejam ardentemente o seu sangue. (Cf. Yona Wallach.[Breve biografia]. Wikipedia – The Free Encyclopedia. Disponível em:http://en.wikipedia.org/wiki/Yona_Wallach. Acesso em: 25/10/2010).28 Cf. LACHMAN, Lilach. In: BURNSHAW, Stanley (ed.) et al. The Modern Hebrew Poem Itself, p.274.Os acréscimos entre colchetes são meus. W
  19. 19. W , hW z t sem amante: “em outra encarnação Avshalom será meu amante” (linhas: 11-12).Nas linhas seguintes, de forma ambígua e eufemística, Wallach declara: “meuventre está vazio de Avshalom meu filho” (linhas: 14-15). Aqui, Wallach afirmaque o seu “ventre” (rehem) sente falta tanto do filho quanto do “órgão genital” doseu amante. Deve-se dizer aqui que da raiz rhm (reysh-hêt-mêm) também éderivada a palavra rahom, “amar, querer”.29 Não podemos nos esquecer de queesta palavra também possui conotações sexuais. Já na Bíblia Hebraica, osatributos físicos de Absalão também são mencionados em 2 Sm 14.25, conformepodemos ver a seguir: Não havia, porém, em todo o Israel homem tão belo e tão aprazível como Absalão; desde a planta do pé até a cabeça não havia nele defeito algum. Estes atrativos físicos da personagem bíblica Absalão sem dúvida algumainfluenciaram Wallach na composição do seu poema, que buscou retratarAvshalom deliberadamente de forma ambígua como seu filho-amante.30 Estafixação por personagens “transgêneros”, como a própria Wallach (mãe-amante) eAvshalom (filho-amante), no presente poema, também é um tema recorrente emoutros poemas de Wallach.31 5) No poema, a experiência física do aborto é abertamente aludida pormeio da expressão: “a espada golpeia com um magneto o coração dela [liba – ocoração da própria Wallach]” (linhas: 17-18). Tais palavras encontram a suacorrespondência no texto da Bíblia Hebraica, que diz: “E [Joabe] tomou trêsdardos, e traspassou com eles o coração de Absalão” (2 Sm 18.14b). Enquantoque na Bíblia Hebraica, Absalão tem o seu coração traspassado por dardos, no29 HATZAMRI, Abraham HATZAMRI, Shoshana More. Dicionário Português-Hebraico e Hebraico-Português, p.303.30 De acordo com Lachman, “Absalão se torna um objeto erótico através do qual a oradora re-experimentaseu apetite sexual e seu trauma de infância da separação de seu pai, morto durante a Guerra deIndependência de Israel”. (Cf. LACHMAN, Lilach. In: BURNSHAW, Stanley (ed.) et al. The ModernHebrew Poem Itself, p.275).31 Veja, por exemplo: “Yonatan”, “Tu és Minha Namorada”, “Homem não Homem / Mulher nãoMulher”, “O Mundo e a Filha da Floresta” etc. W
  20. 20. W , hW z t spoema, Wallach troca de identidade com Avshalom, como que se solidarizandocom ele, e é ela quem sofre o golpe de uma espada no seu próprio coração. Emoutras palavras, Wallach descreve poeticamente a sua própria “morte”juntamente com o seu filho “que não foi autorizado” (linha: 10) a vir a estemundo. 6) No poema, o destino do filho não-nascido, Avshalom, é confuso. Emum primeiro momento, Wallach acredita que Avshalom irá se reencarnar e será oseu amante na próxima encarnação (linhas: 11-12). Mas, mais adiante, Wallachdeixa de exibir esta certeza quanto à crença na reencarnação e demonstradesconhecer qual será o destino de Avshalom (linhas: 22-24). Quanto ao Absalãoda Bíblia, o seu fim é ser lançado em uma cova em algum bosque (2 Sm 18.17),de maneira que se guarda “silêncio” sobre o seu paradeiro além-túmulo. Em geral, podemos concluir esta breve análise comparativa entre oAvshalom de Wallach e o Avshalom da Bíblia Hebraica, dizendo que Wallachclaramente se utiliza do texto bíblico em seu poema, fazendo, todavia, umareleitura desconstrutivista do mesmo.32 Além disso, Wallach