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d              Y                      d                                        definitivo, um espaço de tempo, período ou ...
d             Y                    d                                           No que diz respeito à expressão la`áqôr nä†...
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d              Y                      d                                      literalmente, significa: “E Deus buscará o pe...
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d             Y                      d                                       III – O QOHÉLET 3.1-15 E A TENSÃO ENTRE O DET...
d              Y                       d                                                O trecho de Qöheºlet 3.1-15, assim...
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d             Y                   d                                    astrológico, o que é evidenciado pelo fato de que e...
d              Y                     d                                      Segundo ele, o “Qöheºlet considera Deus como u...
d             Y                      d                                       a ordem do zodíaco, Ele conhece o futuro em t...
d              Y                      d                                       determinado também que, após o seu nasciment...
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d             Y                     d                                     frase “tempo para chorar e tempo para rir” (4a) ...
d             Y                     d                                 Contudo, a meu ver, todo o versículo cinco descreve,...
d             Y                     d                                     costurar” (v.7a) com estas palavras: “rasgar as ...
d            Y                    d                                   conveniente para isso. Em outras palavras, há muitos...
d              Y                    d                                                De uma forma geral, na análise que fi...
d              Y                      d                                               A segunda parte do texto começa com ...
Qohélet 3.1-15 e a tensão entre o determinismo e o livre-arbítrio
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Este artigo tem por objetivo analisar a perícope bíblica de Qohélet 3.1-15 (Eclesiastes 3.1-15) a partir da relação dialética existente entre os conceitos filosóficos e teológicos do determinismo e do livre-arbítrio. E, para podermos alcançar esse objetivo, daremos três passos básicos. Primeiro, daremos a nossa própria tradução do texto original hebraico, a qual será acompanhada por algumas breves observações lexicais e semânticas. Em segundo lugar, forneceremos quatro pontos de vista sobre a relação existente entre o determinismo e o livre-arbítrio. E, em terceiro lugar, faremos a leitura da perícope estudada através da ótica do determinismo e do livre-arbítrio. Neste terceiro item, nos valeremos principalmente das opiniões e comentários emitidos por fontes judaicas.

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Qohélet 3.1-15 e a tensão entre o determinismo e o livre-arbítrio

  1. 1. d Y d ARTIGO TEOLÓGICO 1 Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio por Carlos Augusto VailattiRESUMO Este artigo tem por objetivo analisar a perícope bíblica de Qöheºlet 3.1-15(Eclesiastes 3.1-15) a partir da relação dialética existente entre os conceitos filosóficos eteológicos do determinismo e do livre-arbítrio. E, para podermos alcançar esse objetivo,daremos três passos básicos. Primeiro, daremos a nossa própria tradução do texto originalhebraico, a qual será acompanhada por algumas breves observações lexicais e semânticas.Em segundo lugar, forneceremos quatro pontos de vista sobre a relação existente entre odeterminismo e o livre-arbítrio. E, em terceiro lugar, faremos a leitura da perícope estudadaatravés da ótica do determinismo e do livre-arbítrio. Neste terceiro item, nos valeremosprincipalmente das opiniões e comentários emitidos por fontes judaicas.Palavras-Chave: Qöheºlet, Eclesiastes, Determinismo, Livre-Arbítrio, Interpretação.RESUMEN En este artículo se pretende analizar el pasaje bíblica de Qöheºlet 3,1-15 (Eclesiastés3,1-15) a partir de la relación dialéctica entre los conceptos teológicos y filosóficos deldeterminismo y del libre albedrío. Y con el fin de lograr este objetivo, vamos a dar trespasos básicos. En primer lugar, vamos a dar nuestra propia traducción del texto hebreooriginal, que será acompañada por unas breves observaciones léxicas y semánticas. Ensegundo lugar, vamos a dar cuatro puntos de vista sobre la relación entre el determinismo yel libre albedrío. Y en tercer lugar, leemos el pasaje estudiada a través del lente deldeterminismo y del libre albedrío. En este tercer punto, sobre todo vamos a utilizar lasopiniones y los comentarios de las fuentes judías.Palabras Clave: Qöheºlet, Eclesiastés, Determinismo, Libre Albedrío, Interpretación.ABSTRACT This article aims to analyze the biblical passage of Qöheºlet 3.1-15 (Ecclesiastes 3.1-15) from the dialectical relationship between the theological and philosophical concepts ofdeterminism and free will. And in order to achieve this goal, we will give three basic steps.First, we shall give our own translation of the original Hebrew text, which will beaccompanied by some brief lexical and semantics observations. Secondly, we will providefour views on the relationship between determinism and free will. And thirdly, we will readthe passage studied through the lens of determinism and free will. In this third item, we willuse especially the views and comments made by Jewish sources.Keywords: Qöheºlet, Ecclesiastes, Determinism, Free Will, Interpretation.1 Este artigo foi apresentado originalmente como trabalho em 06/2011 para a Faculdade de Filosofia,Letras e Ciências Humanas (Departamento de Letras Orientais) da Universidade de São Paulo (USP).
  2. 2. d Y d INTRODUÇÃO O livro de Qöheºlet (em hebraico, tl,h,äqo), também conhecido comoEkklēsiastēs (em grego, VEkklhsiasth,j), termo este derivado da Septuaginta, jáfoi chamado, e com muita justiça, de “o mais filosófico dos livros bíblicos”.2 © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011Esse livro sapiencial, que foi escrito provavelmente entre os séculos IV e IIIa.C.,3 é, no mínimo, “um livro estranho”, para usar as palavras de Haroldo deCampos.4 E essa “estranheza” se deve, segundo Robert Balgarnie Young Scott, atrês fatores principais: 1) à divergência radical entre o conteúdo de Qöheºlet eaquele encontrado no resto da Bíblia Hebraica, 2) à língua na qual o livro foiescrito e 3) ao nome do livro. De acordo com Scott: No caso de Eclesiastes, não há (...) possibilidade (...) de harmonizá-lo com o tom e o ensino do resto da Bíblia. Ele diverge muito radicalmente. Na verdade, ele nega algumas das coisas sobre as quais os outros escritores colocam a maior importância – especialmente que Deus tem revelado a si próprio e a sua vontade para o homem, através do seu povo escolhido, Israel. Em Eclesiastes, Deus não é apenas desconhecido para o homem através da revelação; ele é incognoscível através da razão, o único meio pelo qual o autor acredita que o conhecimento é alcançável. Tal Deus não é Yahweh, o Deus da aliança de Israel. Ele é bastante misterioso, um Ser inescrutável cuja existência deve ser pressuposta como aquela que determina a vida e o destino do homem, em um mundo que o homem não pode mudar e onde todo o seu esforço e valores são esvaziados de sentido. (...) Um segundo elemento de estranheza é a língua na qual o livro foi escrito, um tipo de hebraico diferente de qualquer outro no Antigo Testamento. Ele possui características que se assemelham ao hebraico da Mishná (200 A.D.) e a algo do rolo de cobre anterior de Qumrã; aparentemente, este foi um dialeto desenvolvido em certos círculos sob a influência do aramaico, pouco antes do2 FRIEDMAN, Richard Elliott. O Desaparecimento de Deus: um mistério divino. Rio de Janeiro, Imago,1997, p.284.3 CERESKO, Anthony R. Introdução ao Antigo Testamento numa Perspectiva Libertadora. São Paulo,Paulus, 1996, p.299. Para maiores informações sobre a data em que Qöheºlet foi escrito, veja: ARCHER,Gleason L. The Linguistic Evidence For the Date of “Ecclesiastes”. [Journal of the EvangelicalTheological Society].Vol.12, nº3, Louisville, Evangelical Theological Society Press,1969, pp.167-181.4 CAMPOS, Haroldo de. Qohélet = O-que-sabe: Eclesiastes: poema sapiencial. São Paulo, EditoraPerspectiva, 1991, p.17. W
  3. 3. d Y d início da era cristã. (...) Em terceiro lugar, o nome ou designação do autor, Qöheºlet (...) é um antigo enigma. Ele tem a forma de um particípio feminino ativo do verbo q-h-l (não encontrado no tronco simples no Antigo Testamento), do qual é derivado o substantivo q`h`l, “uma reunião, assembleia, congregação”. “Qöheºlet” parece significar, portanto, “aquele que reúne uma corporação ou congregação”. No contexto do movimento de Sabedoria, o termo © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011 ou título poderia designar um mestre ou acadêmico que reúne em torno de si alunos ou discípulos, como, aliás (nos é dito em xii 9), Qohelet fez.5 Todavia, apesar de ser “estranho”, Qöheºlet é, ao mesmo tempo, um livrofascinante e bastante atual.6 O livro é fascinante pela profunda sabedoriaatemporal de vida que ele exibe em suas páginas e também é,concomitantemente, atual, pois, segundo alguns estudiosos, o Qöheºlet advogafilosofias tais como: o pessimismo, o ceticismo, o agnosticismo, o racionalismo,o secularismo, o antropocentrismo, o conformismo, o epicurismo, o hedonismo, omaterialismo, o fatalismo e o determinismo, dentre outros, elementos estes quetambém podem ser percebidos em larga escala em nossa sociedadecontemporânea pós-moderna. No que se refere ao propósito que motivou a escrita de Qöheºlet, Stephande Jong acredita que o livro tenha sido escrito com o propósito de reagir contra oespírito tecnocrático helenista, uma vez que a cultura helênica era a culturadominante daquela época. Tal espírito, que era caracterizado por um grandeotimismo e por um sentimento de superioridade helênicos, estava influenciando,sobretudo, a aristocracia judaica, e, por isso, Qöheºlet se dirige contra essa fé naspossibilidades ilimitadas do homem.7 Haroldo Reimer, que segue uma linha depensamento semelhante à de Jong, afirma que o propósito do livro de Qöheºlet é5 SCOTT, R. B. Y. [Ed.]. Proverbs, Ecclesiastes. Vol. 18. [The Anchor Bible]. New York, Doubleday,1965, pp.191,192.6 Ceresko, comentando sobre o conteúdo de Qöheºlet, afirma: “a obra quase soa moderna em suasinquisitivas reflexões”. (Cf. CERESKO, Anthony R. A Sabedoria no Antigo Testamento: espiritualidadelibertadora. São Paulo, Paulus, 2004, p.100).7 JONG, Stephan de. “Quítate de Mi Sol!”: Eclesiastés y La Tecnocracia Helenística. Quito, Ribla[Revista de Interpretacion Bíblica Latino-Americana], Nº 11, 1992, p.1. W