interpreta oAvshalom da Bíblia Hebraica a partir da sua própria realidade traumática pós-aborto. Dentro desta linguagem intrincada, complexa e multifacial, ora ela seapresenta como Davi, ora se apresenta como Avshalom e ora se apresenta como aprópria árvore, o carvalho, que prendeu os cabelos de seu filho até o momento desua morte.32 Para Estrada, a estratégia geral da desconstrução é: “entender e fazer filosofia como sistema de umdesejo, da inevitável violência do querer dizer, do ajuizar, de se apropriar das coisas por meio dalinguagem, de prometer trazer o sentido à presença, mas nunca conseguir (...)”. (Cf. ESTRADA, PauloCesar Duque (org.). Desconstrução e Ética: ecos de Jacques Derrida. Rio de Janeiro, Ed. PUC-Rio / SãoPaulo, Loyola, 2004, p.95). W
  21. 21. W , hW z t sCONCLUSÃO Bem, chegamos ao término do nosso trabalho. A partir do texto originalhebraico transliterado e da sua respectiva tradução estudamos o poemawallachiano Avshalom primeiramente desde a sua análise literária, ondeidentificamos a sua estrutura quiásmica, a questão da identidade abordada nopoema, bem como, a ruptura do fluxo literário, elementos estes presentes no seucorpus. Em segundo lugar, nos utilizamos da análise lexical, através da qualpudemos compreender alguns dos principais vocábulos empregados por Wallachem seu poema. Em terceiro lugar, por meio da análise ideológica, identificamos osprincipais temas e/ou conceitos presentes em Avshalom, os quais tivemos aoportunidade de comentar. Por fim, em quarto e último lugar, nos detivemos na análise comparativaentre o poema Avshalom e os textos bíblicos que tratam do seu homônimo. Nesteitem, vimos os principais pontos de contato e as principais diferenças entreambos os textos. Depois de toda esta jornada, podemos chegar a algumas conclusões finais.Primeira, Avshalom é um poema que busca dessacralizar as personagens bíblicas,Davi e Absalão, bem como, busca dessacralizar também a própria linguagemutilizada no texto bíblico. Segunda, o poema é escrito e estruturado a partir da própria experiênciavivida por Wallach. Embora Barthes tenha dito que “uma vez que um fato érecontado (...) a voz perde a sua origem, o autor entra na sua própria morte, a W
  22. 22. W , hW z t sescrita começa”,33 contudo, não há como ler Avshalom de forma atemporal eneutra, desvinculando-o da experiência traumática do aborto vivida pela poetisa. Terceira, em Avshalom Wallach brinca com o significado de muitaspalavras hebraicas, empregando, inclusive, muitos trocadilhos, valendo-se dacaracterística polissêmica de muitos desses termos. As raízes de muitosvocábulos hebraicos possibilitam esse tipo de uso, o que Wallach faz habilmentee sem desperdiçar as oportunidades. Finalmente, a quarta e última conclusão a que pudemos chegar, dizrespeito ao fato de que Avshalom aponta para a ruptura dos padrõesconvencionais em geral. Wallach rompe com os padrões conceituais, estilísticos,lingüísticos, sexuais e sagrados em seu texto, redimensionando-ossubjetivamente e conferindo-lhes novos significados e valores. Aliás, a ruptura dos padrões convencionais parece ser uma obsessãoconstante em seus poemas. O prazer último e múltiplo de Yona Wallach, a cadalinha escrita, parece ser justamente esse: romper com as normas, contestar ospadrões, mudar os conceitos, e, por fim, recriá-los novamente à sua imagem esemelhança contraventora.33 BARTHES, Roland. The Rustle of Language. [Translated by Richard Howard]. California, Universityof California Press, 1989, p.49. W