  4. 4. d Y d duplo. Primeiramente, o Qöheºlet visa refletir criticamente sobre qual é o proveitoreal que se pode tirar do trabalho, uma vez que se vive debaixo de um sistema dedominação, isto é, o sistema helenístico. Em segundo lugar, Reimer aindaacredita que o Qöheºlet foi escrito para incentivar o judeu, que está dominado porum sistema estrangeiro, a praticar o seu carpe diem. Tal postura seria uma formade contestar o sistema de trabalho helênico escravizante em Judá, o qual vigorava © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011na metade do III século a.C.8 Seja como for, em nosso trabalho, buscaremos tratar basicamente darelação dialética existente entre o determinismo e o livre-arbítrio a partir daanálise da perícope bíblica de Qöheºlet 3.1-15. E, a fim de podermos atingir onosso objetivo, daremos três passos básicos. Primeiro, daremos a nossa própriatradução do texto original hebraico, a qual será acompanhada por algumas brevesobservações lexicais e semânticas. Em segundo lugar, forneceremos quatropontos de vista sobre a relação existente entre o determinismo e o livre-arbítrio.Em terceiro lugar, faremos o comentário do texto ora estudado, a partir da óticada relação dialética existente entre o determinismo e o livre-arbítrio, visandocompreender melhor o seu significado. Neste terceiro item, nos valeremosprincipalmente das opiniões e comentários emitidos por fontes judaicas. Depoisdisso tudo, mencionaremos finalmente algumas conclusões às quais chegamos aotérmino do nosso trabalho. Feitos estes esclarecimentos, avancemos, então, em nosso estudo.8 REIMER, Haroldo. “Y ver la parte buena de todo su trabajo” (Eclesiastés 3,12) – Anotaciones SobreEconomia y Bienestar en la vida del Eclesiastés. Quito, Ribla [Revista de Interpretacion Bíblica Latino-Americana], Nº51, 2005, p.1. W
  5. 5. d Y d I – O TEXTO DE QOHÉLET 3.1-15 E A SUA TRADUÇÃO Antes de começarmos a fazer a nossa análise sobre a perícope de Qöheºlet3.1-15, é necessário dizer que o nosso estudo se baseará principalmente no textomassorético (TM) encontrado na BHS.9 Esse texto é visto atualmente como o © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011mais confiável da Bíblia Hebraica tanto por eruditos judeus, quanto por eruditoscristãos em todo o mundo. A nossa tradução desse texto buscará ser a mais literalpossível, a fim de valorizar as nuances e características do texto hebraico clássico(bíblico). Eis o texto hebraico de Qöheºlet 3.1-15 e a sua respectiva tradução: Qöheºlet 3.1-15 Traduzido öheº Qöheºlet 3.1-15 em Hebraico öheº1 Para tudo (há) um tempo determinado !m+z lKoßl; 1 E um tempo para todo propósito `~yIm)Vh; tx;T;î #p,xeÞ-lkl. t[eîw debaixo dos céus. 2 Tempo para nascer tdl,Þl t[eî 2 E tempo para morrer tWm+l t[eäw Tempo para plantar t[;j;êl t[eä E tempo para colher `[:Wj)n rAqï[]l; t[eÞw 3 Tempo para matar ‘gArh]l; t[eÛ 3 E tempo para curar aAPêrli t[eäw Tempo para destruir #Arßp.li t[eî E tempo para construir `tAn*b.li t[eîw 4 Tempo para chorar ‘tAKb.li t[eÛ 4 E tempo para rir qAxêf.li t[eäw Tempo de se lamentar dApßs. t[eî E tempo de dançar `dAq)r t[eîw 5 Tempo para lançar pedras ~ynIëba] %yliäv.h;l. t[e… 5 E tempo de amontoar pedras ~ynI+ba] sAnæK. t[eÞw Tempo para abraçar qAbêx]l; t[eä E tempo para afastar-se de abraçar `qBe(x;me qxoïrli t[eÞw9 Cf. ELLIGER, K. RUDOLPH, W. (Eds.). Bíblia Hebraica Stuttgartensia. [Editio Quinta Emendata].Stuttgart, Deutsche Bibelgesellschaft,1997. W
  6. 6. d Y d 6 Tempo para buscar ‘vQeb;l. t[eÛ 6 E tempo para perder dBeêa;l. t[eäw Tempo para guardar rAmàv.li t[eî E tempo para lançar `%yli(v.h;l. t[eîw © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011 7 Tempo para rasgar ‘[:Ar’q.li t[eÛ 7 E tempo para costurar rAPêt.li t[eäw Tempo para calar tAvßx]l; t[eî E tempo para falar `rBE)d:l. t[eîw 8 Tempo para amar ‘bhoa/l,( t[eÛ 8 E tempo para odiar anOëf.li t[eäw Tempo de guerra hmÞxl.mi t[eî E tempo de paz `~Al)v t[eîw 9 Que proveito (tem) ‘!Art.YI-hm; 9 O trabalhador hf,êA[h(. No que ele trabalha? `lme([ aWhï rvßa]B; 10 Eu tenho visto a tarefa !y©n[ih(-ta, ytiyaiär 10 Que deu Deus ~yhi²l{a/ !t:ôn rv,’a] Aos filhos do homem ~dÞah ynEïb.li Para estarem ocupados nela. `AB* tAnð[]l; 11 Tudo fez belo em seu tempo;Também o mundo deu no coração AT=[ib. hp,äy hfÞ[ lKoïh;-ta, 11 deles, ~BêliB. !t:ån ‘~l[oh-ta, ~G:ÜDe tal modo que não descubra o ~dªah acäm.yI-al{ rvôa] yliúB.mi homem A obra que fez Deus ~yhiÞl{a/h hfî[-rv,a] hf,²[]M;h;(-ta, Desde o princípio e até o fim `@As)-d[;w varoïme 12 Eu sei que não há nada !yaeî yKi² yTi[.d:§y 12 Melhor para eles ~B_ bAjß Que se alegrarem x:Amêf.li-~ai yKiä E fazerem (o) bem em sua vida `wyY)x;B. bAjß tAfï[]l;w W
  7. 7. d Y d 13 ‘~dah-lK ~g:Üw 13 E também todo homem Que coma e beba htêvw lk;äaYOv, E veja (o) bem bAjß haîrw Em todo seu trabalho Al+m[]-lkB. © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011 Isso (é) um dom de Deus `ayhi( ~yhiÞl{a/ tT;îm; 14 Eu sei que tudo (o) que fez Deus ‘~yhil{a/h hf,Û[]y: rv,’a]-lK yKiû yTi[.d:ªy 14 Ele (Isso) será para sempre ~lêA[l. hyåh.yI aWh… Sobre ele (isso) nada (há) para acrescentar @ysiêAhl. !yaeä ‘wyl[ E dele (disso) nada (há) para tirar [:ro+gli !yaeä WNM,ÞmiW E Deus (o) fez hfê[ ~yhiäl{a/hw (para) que temam em face dele `wyn)pL.mi Waßr.YI)v, 15 O que foi ‘hyhV,(-hm; 15 Ele já (é) aWhê rbåK. E (o) que será tAyàh.li rvïa]w: Já foi hy+h rbåK. E Deus buscará o perseguido `@D)rnI-ta, vQEïb;y ~yhiÞl{a/hw Há algumas observações que devem ser feitas aqui sobre alguns vocábulosem hebraico que aparecem em Qöheºlet 3.1-15 e os significados correspondentesque escolhemos lhes atribuir. Em Qöheºlet 3.1, três palavras merecem a nossa atenção. Tratam-se dostermos: !m+z (zümän), t[eî (`ët) e #p,xeÞ (Hëºpec). Em primeiro lugar, o substantivo masculino !m+z (zümän) ocorre uma únicavez em toda a perícope e significa, segundo Holladay, “tempo específico”,“hora”.10 Gesenius, um dos maiores eruditos do hebraico bíblico, concorda comesta opinião e declara que o vocábulo significa “tempo”, fazendo referência a10 HOLLADAY, William L. (Ed.). A Concise Hebrew and Aramaic Lexicon of the Old Testament. GrandRapids, William B. Eerdmans Publishing Company / Leiden, E. J. Brill, 1988, p.89. W
  8. 8. d Y d “um tempo estabelecido”.11 Segundo o Etymological Dictionary of BiblicalHebrew (Dicionário Etimológico de Hebraico Bíblico), a raiz !mz (zmn) queaparece aqui significa “designado para um propósito”. Tal raiz, ainda segundoesse mesmo dicionário, possui como significado cognato o conceito de“estabelecer um objetivo”.12 O termo aparece em outras passagens na Bíblia © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011Hebraica para se referir, por exemplo, ao tempo determinado ou designado paraas festas judaicas (Est 9.27,31) e também para se referir ao período de tempo queNeemias definiu para a sua ausência de Susã (Ne 2.6).13 Em nosso trabalho,resolvemos traduzir zümän por “tempo determinado”, o que fazem também astraduções em português: ARA14 e ARC.15 Em segundo lugar, o substantivo feminino t[eî (`ët) que significabasicamente um “ponto no tempo”, possui outros significados a ele atrelados: 1)“tempo de um evento” e 2) “tempo para um evento”. O último possui algumassubcategorias: a) “tempo normal”, b) “o tempo adequado, conveniente ouapropriado”, c) “o tempo designado” e d) “tempo indeterminado”.16 Contudo,apesar da grafia distinta dos termos, as duas palavras semitas, zümän e `ëtsignificam basicamente a mesma coisa.17 A Septuaginta (III–I século a.C.), por outro lado, traduz zümän por cro,noj(chrónos) e `ët por kairo.j (kairós).18 Segundo o An Intermediate Greek-EnglishLexicon (Léxico Intermediário Grego-Inglês) de Liddell e Scott, a palavrachrónos significa basicamente “tempo”, podendo se referir a “um tempo11 GESENIUS, H.W.F. Geseniu’s Hebrew-Chaldee Lexicon to the Old Testament. Grand Rapids, BakerBook House, 1992, p.247.12 CLARK, Matityahu. Etymological Dictionary of Biblical Hebrew. Jerusalem / New York, FeldheimPublishers, 1999, pp.67,68.13 Cf. NET Bible. Ecclesiastes 3:1, note 2. Disponível em: http://bible.org/netbible/index.htm. Acesso em:23/04/2011.14 ALMEIDA, João Ferreira de. (Trad.). Bíblia Sagrada. (Edição Revista e Atualizada). São Paulo,Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.15 ALMEIDA, João Ferreira de. (Trad.). Bíblia Sagrada. (Edição Revista e Corrigida). Rio de Janeiro,Imprensa Bíblica Brasileira, 1991.16 Cf. NET Bible. Ecclesiastes 3:1, note 3. Disponível em: http://bible.org/netbible/index.htm. Acesso em:23/04/2011.17 LÍNDEZ, José Vílchez. Eclesiastes ou Qohélet. [Coleção: Grande Comentário Bíblico]. São Paulo,Paulus, 1999, p.215.18 Cf. RAHLFS, Alfred. (Ed.). Septuaginta. [Duo volumina in uno]. Stuttgart, DeutscheBibelgesellschaft, 2004. W