  23. 23. W , hW z t sBIBLIOGRAFIALivros Consultados:ALAND, Barbara, ALAND, Kurt, KARAVIDOPOULOS, Johannes, MARTINI, CarloM. METZGER, Bruce M. (eds.). The Greek New Testament. Stuttgart, DeutscheBibelgesellschaft, 2005.ALMEIDA, João Ferreira de. (Trad.). Bíblia. [Edição Revista e Corrigida]. Riode Janeiro, Imprensa Bíblica Brasileira, 1991.BARTHES, Roland. The Rustle of Language. [Translated by Richard Howard].California, University of California Press, 1989.BEREZIN, Rifka. Dicionário Hebraico-Português. São Paulo, Edusp, 2003.BULLFINCH, Thomas. O Livro de Ouro da Mitologia. Rio de Janeiro, Ediouro,1999.BURNSHAW, Stanley (ed.) et al. The Modern Hebrew Poem Itself. [New andUpdated Edition]. Detroit, Wayne University Press, 2003.CARANDINA, Elisa. La Problematica Identitaria in Alcune Poesie Di YonaWallach. XLIV, 3. (Articoli in PDF). [Analli Di Ca’ Foscari. Rivista DellaFacoltà Di Lingue e Letterature Straniere Dell’ Università Ca’ Foscari DiVenezia]. Venezia, Università Ca’ Foscari, 2005.COHEN, Zafrira Lidovsky. “Loosen the Fetters of Thy Tongue, Woman”: Thepoetry and poetics of Yona Wallach. Cincinnati, The Hebrew Union CollegePress, 2003.CUNHA, Antônio Geraldo da. Dicionário Etimológico Nova Fronteira daLíngua Portuguesa. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997.ELLIGER, K. RUDOLPH, W. (eds.). Bíblia Hebraica Stuttgartensia.Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft, 1997.ESTRADA, Paulo Cesar Duque (org.). Desconstrução e Ética: ecos de JacquesDerrida. Rio de Janeiro, Ed. PUC-Rio / São Paulo, Loyola, 2004.FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Miniaurélio: o minidicionário dalíngua portuguesa. 7ª ed. Curitiba, Ed. Positivo, 2008. W
  24. 24. W , hW z t sHATZAMRI, Abraham HATZAMRI, Shoshana More. Dicionário Português-Hebraico e Hebraico-Português. São Paulo, Editora e Livraria Sêfer Ltda, 2000.JACOBSON, David C. Does David Still Play Before You?: Israeli poetry and theBible. Detroit, Wayne State University Press, 1997.KAUFMAN, Shirley, ROKEM, Galit Hasan HESS, Tamar S. HebrewFeminist Poems From antiquity to the Present: a bilingual anthology. New York,The Feminist Press, 1999.PATZIA, Arthur G. PETROTTA, Anthony J. Dicionário de Estudos Bíblicos.[Trad. Pedro Wazen de Freitas]. São Paulo, Editora Vida, 2003.SHERBOK, Dan Cohn. A Concise Encyclopedia of Judaism. Oxford, OneworldPublications, 1998.SILVA, Severino Celestino. Analisando as Traduções Bíblicas: refletindo aessência da mensagem bíblica. João Pessoa, Idéia, 2002.ZISQUIT, Linda. (Trad.). Wild Light: selected poems of Yona Wallach. NewYork, The Sheep Meadow Press, 1997.Sites Consultados:Guide to the City of Qyriat Ono. (Arquivo em PDF em inglês). Disponível em:http://www.kono.org.il. Acesso em: 25/10/2010.LACHMAN, Lilach. A Review of Wild Light: Selected Poems of Yona Wallach.February 12, 2004. Disponível em:http://israel.poetryinternationalweb.org/piw_cms/cms/cms_module/index.php?obj_id=3074. Acesso em: 24/10/2010.Yona Wallach. [Breve biografia]. Wikipedia – The Free Encyclopedia.Disponível em: http://en.wikipedia.org/wiki/Yona_Wallach. Acesso em:25/10/2010.Yona Wallach. Israel Poetry International Web. Disponível em:http://israel.poetryinternationalweb.org/piw_cms/cms/cms_module/index.php?obj_id=3182. Acesso em: 24/10/2010.Yona Wallach. [Breve biografia]. Disponível em:http://www.ithl.org.il/author_info.asp?id=280. Acesso em: 24/10/2010. W
  25. 25. W , hW z t s © É permitida a reprodução parcial deste artigo desde que citada a suafonte. Citação Bibliográfica: VAILATTI, Carlos Augusto. Poesia e BíbliaHebraica: Uma Análise do Poema “Avshalom” de Yona Wallach. [Artigo]. São Paulo, Publicação do Autor, 2011. s d / ^ /^ D d D d d ^ d ^ ^d^ D , : , , K K h ^ W h^W / ^ /^ ^ d ^d W

×