  9. 9. d Y d definitivo, um espaço de tempo, período ou estação”.19 Esse mesmo léxico definekairo.j como “o ponto certo do tempo, o tempo apropriado ou período de ação, otempo exato ou crítico”.20 Como Líndez já observou antes de nós, a versão greganão nos ajuda muito a distinguir os significados dos termos neste caso.21 Por fim, a Vulgata de Jerônimo (IV–V século d.C.) traduziu zümän por © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011tempus (“tempo”) e `ët por spatiis (“estação”).22 Assim como o hebraico e ogrego, o latim também não nos ajuda a identificar uma distinção nítida entre umvocábulo e o outro. Em terceiro lugar, o substantivo masculino #p,xeÞ (Hëºpec) pode significar“deleite, prazer, desejo, a boa vontade, vontade, propósito, negócio (em épocatardia), questão (em época muito tardia)”.23 A Septuaginta traz no lugar de Hëºpeco substantivo neutro pra,gmati (prágmati), o qual, por sua vez, é derivado dotermo pra/gma (prâgma), cujos significados básicos, dentre outros, são: “o quetem sido feito, uma ação, ato, uma coisa, questão, negócio”.24 É da mesma raizdessa palavra que vem a nossa palavra moderna “pragmatismo”. Em nossatradução, preferimos adotar o termo “propósito” como tradução para Hëºpec. Em Qöheºlet 3.2, os vocábulos tdl,Þl (läleºdet) e [:Wj)n rAqï[]l; (la`áqôrnä†ûª` ) também merecem atenção. A primeira expressão, läleºdet, é um infinitivoconstruto na construção verbal Qal, o qual significa literalmente “dar à luz”.Porém, o contexto favorece a tradução da expressão no sentido passivo, porque oque está sendo enfatizado é o nascimento do filho e não o ato de a mãe dar àluz.25 Por isso, preferimos traduzir läleºdet como “para nascer”. A LXX conservao mesmo significado literal do texto hebraico, ao passo que a Vulgata traz aqui“tempus nascendi”, isto é, “tempo para nascer”.19 Cf. o verbete cro,noj, in: LIDDELL, H. G. SCOTT, R. An Intermediate Greek-English Lexicon.(Founded upon the Seventh Edition of Liddell and Scott’s Greek-English Lexicon). Oxford, OxfordUniversity Press, 1889, p.896.20 Cf. o verbete kairo.j, in: Idem, Ibidem, p.392.21 LÍNDEZ, José Vílchez. Eclesiastes ou Qohélet, p.215.22 JÁNOS II, Pal. Nova Vulgata Bibliorum Sacrorum Editio. Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 1979.23 BROWN, Francis, DRIVER, S. R. BRIGGS, Charles A. Hebrew and English Lexicon of the OldTestament. Oxford, Clarendon Press, 1951, p.343.24 Cf. pra/gma, in: LIDDELL, H. G. SCOTT, R. Op.Cit., p.665,666.25 LÍNDEZ, José Vílchez. Op.Cit., p.215. W
  10. 10. d Y d No que diz respeito à expressão la`áqôr nä†ûª` , o seu significado literal é“arrancar o que foi plantado”. Temos aqui a expressão la`áqôr, que se encontrano infinitivo construto do Qal e significa “arrancar” e a construção verbal passivaque aparece no Nif‘al e que pode ser traduzida como “o que foi plantado”.Apesar disso, optamos por traduzir a expressão la`áqôr nä†ûª` por “colher”, uma © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011vez que concordamos com o argumento de Líndez, segundo quem “colher” é atradução mais preferível por dois motivos: 1) a raiz `qr, de la`áqôr, “arrancar”,parece ser derivada da raiz fenícia `qrT, significando “armazém”, “depósito” e 2)a tradução “colher” se encaixa perfeitamente no contexto.26 Em Qöheºlet 3.11, o substantivo masculino ‘~l[o (`öläm) tem sido alvodos mais intensos debates no que diz respeito ao seu significado no citado verso.Vejamos o que Schökel tem a nos dizer sobre o significado de `öläm: Significa um tempo ou duração indefinida ou incalculável, no passado ou futuro, ou o definitivo de uma ação ou estado. A duração ilimitada pode referir-se a uma medida: no passado, o cósmico, a história; no futuro, a vida de um indivíduo, um povo, a história, o cósmico.27 O mesmo autor ainda irá dizer mais adiante que `öläm também pode sertraduzido como “mundo”, em uma concepção mais tardia. Aliás, esta é atradução que Schökel propõe para `öläm em Qöheºlet 3.11.28 A LXX, por suavez, verte `öläm por aivw/na (aiōna), substantivo no acusativo que é derivado deaivw,n (aiōn), cujos significados básicos são: “tempo, duração da vida, vida,eternidade, idade, geração, século”.29 Por fim, a Vulgata traduz öläm pormundum, “mundo”. Curiosamente, a Bíblia Hebraica (BH) publicada pela Sêfer26 LÍNDEZ, José Vílchez. Eclesiastes ou Qohélet, p.215.27 SCHÖKEL, Luis Alonso. Dicionário Bíblico Hebraico-Português. São Paulo, Paulus, 1997, p.483.28 Idem, Ibidem, p.484.29 PEREIRA, Isidro. Dicionário Grego-Português e Português-Grego. Porto, Livraria Apostolado daImprensa, 1976, p.19. W
  11. 11. d Y d traduz öläm por “ânsia de compreender”.30 Seguindo os seus passos, a Bíblia naTradução da Linguagem de Hoje (TLH) traz “desejo de entender as coisas que jáaconteceram e as que ainda vão acontecer”.31 Na verdade, estas duas versõesbíblicas refletem mais uma interpretação de öläm à luz do seu contexto imediato,do que uma tradução propriamente dita. Por outro lado, a Bíblia de Jerusalém © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011(BJ) traz no lugar de öläm a expressão “conjunto do tempo”,32 sendoacompanhada de perto pela Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB), que traz“sentido do tempo”.33 Além dessas versões, a versão espanhola da Bíblia, Reina-Valera, traz “eternidad”.34 A versão em português de João Ferreira de Almeida,Revista e Atualizada (ARA) também traz “eternidade”.35 Finalmente, a versãoem português de João Ferreira de Almeida, Revista e Corrigida (ARC) verteöläm por “mundo”.36 Particularmente, preferi traduzir öläm por “mundo” porentender que o conceito de “mundo” possui maior materialidade e concretude designificado, sendo, a meu ver, mais condizente com o contexto de Qöheºlet 3.1-15, que aborda aspectos “concretos” da vida humana, tais como: “nascer, morrer;plantar, colher; matar, curar; destruir, construir; chorar, rir; lamentar, dançar;lançar e amontoar pedras; abraçar e deixar de abraçar; buscar, perder; guardar,lançar; rasgar, costurar; calar, falar; amar, odiar; guerra e paz” (Qöheºlet 3:1-8).Obviamente, esta observação não significa que o autor de Qöheºlet fosse incapazde abstrair. Aliás, a sua obra como um todo demonstra exatamente o contrário. Por fim, o sentido da última frase da nossa perícope, isto é, de Qöheºlet3.15, também tem sido alvo de muita discussão. A frase inteira em hebraico diz:@D)rnI-ta, vQEïb;y ~yhiÞl{a/hw (wühä´élöhîm yübaqqëš ´et-nirDäp) que,30 Cf. GORODOVITS, David FRIDLIN, Jairo. Bíblia Hebraica. São Paulo, Editora e Livraria SêferLtda., 2006.31 Cf. A Bíblia Sagrada. (Tradução na Linguagem de Hoje). São Paulo, Sociedade Bíblica do Brasil,1988.32 Cf. GIRAUDO, Tiago BORTOLINI, José. (Eds.). Bíblia de Jerusalém. São Paulo, Sociedade BíblicaCatólica Internacional e Paulus, 1985.33 Cf. Bíblia –Tradução Ecumênica (TEB). São Paulo, Edições Loyola, 1994.34 Cf. Santa Biblia (Versión Española Reina-Valera). Miami, United Bible Societies, 1995.35 Cf. ALMEIDA, João Ferreira de. (Trad.). Bíblia Sagrada. (Edição Revista e Atualizada). São Paulo,Sociedade Bíblica do Brasil, 1993.36 Cf. ALMEIDA, João Ferreira de. (Trad.). Bíblia Sagrada. (Edição Revista e Corrigida). Rio de Janeiro,Imprensa Bíblica Brasileira, 1991. W
  12. 12. d Y d literalmente, significa: “E Deus buscará o perseguido”.37 Apesar disso, esta fraseparece ser desconexa ou parece estar deslocada dentro do contexto no qual elaestá inserida. Como a LXX acompanha o TM aqui, então, seguindo novamente asugestão de Líndez, sou propenso a aceitar a tradução-interpretação da Vulgatacomo sendo a mais coerente dentro do pensamento do contexto.38 A versão latina © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011traz: et Deus instaurat quod abiit, ou seja, “e Deus renova o que passou”. Entreas versões da Bíblia em português, as que mais se aproximam deste sentido sãoas já citadas, Almeida, Revista e Atualizada (ARA): “Deus fará renovar-se o quese passou” e a Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB): “e Deus vai em busca doque passou”. Além dessas versões, a também já mencionada Almeida, Revista eCorrigida (ARC) declara: “e Deus pede conta do que passou”. E, finalmente, aNova Versão Internacional (NVI) traz: “Deus investigará o passado”.39 Apesar detodas essas várias traduções dadas para a frase wühä´élöhîm yübaqqëš ´et-nirDäp(Qöheºlet 3.15), eu preferi conservar o significado do texto original em minhatradução, a saber, “e Deus buscará o perseguido”. Contudo, reitero que a versãolatina da Vulgata (“E Deus renova o que passou”) a meu ver, parece ser umatradução-interpretação mais coerente com o contexto da passagem, em vez docomplicado texto hebraico: “E Deus buscará o perseguido”. O já mencionadoLíndez, ao explicar a sua preferência pela Vulgata como a tradução-interpretaçãomais apropriada para a compreensão da última frase de Qöheºlet 3.15, disse: O homem, ser passageiro, não pode ser ponto de referência do tempo que foge e se escapa; Deus, porém, [que] não está sujeito ao processo do tempo, supera-o e alcança-o em toda sua extensão mesmo de passado e de futuro, por isso não é estranho que se possa dizer que Deus vai em busca do passado. Segundo a mentalidade de Qohélet, Deus o encontra e o alcança, o homem não.4037 O Midrash Qohélet Rabá também traduz a construção verbal nirDäp, que aparece no Nif‘al, como“perseguido”. (Cf. GIRAUDO, Tiago BORTOLINI, José. (Eds.). Bíblia de Jerusalém, p.1170, nota z).38 LÍNDEZ, José Vílchez. Eclesiastes ou Qohélet, p.236.39 Bíblia Sagrada (Nova Versão Internacional). Colorado Springs, International Bible Society, 2000.40 LÍNDEZ, José Vílchez. Op.Cit., p.236. O acréscimo entre colchetes é meu. Os itálicos são do autor. W
  13. 13. d Y d Ora, depois de fornecer e justificar a nossa tradução de Qöheºlet 3.1-15,destacando, sobretudo, o significado que atribuímos a algumas de suas principaispalavras, frases e expressões, podemos partir agora, portanto, para a análise dosquatro pontos de vista principais sobre a relação existente entre o determinismo eo livre-arbítrio. A análise e definição preliminar de cada um desses pontos de © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011vista irão nos auxiliar no comentário e na compreensão do próprio texto em sique faremos no terceiro e último capítulo do nosso estudo. W
  14. 14. d Y d II – QUATRO PONTOS DE VISTA SOBRE A RELAÇÃO EXISTENTEENTRE O DETERMINISMO E O LIVRE-ARBÍTRIO Há, pelo menos, quatro maneiras fundamentais de entender a relaçãoexistente entre o determinismo e o livre-arbítrio.41 Entretanto, antes de © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011examinarmos a cada uma delas, vejamos primeiramente o que queremos dizercom os termos determinismo e livre-arbítrio. Em primeiro lugar, determinismo é “a crença de que o pensamento, ação esentimentos humanos são, em um maior ou menor grau, controlados por umagrande força e que os seres humanos têm pouco ou nenhum livre-arbítrio de simesmos. Esta força pode ser chamada Deus ou Destino, ou os dois podem servistos como idênticos”.42 Já livre-arbítrio (ou liberdade humana) é o nome dadoao “conceito de que os seres humanos determinam livremente seu própriocomportamento e que nenhum fator causal externo pode ser adequadamenteresponsabilizado por suas ações”.43 A partir destas definições, vejamos então como se configuram os quatropontos de vista sobre a relação existente entre estes dois conceitos que acabamosde apresentar.41 Para obter maiores informações sobre o determinismo e o livre-arbítrio sobre o ponto de vistafilosófico-teológico cristão, veja: GEISLER, Norman FEINBERG, Paul D. Introdução à Filosofia:uma perspectiva cristã. São Paulo, Edições Vida Nova, 1996, pp.153-162; FEINBERG, John et al.Predestinação e Livre-Arbítrio: quatro perspectivas sobre a soberania de Deus e a liberdade humana.São Paulo, Mundo Cristão, 1996; HUNNEX, Milton. Filósofos e Correntes Filosóficas em Gráficos eDiagramas. São Paulo, Editora Vida, 2003, pp.50-52; CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia,Teologia e Filosofia. [Vol.2 | D – G]. São Paulo, Editora Hagnos, 2001, pp.91-96. Já para obter maioresinformações sobre este mesmo assunto, mas a partir da perspectiva judaica, confira: MAIMONIDES,Rabi Moshe ben. Guia de Descarriados. Madrid, Editorial Barath, 1988, pp.226-232; REHFELD, WalterI. Nas Sendas do Judaísmo. São Paulo, Perspectiva; Associação Universitária de Cultura Judaica;Tecnisa, 2003, p.63-65.42 RUDMAN, Dominic. Determinism and Anti-Determinism in the Book of Koheleth. [The Jewish BibleQuarterly]. Vol.XXX, Nº 2. Jerusalem, Jewish Bible Association Press, 2002, p.1. Shimon Bakon fazquestão de distinguir o conceito de Providência Divina do conceito de Predestinação. Segundo ele: “Háuma considerável diferença entre estes dois conceitos, o primeiro significando participação divina, oumesmo interferência, em assuntos humanos, o outro sugerindo uma força cósmica, predeterminando osdestinos dos homens e até mesmo dos deuses. Em ambos, resta pouco espaço para a liberdade humana”.(Cf. BAKON, Shimon. Koheleth. [The Jewish Bible Quarterly]. Vol.XXVI, nº3. Jerusalem, The JewishBible Association Press, 1998, p.172).43 Cf. o verbete: Liberdade Humana, in: ERICKSON, Millard J. Conciso Dicionário de Teologia Cristã.Rio de Janeiro, Juerp, 1995, p.99. W
  15. 15. d Y d 2.1. Determinismo Radical Segundo o determinismo radical, a predeterminação divina de todos osacontecimentos ocorre a despeito da presciência divina das ações humanas livres.Este ponto de vista argumenta que Deus age com uma soberania tão inacessível © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011que Suas escolhas são feitas com total desconsideração das escolhas humanas.44O determinismo radical também pode ser chamado de fatalismo ou, na teologiacristã reformada, de calvinismo extremado ou hiper-calvinismo. Os problemas que o determinismo radical traz consigo são basicamentedois: 1) Ele nega o livre-arbítrio humano, o qual encontra apoio em outras partesda Bíblia Hebraica e também na experiência humana e 2) Ele nega abenevolência divina, pois se Deus age desconsiderando as ações humanas, istoquer dizer que Deus é, em última análise, a origem de todas as coisas, inclusivedo mal. 2.2. Determinismo Moderado De acordo com o determinismo moderado (ou calvinismo moderado,como é conhecido na teologia cristã), Deus simultaneamente tanto predeterminaquanto preconhece desde toda a eternidade todos os acontecimentos, incluindotodos os atos livres dos seres humanos. Este ponto de vista afirma, em outraspalavras, que Deus determinou que os seres humanos façam as coisas livrementee não que sejam forçados a fazer atos livres.45 Este posicionamento filosófico busca encontrar um equilíbrio entre asoberania divina e a responsabilidade humana, uma vez que ele assegura asprerrogativas divina e humana sem que qualquer delas seja prejudicada na suaautonomia. Sendo assim, nossos atos são realmente livres do ponto de vista das44 GEISLER, Norman. Eleitos, Mas Livres: uma perspectiva equilibrada entre a eleição divina e o livre-arbítrio. São Paulo, Editora Vida, 2001, p.53.45 Idem, Ibidem, p.62. W
  16. 16. d Y d escolhas que fazemos deles, mas são, ao mesmo tempo, determinados, a partir daperspectiva da presciência que Deus tem deles como Ser atemporal.46 2.3. Livre-Arbítrio Radical Já o livre-arbítrio radical (o qual é conhecido por vários outros nomes na © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011teologia cristã, tais como, arminianismo radical, arminianismo extremado,teísmo do livre-arbítrio, teísmo aberto,47 neoteísmo ou Openess of God, isto é,“Abertura de Deus”), ao contrário do determinismo radical, exalta o livre-arbítrio humano à custa do sacrifício da soberania divina. O autor, ClarkPinnock, no livro intitulado The Openess of God, menciona cinco característicasdo livre-arbítrio radical ou teísmo aberto, as quais transcrevemos abaixo: 1) Deus não somente criou esse mundo, ex nihilo, mas pode (e às vezes faz) intervir unilateralmente nos acontecimentos na terra; 2) Deus escolheu criar-nos com liberdade incompatibilista (libertária) – uma liberdade sobre a qual ele não pode exercer controle total; 3) Deus valoriza tanto a liberdade – a integridade moral das criaturas livres e de um mundo no qual tal integridade é possível – que não atropela essa liberdade, mesmo que a veja produzindo resultados indesejáveis; 4) Deus sempre deseja o nosso mais alto bem, tanto individual como corporativamente, e assim é afetado pelo que acontece em nossas vidas; 5) Deus não possui um conhecimento exaustivo de como exatamente utilizaremos a liberdade, embora possa muito bem, às vezes, ser capaz de predizer com grande exatidão as escolhas que livremente faremos.4846 GEISLER, Norman. Eleitos, Mas Livres, p.51.47 Ware assim define o Teísmo Aberto: “Esse movimento é assim denominado pelo fato de seus adeptosverem grande parte do futuro como algo que está ‘em aberto’, e não fechado, mesmo para Deus. Boaparte do futuro está ainda indefinida e, conseqüentemente, Deus o desconhece. Deus conhece tudo o quepode ser conhecido, asseguram-nos os teístas abertos. Mas livres escolhas e ações futuras, por não teremocorrido ainda, não existem e, desse modo, Deus (até mesmo Deus) não pode conhecê-las”. (Cf. WARE,Bruce A. Teísmo Aberto: a teologia de um Deus limitado. São Paulo, Vida Nova, 2010, p.14).48 PINNOCK, Clark. The Openess of God, p. 156. Apud: GEISLER, Norman. Eleitos, Mas Livres, p.117. W
  17. 17. d Y d Como já é evidente por si só, o conceito de livre-arbítrio radical trazconsigo uma série de problemas, pois nega os atributos essenciais de Deus, taiscomo, a transcendência, a imanência, a onisciência, a onipresença, a onipotência,a imutabilidade e a soberania divinas. A meu ver, a filosofia teológica ou ateologia filosófica do livre-arbítrio radical rebaixou Deus à condição de um ser © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011impotente, pobre e frágil e, ao mesmo tempo, promoveu o homem, deificando-o,divinizando-o e entronizando-o em seu livre-arbítrio absoluto ilusório. Neste tipo de concepção das coisas, os papéis de Deus e do homem sãopraticamente invertidos. Deus adquire traços humanos, enquanto que o homemacaba adquirindo traços divinos. Penso que não pode haver maior equívoco doque este. 2.4. Livre-Arbítrio Moderado Segundo o livre-arbítrio moderado, o ser humano possui a capacidadeparcial de agir sem ser condicionado por alguma causa. Essa capacidade de açãoé apenas “parcial” porque, muitas vezes (ou sempre), causas biológicas, culturaise até mesmo espirituais (como a vontade de Deus, por exemplo), dentre outras, olevam a fazer o que ele faz.49 Este ponto de vista, assim como o determinismo moderado, buscaencontrar uma relação de equilíbrio entre as ações humanas e a soberania divina.O conceito de livre-arbítrio moderado reconhece que o homem é livre, mas nãoplenamente livre, pois ele está irremediavelmente fadado a viver, em suacondição de ser humano, dentro de um mundo condicionado por certas leisnaturais, biológicas, genéticas, sociais, espirituais etc.49 CHAMPLIN, R. N. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Vol.3. [H-L]. São Paulo, EditoraHagnos, 2001, pp.866,867. Aliás, a esse respeito, Rudman declara que “o homem não é de todo o mestrede sua própria vida”. (Cf. RUDMAN, Dominic. Determinism in the Book of Ecclesiastes. Sheffield,Sheffield Academic Press, 2001, p.33). Seow chama essa liberdade parcial do homem de “determinismode circunstâncias”. (Cf. SEOW, C.L. Ecclesiastes. New York, Doubleday, 1997, pp.171-172) W
  18. 18. d Y d 2.5. Um Apelo ao Equilíbrio Depois de descrever esses quatro pontos de vista sobre a relação existenteentre o determinismo e o livre-arbítrio, eu pude chegar a duas conclusõesfundamentais. © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011 A primeira delas é que tanto o determinismo radical quanto o livre-arbítrio radical devem ser rejeitados, porque ambos são extremistas em suasposições, pois negam, de um lado, o livre-arbítrio humano e, do outro, osatributos essenciais divinos. Portanto, tais posicionamentos filosófico-teológicosnão nos fornecem uma resposta adequada para o nosso assunto em questão. A segunda conclusão a que cheguei é a seguinte: uma vez que tanto asoberania divina quanto a responsabilidade humana são duas verdadesrepetidamente afirmadas na Bíblia Hebraica, logo, se faz necessário defender umponto de vista que leve em consideração esses dois pólos juntos. Tendo esse intuito em mente, menciono a seguir alguns comentários quedefendem uma postura de equilíbrio sobre a relação entre o determinismo e olivre-arbítrio, os quais foram feitos por representantes das três maiores religiõesmonoteístas do mundo, a saber, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo. No quediz respeito ao judaísmo, o rabi Dan Cohn-Sherbok, apoiando-se na BíbliaHebraica e no Talmude, faz a seguinte afirmação: De acordo com a Escritura, cada pessoa é capaz de escolher entre o bem e o mal. O conceito de punição e recompensa está baseado neste pressuposto. O Talmude especifica que Deus é onisciente: não obstante, os seres humanos têm capacidade para escolher seu próprio estilo de vida.50 Além de Cohn-Sherbok, outro judeu, Jacob B. Agus (1911-1986), em seulivro La Evolucion del Pensamiento Judio, também fala de forma equilibradasobre a relação entre o determinismo e o livre-arbítrio. Eis as suas palavras:50 COHN-SHERBOK, Dan. A Concise Encyclopedia of Judaism. Oxford, Oneworld Publications, 1998,p.77. W
  19. 19. d Y d (...) o monoteísmo afirma que Deus transcende a natureza e que não é idêntico a ela nem a nenhuma parte dela (...). No monoteísmo, Deus está sujeito às variações da vida mortal.51 Já o teólogo cristão Arthur W. Pink (1886-1952), ao discorrer sobre a © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011soberania divina e a responsabilidade humana, comenta: Duas coisas são indisputáveis: a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. (...) Reconhecemos que existe, sem dúvida, o perigo de salientar demais uma delas e negligenciar a outra. (...) Ressaltar a soberania de Deus, sem afirmar, ao mesmo tempo, a responsabilidade do homem, tende ao fatalismo; [Por outro lado] preocupar-se tanto em manter a responsabilidade do homem, ao ponto de perder de vista a soberania de Deus, é exaltar a criatura e desonrar o Criador.52 Além de Pink, a Confissão de Fé de Westminster (escrita em 1646), queapresenta uma das melhores e mais concisas declarações da fé cristã, em seuCapítulo III, intitulado Do Decreto Eterno de Deus, faz os seguintes comentáriossobre o determinismo divino e a responsabilidade humana: Seção I. – Desde toda a eternidade, e pelo sapientíssimo e santíssimo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e imutavelmente tudo quanto acontece; porém, de modo tal que nem é Deus o autor do pecado, nem se faz violência à vontade das criaturas, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias, antes são estabelecidas. Seção II. – Embora Deus saiba tudo quanto pode ou há de suceder em todas as circunstâncias imagináveis, contudo não decretou coisa alguma por havê-la previsto como futura, nem como algo que haveria de acontecer em tais circunstâncias.5351 AGUS, Jacob B. La Evolucion del Pensamiento Judio: desde la época bíblica hasta los comienzos dela era moderna. Buenos Aires, Editorial Paidós, 1969, pp.16,17.52 PINK, A. W. Deus é Soberano. São José dos Campos, Editora Fiel, 1997, p.5. Os acréscimos entrecolchetes são meus.53 Confissão de Fé de Westminster. (Comentada por A. A. Hodge). São Paulo, Editora Os Puritanos,1999, p.95. W
  20. 20. d Y d Por fim, além desses comentários, o pensador muçulmano, aiatolá54 NasirMakarim Shirazi, também defende um ponto de vista equilibrado entre odeterminismo e a liberdade humana. Segundo Shirazi: (...) nós sabemos que os seres humanos têm liberdade de escolha e livre-arbítrio, © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011 ao mesmo tempo em que sabemos que Deus é o Governante sobre todas as pessoas e ações.55 Sendo assim, por mais paradoxal que possa parecer, proponho umaposição de meio-termo, que leve em consideração tanto o determinismomoderado quanto o livre-arbítrio moderado, isto é, uma posição que leve emconta tanto o determinismo divino quanto a liberdade humana como os doislados de uma mesma moeda. Aliás, sendo mais explícito ainda, defendo queembora a relação entre o determinismo divino e a liberdade humana seja ummistério, tal relação não implica necessariamente contradição. A finitude danossa existência humana e a limitação da nossa razão não podem servir comoargumentos infalíveis para comprovar a suposta contradição existente entre essasduas verdades. Nas palavras de Norman Geisler, “ninguém jamais demonstrouuma contradição entre predestinação e livre-escolha. Não há conflito insolúvelentre um acontecimento predeterminado por um Deus onisciente e um evento queé livremente escolhido por nós”.56 Ora, uma vez que nós definimos e justificamos a posição que, a nosso ver,corresponde melhor às verdades do determinismo divino e da liberdade humana,partamos então para o exame de Qöheºlet 3.1-15.54 Aiatolá é o título pelo qual são conhecidos os principais líderes islâmicos xiitas. O aiatolá é inferiorapenas ao Imã. (Cf. LOVISOLO, Elena et al. Dicionário da Língua Portuguesa. (Larousse Cultural). SãoPaulo, Editora Nova Cultural Ltda., 1992, p.33).55 SHIRAZI, Nasir Makarim. Principios Basicos del Pensamiento Islamico. (Vol. IV: Justicia Divina).Tehran, Bonyad Be‘zat, 1987, p.43.56 GEISLER, Norman. Eleitos, Mas Livres, pp.47,48. W
  21. 21. d Y d III – O QOHÉLET 3.1-15 E A TENSÃO ENTRE O DETERMINISMO E OLIVRE-ARBÍTRIO Segundo Dominic Rudman, autor do artigo Determinism and Anti-Determinism in the Book of Koheleth (Determinismo e Anti-Determinismo no © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011Livro de Qohélet), “dentro da erudição moderna, o catálogo dos tempos eestações em 3.1-8 e o comentário que Qohélet fornece sobre esta passagem em3.9ss., é visto como um texto chave para a compreensão do livro como umtodo”.57 Tal observação revela a importância de Qöheºlet 3.1-15 e de seu estudopara a compreensão do tema que ora estamos abordando neste trabalho.Entretanto, antes de entrarmos no comentário da perícope em si, devemosmencionar preliminarmente as palavras de Baruch Spinoza (1632-1677) sobre aliberdade que as pessoas têm de interpretar os textos religiosos em geral e, emparticular, a Bíblia. Dentro de seu Tratado Teológico-Político, no capítulo VIII,intitulado Da Interpretação da Escritura, Spinoza diz o seguinte: (...) como todos têm o pleno direito de pensar com liberdade, inclusive em matérias de religião, e não é concebível que se renuncie a este direito, cada um dispõe de uma autoridade suma de sumo direito para decidir em questões religiosas e, portanto, para lhes dar uma explicação e interpretação. Assim como o direito de interpretar as leis e a decisão soberana dos negócios públicos correspondem ao magistrado, por serem assuntos de direito político, da mesma forma cada um tem sua autoridade absoluta para julgar e explicar a religião, porque esta pertence ao direito de cada um.58 Estas palavras libertadoras de Spinoza, as quais fornecem umasalvaguarda ao leitor e ao intérprete da Bíblia no que diz respeito ao seu direitode interpretar o texto sagrado livremente, servirão como ponto de partida para onosso estudo de Qöheºlet. Bem, analisemos então o texto de Qöheºlet 3.1-15 apartir da tensão existente entre o determinismo e o livre-arbítrio.57 RUDMAN, Dominic. Determinism and Anti-Determinism in the Book of Koheleth. [The Jewish BibleQuarterly]. Vol.XXX, Nº 2. Jerusalem, Jewish Bible Association Press, 2002, p.3.58 SPINOZA, Baruch. Tratado Teológico-Político e Tratado Político. [Traducción y estúdio preliminar deEnrique Tierno Galván]. Madrid, Editorial Tecnos S.A., 1985, p.45. W
  22. 22. d Y d O trecho de Qöheºlet 3.1-15, assim como todo o livro de Qöheºlet de umaforma geral, emprega o paralelismo poético, até mesmo quando escreve em prosarítmica no lugar do verso.59 Além disso, esse trecho de Qöheºlet apresenta umaunidade coesa, mas que, estruturalmente falando, pode ser dividido em duassubperícopes: 3.1-8 e 3.9-15. Em minha opinião, enquanto que a primeira © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011subperícope (3.1-8) possui um caráter descritivo,60 pois ela descrevesimbolicamente, de forma não exaustiva, todas as situações da vida humana, asegunda subperícope (3.9-15), por sua vez, tem um caráter explicativo, porquevisa explicar o porquê das coisas acontecerem assim em Qöheºlet 3.1-8.61 3.1. Qöheºlet 3.1-8 öheº 1 Para tudo (há) um tempo determinado, e um tempo para todo propósito 2debaixo dos céus. Tempo para nascer, e tempo para morrer; tempo paraplantar, e tempo para colher; 3 tempo para matar, e tempo para curar; tempopara destruir, e tempo para construir; 4 tempo para chorar, e tempo para rir;tempo de se lamentar, e tempo de dançar; 5 tempo para lançar pedras, e tempode amontoar pedras; tempo para abraçar, e tempo para afastar-se de abraçar; 6tempo para buscar, e tempo para perder; tempo para guardar, e tempo paralançar; 7 tempo para rasgar, e tempo para costurar; tempo para calar, e tempopara falar; 8 tempo para amar, e tempo para odiar; tempo de guerra, e tempo depaz.59 ALTER, Robert KERMODE, Frank. (Orgs.). Guia Literário da Bíblia. São Paulo, Unesp,1997,p.299. Auzou diz que o autor de Qöheºlet “escreve em prosa ritmada entrecortada de sentenças e versos”.(Cf. AUZOU, Georges. A Tradição Bíblica. São Paulo, Livraria Duas Cidades Ltda., 1971, p.213).60 Assim pensa também Loader, segundo quem, “a reflexão sobre as séries de eventos mutuamenteexclusivos não é prescritiva, mas descritiva”. (Cf. LOADER, J. A. Polar Structures in the Book ofQohelet. Berlin / New York, De Gruyter, 1979, p.29).61 Todavia, Lilia Veras possui opinião diferente da minha. Para a autora, 3.1-8 é uma reflexão sobre aincapacidade do homem de interferir na obra de Deus e 3.9-15 é uma revisão de alguns temas que oQohélet tratou nos capítulos anteriores. (Cf. VERAS, Lilia Ladeira. Un Primer Contacto Con El Libro delEclesiastés o Libro de Qohélet. Quito, Ribla [Revista de Interpretacion Bíblica Latino-Americana], nº 52,2005, pp.8,9). Já Zenger afirma que o trecho de Qöheºlet 3.1-15 está dentro da estrutura maior de Qöheºlet1.3-3.22, a qual trata do desdobramento e resposta à pergunta pelo conteúdo e pelas condições dafelicidade humana. (Cf. ZENGER, Erich et al. Introdução ao Antigo Testamento. [Coleção BíblicaLoyola | Nº 36]. São Paulo, Edições Loyola, 2003, p.334). W
  23. 23. d Y d Este primeiro versículo funciona como uma introdução para todo o trechode Qöheºlet 3.1-8. Ele nos faz pensar, por exemplo, em um provérbio atribuído aolendário autor grego, Esopo (VI Séc. a.C.), que teria dito que “é uma grandecoisa fazer a coisa certa na época certa”.62 Contudo, dentro do contexto judaico, muitas opiniões têm surgido a fim de © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011poder responder à seguinte questão: “até que ponto a vida humana édeterminada?”.63 No Talmude da Babilônia,64 por exemplo, Rava65 (nascidoaproximadamente em 270 d.C.) afirma que até mesmo as questões maiselementares da vida humana estão sob a influência do zodíaco. Segundo ele: “Avida, as crianças e o sustento dependem não do mérito, mas das estrelas [mzl]”(B. Mo’ed Katan, 28a).66 Tal influência zodiacal também é notada nos menoresdetalhes da natureza, conforme pode ser percebido em Gênesis Rabá 10.6: “R.Simão disse ‘Não há uma espécie vegetal única, mas ela tem uma estrela [mzl] nocéu que a atinge e diz, Cresça!’”.67 De forma bastante curiosa e, às vezes,também contraditória, o Talmude diz em um momento que Israel é uma naçãopredeterminada e em outro momento afirma que Israel é dotado de vontade livre.Isto pode ser visto nos seguintes trechos talmúdicos: “R. Hanina b. Hama disse:‘As estrelas [mzl] fazem alguém sábio, as estrelas fazem alguém rico, e háestrelas para Israel’ (...) R. Yohanan disse: ‘Não há estrela para Israel’” (B.Shabat 156a-b, cf. Yevamot 21b).68 Além disso, há que se notar também que oTargum de Qöheºlet não está imune a esse tipo de pensamento determinista62 SCOTT, R. B. Y. [Ed.]. Proverbs, Ecclesiastes, p.221.63 V. D’Alario faz o seguinte comentário sobre o conceito de determinismo encontrado no livro deQöheºlet: “O emprego da palavra hrq.mi [“acontecimento, evento, destino”] no livro de Qohélet [p.ex., em3.19] é uma confirmação posterior da singularidade do nosso texto em comparação com outros livros doAntigo Testamento; hrq.mi na verdade poderia evocar uma força misteriosa que determina os eventos,considerando que na Bíblia o princípio da soberania absoluta de Deus está colocado de formaincontestável”. (Cf. D’ALARIO, V. Liberté de Dieu ou Destin? Un autre dilemme dans l’interprétationdu Qohélet. In: SCHOORS, A. (Ed.). Qohelet in the Context of Wisdom. Leuven, Leuven UniversityPress, 1998, p.457). Os acréscimos entre colchetes são meus.64 Segundo Christianson, o uso que o Talmude faz de Eclesiastes geralmente se concentra na aplicaçãoprática, muitas vezes, em apoio à observação mais banal. (Cf. CHRISTIANSON, Eric S. EcclesiastesThrough the Centuries. Oxford, Blackwell Publishing Ltd., 2007, p29).65 Seu nome é Rabi Abba Ben Joseph Bar Hama.66 RUDMAN, Dominic. Determinism and Anti-Determinism in the Book of Koheleth, p.4.67 Idem, Ibidem, p.4.68 Idem, Ibidem, p.4. W
  24. 24. d Y d astrológico, o que é evidenciado pelo fato de que esse Targum lê todo o livro deQöheºlet a partir da perspectiva determinista. A esse respeito, o filósofo francêsjudeu Emmanuel Levinas (1906-1995) escreveu o seguinte: Em quinze ocasiões, o Targum utiliza o termo MAZAL que eu, com sérias © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011 reservas, tenho traduzido como ‘Providência’... No Targum, Deus determina mazal (Cf. V,18; VI,2; X,6) e o bom mazal é uma recompensa dada às pessoas merecedoras (V, 17). Por outro lado, mazal é usado para descrever o destino inevitável: uma pessoa não pode fazer nada para mudar o seu mazal (IX, 11). Devido às suas características mecanicistas e deterministas, o Targum o usa para explicar desigualdades tais como o sofrimento dos justos e o bem-estar do perverso (VIII, 15). Os elementos mazal no Targum testemunham que a tradição Farisaico-Rabínica não erradicou o controle da astrologia sobre a opinião popular, mesmo nos casos onde mazal triunfou sobre zekut, isto é, mérito acumulado. “Tudo é determinado por mazal!” (IX, 2). No entanto, aqui também de vez em quando o Targum tempera este fatalismo explicando que Deus determina até mesmo o que o mazal irá trazer (IX, 12). Finalmente, o Targum inclui uma severa advertência contra o estudo e a prática da astrologia (XI,4), embora seja, ele próprio, contaminado por ela.69 A opinião do rabino espanhol Ibn Ezra (1093-1167)70 sobre Qöheºlet 3.1também merece a nossa atenção. Segundo Ibn Ezra, o destino dos seres humanosestava sujeito à influência astrológica. Tal tipo de pensamento não deve noscausar espanto, pois este sábio judeu era um estudioso das ciências em geral e,mais particularmente, da astronomia. Em seu comentário sobre Qöheºlet 3.1, IbnEzra observa que o texto se refere aos “tempos que são vigorosos sobre ahumanidade, pois o ser humano é obrigado a fazer tudo em seu tempodeterminado, e o início dos tempos determinados e seu fim o restringem”.71 Já Ginsberg (1903-1990) enxerga o Qöheºlet como alguém que se vêinsatisfeito na vida por causa de seu fatalismo e de seu determinismo rígido.69 LEVINE, E. The Aramaic Version of Qohelet. New York, Hermon, 1978, pp. 75-76. Apud: RUDMAN,Dominic. Determinism and Anti-Determinism in the Book of Koheleth, pp.4,5.70 Seu nome é Abraham ben Meir Ibn Ezra.71 RUDMAN, Dominic. Op.Cit., p.5. W
  25. 25. d Y d Segundo ele, o “Qöheºlet considera Deus como um senhor absoluto e arbitráriodo destino”.72 Entretanto, como Rudman declara: “levada à sua conclusão lógica, umafilosofia determinista implicaria que o próprio Deus, em última análise, éresponsável pela execução não apenas das boas ações dos seres humanos, mas © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011também das más”.73 Sendo assim, segundo penso, essa leitura deterministaradical de Qöheºlet não é adequada para a compreensão do nosso texto. Contudo,além destas leituras deterministas, há aqueles que buscaram interpretar aexistência humana através de uma perspectiva mais equilibrada. Maimônides74 (1135-1204), por exemplo, buscou interpretar esta questãoaliando o conceito de presciência divina ao conceito de liberdade humana. Estesábio observa que é muita ingenuidade acreditar que o mazal (sorte ou destinoinfluenciados pelas estrelas e planetas) possa afetar a nossa vida. “Se isso fosseverdade”, declara o sábio, “a Torá não teria nenhum sentido para nós. Nãoexistiria o conceito de recompensa e punição”.75 Maimônides ainda afirma: Nós chegamos à conclusão de que é possível acreditar nos sinais astrológicos que guiam o destino do homem assim como na Torá. Não são os sinais que dirigem a vida de uma pessoa, mas eles foram dispostos por D’us de acordo com a maneira como a vida de uma pessoa seria vivida [presciência divina]. Pois se os signos fossem capazes de ditar a vida de uma pessoa, isso significaria que ela não tem escolha [liberdade humana]. Todos os capítulos da Torá de reprovação não teriam nenhum sentido, se as pessoas fossem guiadas pelos signos.76 Além de Maimônides, outro sábio judeu, Moshe Alshich (1508-1593),também defende opinião semelhante, combinando o determinismo divino com aliberdade humana. Segundo Alshich, “desde a época em que D’us criou os céus e72 GINSBERG, Harold Louis. Supplementary Studies in Koheleth, 1952. Apud: EATON, Michael A. CARR, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: introdução e comentário. [Série Cultura Bíblica]. São Paulo,Vida Nova / Mundo Cristão, 1989, p.84.73 RUDMAN, Dominic. Determinism and Anti-Determinism in the Book of Koheleth, p.3.74 Seu nome é Moshe Ben Maimom.75 Maimônides, in: WASSERMAN, Adolpho. [Tradutor e compilador dos comentários]. Eclesiastes. SãoPaulo, Maayanot, 1998, p.20.76 Maimônides, in: Idem, Ibidem, p.20. Os itálicos e os acréscimos entre colchetes são meus. W
  26. 26. d Y d a ordem do zodíaco, Ele conhece o futuro em toda sua inteireza. Ele sabe comocada pessoa agirá e se ela merecerá recompensa ou punição por suas ações”.77Porém, em outro momento, este sábio declara que a palavra t[eî (`ët), “tempo”,em Qöheºlet 3.1, faz referência aos “sinais que são repartidos para todo propósitoe coisa sob os céus. Cada objeto tem seu futuro contido nas estrelas”.78 © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011 Já o trecho de Qöheºlet 3.2-8 nos mostra um poema que apresenta 14 paresde situações ou de ações antitéticas, as quais, embora não abranjam todas assituações da vida, devem ser vistas como elementos emblemáticos e simbólicosde sua totalidade, os quais não são de forma alguma casuais.79 Este paralelismo antitético, observado nos 14 pares de situaçõesjuntamente com os seus respectivos opostos, nos faz pensar naquilo que estáescrito no livro apócrifo de Eclesiástico 33.15, que diz: “Contempla, pois, todasas obras do Altíssimo, duas a duas estão todas uma diante da outra”.80 Segundo Rashi81 (1040-1105 d.C.), as expressões “tempo para nascer” e“tempo para morrer” (v.2a) se referem, respectivamente, aos limites divinamenteordenados colocados sobre o tempo de gestação e sobre o breve espaço de tempoda vida humana.82 De acordo com Rashi, o período natural de gestação de novemeses está além do controle humano.83 Em outras palavras, Rashi estádescrevendo aquilo que eu chamo de determinismo biológico, o qual afeta atodos os nascituros. Além disso, podemos dizer de igual modo que taldeterminismo biológico também alcança o ser humano no fim de seu ciclo vital.Por isso, há um “tempo para morrer”. Dito de outra forma, embora não estejadeterminado que todos devam nascer (com exceção daqueles que já nasceram, éclaro), todavia, está determinado que aqueles que nascerem experimentarão umciclo de gestação no ventre materno de aproximadamente nove meses e, está77 Alshich, in: WASSERMAN, Adolpho. Eclesiastes, p.20.78 Idem, Ibidem, p.20.79 LÍNDEZ, José Vílchez. Eclesiastes ou Qohélet, p.216. Cf. também: ANDERSON, William H. U.Scepticism and Ironic Correlations in the Joy Statements of Qoheleth? [Doctoral Thesis in Philosophy].Glasgow, University of Glasgow, 1997, p.72.80 GIRAUDO, Tiago BORTOLINI, José. (Eds.). Bíblia de Jerusalém, p.1294.81 Acrônimo de Rabi Shlomo ben Yitschak.82 RUDMAN, Dominic. Determinism and Anti-Determinism in the Book of Koheleth, p.6.83 Rashi, in: WASSERMAN, Adolpho. Eclesiastes, p.20. W
  27. 27. d Y d determinado também que, após o seu nascimento, tais pessoas deverão morreralgum dia.84 Todavia, Blenkinsopp acredita que as ideias contidas no poema foramemprestadas da filosofia estóica por um “judeu estoicizado”.85 E, para tentarcomprovar a sua tese, ele traduz equivocadamente a expressão tWm+l © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011(literalmente, “para morrer”) encontrada no verso 2a como “dar um fim à vidade alguém”, conectando assim o poema com a ideia estóica do suicídio.86 Porém,tal tradução é bastante forçada, pois não reflete adequadamente o significado dapreposição hebraica, a qual aparece acompanhada pela construção verbal queocorre no infinitivo construto do Qal. A continuação do verso, que diz que há “tempo para plantar e tempo paracolher” (v.2b), também aponta para outro tipo de determinismo, que eu chamariade determinismo agrário. Esse tipo de determinismo faz referência ao tempocerto de plantar e colher as várias espécies de sementes existentes, as quaispossuem um tempo apropriado para a sua plantação e também para a suacolheita.87 O Midrash,88 contudo, explica essa frase dizendo assim: “um tempopara plantar em tempo de paz e um tempo para arrancar a planta em tempo deguerra”.89 Já Jerônimo (347-420 d.C.) aplica todo o verso dois a Israel, dizendo oseguinte: “um tempo para nascer e plantar Israel; um tempo para morrer e ser84 Segundo Pfeiffer e Harrison, a morte que ocorre em uma guerra, em defesa própria, por exemplo, nuncaé acidental. Segundo estes autores, tal situação encontra eco na expressão moderna “era a sua hora de irembora”. (Cf. PFEIFFER, Charles F. HARRISON, Everett F. (Eds.). The Wycliffe Bible Commentary.Chicago, Moody Press, 1987, p.588).Rick Warren, por outro lado, enxerga a questão do nascimento e damorte de forma acentuadamente determinista. Segundo ele: “Uma vez que Deus o fez por um motivo, eletambém decidiu o momento de seu nascimento e seu tempo de vida. Ele planejou os dias de sua vidaantecipadamente, escolhendo o momento exato de seu nascimento e de sua morte”. (Cf. WARREN, Rick.Uma Vida Com Propósitos. São Paulo, Editora Vida, 2003, p.22).85 O estoicismo enfatizava o controle pessoal sobre as emoções. (Cf. EVANS, C. Stephen. Dicionário deApologética e Filosofia da Religião. São Paulo, Editora Vida, 2004, p.51).86 BLENKINSOPP, Joseph. Ecclesiastes 3.1-15: Another Interpretation. JSOT, Nº 66. Thousand Oaks,1995, pp.56-57.87 Kathryn Imray observa que os conceitos de “plantar” e “desenraizar” (“colher”) também podem sercompreendidos aqui como metáforas para o nascimento e para a morte. (Cf. IMRAY, Kathryn. Qohelet’sPhilosophies of Death. [Doctoral Thesis in Philosophy]. Perth, Murdoch University, 2009, p.70).88 Um nome genérico que se refere normalmente a ensinamentos não legais dos rabinos da era talmúdica.89 WASSERMAN, Adolpho. Eclesiastes, p.20. W
  28. 28. d Y d levado para o exílio. Um tempo para matar no Egito e um tempo para a libertaçãodo Egito”.90 No que se refere à frase que diz que há “tempo para matar, e tempo paracurar” (v.3a), devemos dar-lhe uma explicação prévia. O Qöheºlet não estavaquerendo defender com estas palavras o assassinato premeditado.91 Talvez, ele © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011esteja se referindo aqui a situações de matanças legítimas, por mais absurdo queisso nos pareça. Tais situações poderiam ser verificadas, por exemplo, emcontextos de guerra, nos casos de vingança dos vingadores do sangue, nasocasiões de pena de morte, ou, até mesmo, em situações de autodefesa.92 Se estefor o caso, então, em Qöheºlet 3.3 nós saímos da “zona determinista” de Qöheºlet3.1,2 e entramos no “perímetro do livre-arbítrio”. Explico: embora estejadeterminado sobre todos os nascituros que eles devem cumprir certo período degestação e que eles também deverão morrer, não está de igual modo determinadoque um soldado irá necessariamente matar alguém em uma guerra ou que eledeverá matar alguém com o intuito de se autodefender. O soldado podesimplesmente se recusar a matar alguém por sua livre escolha. Um comentáriolingüístico judaico sobre a Bíblia, chamado em hebraico Michlol Yofi, e escritopelo Rav David Kimchi, o Radak (Séculos XII/XIII), explica o verso 3a dizendoque o “tempo para matar” é o tempo para a execução legal de criminosos e o“tempo para curar” é o tempo de investigação para uma possível absolvição dosuspeito.93 Na segunda parte do verso três, a expressão “tempo para destruir, etempo para construir” (v.3b) é interpretada pelo Midrash como um tempo paradestruir pela guerra e construir na paz.94 No verso quatro, os dois pares de situações envolvem emoções humanas,primeiro as particulares (chorar/rir) e, depois, as públicas (lamentar/dançar).95 A90 MANNS, F. Le Targum de Qohelet – Manuscrit Urbinati 1: Traduction et commentaire. [StudiumBiblicum Franciscanum]. Jerusalem, Liber Annuus, Nº 42,1992, p.152.91 LIOY, Dan T. The Divine Sabotage: An Exegetical and Theological Study of Ecclesiastes 3. [Article].Vol.5. South Africa, South African Theological Seminary, 2008, p.118.92 CHAMPLIN, R. N. O Antigo Testamento Interpretado: versículo por versículo. [Vol. 4 | Salmos –Cantares]. São Paulo, Editora Hagnos, 2001, p.2713.93 WASSERMAN, Adolpho. Eclesiastes, p.20.94 Idem, Ibidem, p.21.95 EATON, Michael A. CARR, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: introdução e comentário, pp.86,87. W
  29. 29. d Y d frase “tempo para chorar e tempo para rir” (4a) é interpretada pelo Lekach Tov96assim: “chorar pela destruição do Templo em Tishá BeAv [9 de Av] e rir pelaredenção de Israel”.97 Já a frase seguinte, “tempo de se lamentar e tempo dedançar” (v.4b) é compreendida pelo Rabi David Altschuller (Séc. XVIII), em seuMetsudat David (comentários sobre a Bíblia) como uma referência ao tempo de © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011luto pelos mortos e ao tempo de dançar em festas de casamento.98 Os dois pares de situações do verso cinco parecem descreverrelacionamentos humanos de amizade e inimizade.99 Todavia, a primeira parte,do verso, “tempo para lançar pedras, e tempo de amontoar pedras” (v.5a) temrecebido quatro interpretações principais, as quais mencionamos abaixo: (i) O Targum aramaico de Eclesiastes via, aqui, uma referência a espalhar pedras num edifício velho, preparando-se para edificar-se um prédio novo; esta opinião era defendida, também, por Ibn Ezra. (ii) Outros viam, aqui, uma referência ao hábito de espalhar pedras nos campos, a fim de torná-los improdutivos (cf. 2 Rs 3.19,25; Is 5.2). (iii) Plumptre via, aqui, “uma velha prática judaica... de atirar pedras, ou terra, no túmulo, num enterro”, na primeira frase [tempo para lançar pedras], e a preparação para construir uma casa, na segunda [tempo de amontoar pedras]. (iv) Eruditos mais recentes têm visto uma referência de ordem sexual seguindo a interpretação do Midrash.100 Já a segunda parte do verso, “tempo para abraçar e tempo para afastar-sede abraçar” (v.5b), é interpretada pelo Targum com conotações sexuais. Segundoo Targum, o texto está se referindo a “um tempo escolhido para abraçar umamulher e um tempo escolhido para evitar abraçá-la no período de sete dias deluto”.10196 Também conhecido como Pessikta Zutrata, um trabalho midráshico de Rabi Tovia (ben Eliezer) HaGadol (1036-1108) sobre vários livros da Bíblia Hebraica, incluindo o livro de Qohélet, sendo estepublicado em 1908. (Cf. WASSERMAN. Eclesiastes, p.120).97 WASSERMAN, Adolpho. Op.Cit., p.21. Os acréscimos entre colchetes são meus.98 Idem, Ibidem, p.21.99 EATON, Michael A. CARR, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: introdução e comentário, p.87.100 Idem, Ibidem, p.87. Os acréscimos entre colchetes são meus.101 MANNS, F. Le Targum de Qohelet – Manuscrit Urbinati 1: Traduction et commentaire, p.153. W
  30. 30. d Y d Contudo, a meu ver, todo o versículo cinco descreve, na verdade, umparalelismo de ideias cruzadas, no qual as mesmas ideias se repetem, mas comtermos distintos. Em outras palavras, o “tempo para lançar pedras” e o “tempopara afastar-se de abraçar” são correspondentes e descrevem relações deinimizade. E, por outro lado, o “tempo de amontoar pedras” e o “tempo para © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011abraçar” também possuem correspondência, mas descrevem relações de amizade.Esse paralelismo de ideias cruzadas pode ser exemplificado pelo quadro abaixo: “tempo para lançar pedras e tempo de amontoar pedras” (v.5a) A B A B “tempo para abraçar e tempo para afastar-se de abraçar” (v.5b) O verso seis, que diz que há “tempo para buscar, e tempo para perder;tempo para guardar, e tempo para lançar” (v.6) é interpretado por Rashi a partirda perspectiva da liberdade humana. Rashi lê assim esse verso: “Um tempo parabuscar os espalhados de Israel e um tempo para perdê-los no exílio. Guardarquando Israel cumpre a vontade de D’us, e jogar fora quando Israel age contra avontade de D’us”.102 Então, neste verso, a capacidade que o homem tem tanto de cumprirquanto de descumprir a vontade de Deus, evidencia a sua liberdade de vontade ede ação em relação à vontade de Deus. Portanto, a partir da interpretação queRashi dá ao verso seis, verificamos que na “queda de braços” entre odeterminismo e a liberdade humana, a liberdade humana se sagrou vencedora.Logo, tendo em mente essas observações, podemos dizer que o homem é livre noque diz respeito à livre escolha de suas ações. Quanto ao verso sete, que diz que há um “tempo para rasgar, e tempo paracosturar; tempo para calar, e tempo para falar” (v.7), Saadia Gaon103 (892-942)interpreta a primeira parte deste verso, “tempo para rasgar, e tempo para102 WASSERMAN, Adolpho. Eclesiastes, p.21. Os itálicos são meus.103 Esta é a forma abreviada de Rabi Saadia ben Yossef Gaon. W
  31. 31. d Y d costurar” (v.7a) com estas palavras: “rasgar as roupas em luto pelos mortos ecosturar as roupas para as festas de casamento”.104 Tais ações antitéticas de“rasgar” e “costurar” as roupas pressupõem, segundo penso, ações humanaslivres, pois, nas situações de luto e de casamento, os atos de rasgar e costurar,embora possam ser condicionados culturalmente pela sociedade na qual se vive, © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011constituem-se, porém, em última análise, em atos livres e autônomos por partedaqueles que os praticam ou deixam de praticá-los. Já a segunda parte do verso,“tempo para calar, e tempo para falar” (v.7b) pode ser interpretada pelo Talmude,no Tratado Berachot 6b, assim: Disse Rav Papa: A recompensa por ir à casa do enlutado – provém do silêncio, pois é o meio principal de expressar apoio e confortar o enlutado. (...) Disse Rav Ashi: A recompensa por comparecer a um casamento – provém das palavras que são ditas aos noivos.105 Aqui, devemos voltar a nossa atenção primeiramente para a frase “tempode calar, e tempo de falar” (v.7b). Acredito que esta frase exemplifique, melhordo que qualquer outra, a liberdade de que gozamos em nossa existência humana.Digo isso porque, o próprio Tanakh, em outras situações, fala, por exemplo,sobre o perigo de “estar em silêncio” quando se deve falar e, por outro lado, operigo de “falar” quando se deveria estar em silêncio. Davi, em um Salmoatribuído a ele, faz o seguinte lamento: “Com o silêncio fiquei como mudo;calava-me mesmo acerca do bem; mas a minha dor se agravou” (Sl 39.2). Vemosaqui que Davi, no momento em que deveria falar sobre o bem, permanece,contudo, calado, valendo-se, portanto, da liberdade que tem de ficar em silêncio.Além disso, lemos também que “como maçãs de ouro em salvas de prata, assim éa palavra dita a seu tempo” (Pv 25.21).106 Aqui, o texto sagrado enaltece aqueleque sabe falar no momento apropriado, o que nos leva a pensar, por outro lado,que é igualmente possível alguém falar mesmo quando a ocasião não é104 WASSERMAN, Adolpho. Eclesiastes, p.21.105 ENDE, Shamai. (Ed.). Talmud Bavli. [Massechet Berachot]. Vol.1. São Paulo, Editora Lubavitch eYeshivá Tomchei Tmimim Lubavitch, 2010, pp.49,51. Os itálicos são meus.106 Estas duas citações bíblicas foram extraídas de: ALMEIDA, João Ferreira de. Bíblia Sagrada.(Almeida, Revista e Corrigida). Rio de Janeiro, Imprensa Bíblica Brasileira, 1991. W
  32. 32. d Y d conveniente para isso. Em outras palavras, há muitos que “falam peloscotovelos” no “tempo para calar” qoheletiano e há também muitos que mantémum “silêncio ensurdecedor”, por exemplo, diante da injustiça, quando, naverdade, deveriam gritar a plenos pulmões contra ela. Além disso, note-se que o Tratado Berachot 6b, que acabamos de citar, © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011fala ainda sobre as “recompensas” que existem tanto para aqueles que se mantêmem silêncio na casa do enlutado, quanto para aqueles que falam boas palavras aosnoivos em um casamento. Ora, se há uma recompensa, deve-se pensarconseqüentemente que há também uma boa ação livre que tenha sido executada eque, portanto, merece ser justamente retribuída por tal ato. Finalmente, o último verso desta primeira subperícope de Qöheºlet diz quehá “tempo para amar, e tempo para odiar; tempo de guerra, e tempo de paz”(v.8). Sobre este verso, o Rabi David Altschuller, em seu já citado MetsudatDavid (comentários sobre a Bíblia) declarou que “pode-se amar algo hoje edetestá-lo amanhã. Há tempos em que uma nação entra em guerra com seuvizinho e outros tempos em que ela busca conviver com esse vizinho”.107 Essasdeclarações do Qöheºlet acrescidas do comentário de Altschuller, mais uma vezme fazem pensar na liberdade humana. Ou seja, se o ser humano não fosse livrepara poder escolher entre amar e odiar e entre guerrear e viver em paz, então qualo propósito de textos como Lv 19.18, que diz: “Não te vingarás nem guardarásira contra os filhos do teu povo; mas amarás o teu próximo como a ti mesmo: eusou o Senhor”?108 Ora, estas ordens dadas ao povo de Israel para que este não sevingue, não se ire e ame o seu próximo, só podem fazer sentido, se Israel tiverreal liberdade para cumprir ou não tais ordens. Sendo assim, não há comoentender as frases: “tempo para amar, e tempo para odiar; tempo de guerra, etempo de paz” (v.8) a não ser que elas sejam vistas sob a ótica da liberdadehumana. Caso contrário, se o homem não é livre para praticar ou deixar depraticar tais atos, então, por que os mandamentos de Lv 19.18, por exemplo,teriam sido ordenados? Tal pensamento não faria o menor sentido.107 WASSERMAN, Adolpho. Eclesiastes, p.21.108 ALMEIDA, João Ferreira de. Bíblia Sagrada. (Almeida, Revista e Corrigida). Rio de Janeiro,Imprensa Bíblica Brasileira, 1991. W
  33. 33. d Y d De uma forma geral, na análise que fizemos de Qöheºlet 3.1-8 percebemosque, enquanto o trecho de Qöheºlet 3.1,2 possui um tom mais determinista(mencionando, por exemplo, o determinismo biológico e o determinismoagrário), o trecho de Qöheºlet 3.3-8, por outro lado, acaba enfatizando mais a © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011liberdade humana. Neste momento de transição entre Qöheºlet 3.1-8 e Qöheºlet 3.9-15, cabecitar aqui as perspicazes palavras de Michael Eaton: Os primeiros oito versículos declaram o controle providencial da vida, porém, com pouca interpretação ou comentário. Não se mencionou o Deus que origina e controla este programa de “tempos”. Não se explicou, tampouco, a relevância que isto tem na vida diária. Os versículos 9-15 retificam essa dupla omissão.109 Ora, depois dessas importantes observações sobre o trecho de Qöheºlet3.1-8, que, como vimos, possui caráter mais descritivo, partamos então agorapara a análise de Qöheºlet 3.9-15, que, reiteramos, busca explicar aquilo que foiescrito anteriormente em Qöheºlet 3.1-8. 3.2. Qöheºlet 3.9-15 öheº 9 Que proveito (tem) o trabalhador no que ele trabalha? 10 Eu tenho visto 11a tarefa que deu Deus aos filhos do homem para estarem ocupados nela.Tudo fez belo em seu tempo; Também o mundo deu no coração deles, de talmodo que não descubra o homem a obra que fez Deus desde o princípio e até ofim. 12 Eu sei que não há nada melhor para eles que se alegrarem e fazerem (o)bem em sua vida. 13 E também todo homem, que coma e beba e veja (o) bem em 14todo seu trabalho. Isso (é) um dom de Deus. Eu sei que tudo (o) que fezDeus, ele (isso) será para sempre. Sobre ele (isso) nada (há) para acrescentar edele (disso) nada (há) para tirar, e Deus (o) fez (para) que temam em face dele.15 O que foi, ele já (é); e (o) que será, já foi; E Deus buscará o perseguido.109 EATON, Michael A. CARR, G. Lloyd. Eclesiastes e Cantares: introdução e comentário, p.87. W
  34. 34. d Y d A segunda parte do texto começa com uma importante pergunta: “Queproveito (tem) o trabalhador no que ele trabalha?” (v.9).110 Segundo JamesCrenshaw, a própria forma do poema sobre os tempos em Qöheºlet 3.2-8 jáoferece uma resposta a esta questão. E a resposta é: “uma coisa cancela aoutra”.111 Parece, segundo Kidner, que nós estamos dançando “ao som de uma © Carlos Augusto Vailatti ● Qöheºlet 3.1-15 e a Tensão entre o Determinismo e o Livre-Arbítrio ● 2011música, ou de muitas delas, que não foram compostas por nós”.112 Como disseLíndez, esse tom cético de Qöheºlet o caracteriza e o distingue radicalmente detodos os sábios que o precederam.113 Aliás, o tom pessimista deste verso équestionado tanto por Ibn Ezra quanto pelo Rabi Yaacov ben Yaacov Moshe deLissa (1760-1832). Ibn Ezra pergunta: “Uma vez que tudo é governado pelotempo, sobre o qual o homem não tem nenhum controle, que esperança existepara ele em reter o domínio sobre seus esforços?”.114 E o Rabi Yaacov benYaacov Moshé de Lissa, em seus comentários sobre o Qöheºlet intituladosTaalumot Chochmá, de forma contundente, faz os seguintes questionamentossobre a predestinação e a liberdade humana: “Se tudo está predestinado por D’us,independente da ação humana, seria próprio questionar o que o homem esperaalcançar por seu aparente desperdício em labutar estudando a Torá e praticandoas mitsvót”.115 De uma forma geral, verificamos que o Qöheºlet 3.9 acabaservindo como introdução a Qöheºlet 3.10-15, versículos estes que, juntos,fornecem “a resposta teológica de Qohélet à sua grande inquietude como sábio e110 Longman observa que a palavra yyitrôn, “proveito”, é uma palavra-chave em Eclesiastes, ondeaparece nove vezes. Contudo, estranhamente, ela não ocorre em nenhuma outra parte no AntigoTestamento. Ao que tudo indica, o termo deriva do verbo ytr, “sobrar”, “restar”. (Cf. LONGMAN III,Tremper. The Book of Ecclesiastes. [The New International Commentary on the Old Testament]. GrandRapids, Wm. B. Eerdmans Publishing Company,1998, p.65). Os Gallazzi, ao comentarem os versos novee dez, observam: “Tudo parece determinado, escrito, decidido. A vida parece ser um jogo com cartasmarcadas. Nem o ‘amal (v.9), o trabalho escravo imposto pelo Mercado, nem o ‘inian (v.10), a fadigaincompreensível imposta por Deus, são de algum “proveito” para o trabalhador (…)”. (Cf. GALLAZZI,Ana Maria Rizzante GALLAZZI, Sandro. La Prueba de los Ojos, La Prueba de la Casa, La Pruebadel Sepulcro: una clave de lectura del libro de Qohélet. Quito, Ribla [Revista de Interpretacion BíblicaLatino-Americana], Nº 14, 1993, p.10).111 CRENSHAW, James L. Ecclesiastes. [The Old Testament Library]. Philadelphia, The WestminsterPress, 1987, p.96.112 KIDNER, Derek. A Mensagem de Eclesiastes. [Série: A Bíblia Fala Hoje]. São Paulo, ABU EditoraS/C, 1998, p.26.113 LÍNDEZ, José Vílchez. Eclesiastes ou Qohélet, p.225.114 WASSERMAN, Adolpho. Eclesiastes, p.21.115 Idem, Ibidem, p.21. W

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