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Cães & gatos encontro marcado (maria augusta de toledo bergerman)

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Cães e Gatos.

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Cães & gatos encontro marcado (maria augusta de toledo bergerman)

  1. 1. O livro fala sobre animais abandonados e reúne diversas crônicas que relatam resgates, encontros e desencontros. O livro conta também minha experiência como protetora independente por mais de 20 anos e da doação de mais de 2.200 animais de rua para várias cidades do Brasil e também para Portugal e Espanha. Algumas das histórias são narradas pelos próprios animais e outras tratam de sua situação de abandono no Brasil. As ilustrações são de Marcelo Calenda. Cães & Gatos: Encontro Marcado inclui a crônica “Judaísmo e os animais” que procura mostrar como, há cerca de 3000 anos, já se falava de compaixão por esses seres indefesos e sobre bem-estar animal.
  2. 2. “O dia é curto e a tarefa é grande. Não cabe a você completar o trabalho, mas sim envolver-se nele, mas você também não está livre para desistir dele.” Pirkei Avot - Ética dos Pais (2:15,16)
  3. 3. ENCONTRO MARCADO COM CÃES
  4. 4. Animais e Justiça Social: um outro olhar sobre os animais Esse livro tem como tema os animais e também Justiça Social. Os animais são as personagens centrais de todas as crônicas, mas não qualquer animal, e sim aquele que não teve nenhum privilégio, aquele que foi abandonado pela sociedade. Enquanto algumas pessoas cuidam com responsabilidade de seus animais de estimação, outras não lhes oferecem uma vida digna e, na primeira dificuldade, os descartam como se fossem objetos. É para esses seres rejeitados, na sua grande maioria vira-latas, que esse livro é dedicado e todas as histórias refletem minha experiência como protetora independente por mais de vinte anos. Os animais foram domesticados para cumprir vários propósitos como segurança, caça e, no caso dos gatos, proteção dos alimentos contra predadores. Entretanto, no momento em que eles saíram de seu habitat e começaram a servir ao homem, não conseguiram mais sobreviver sozinhos e, por séculos, eles dependem do ser humano para suprir suas necessidades básicas. O homem porém, falhou com esses seres inocentes, usou-os sem nenhuma gratidão e sem oferecer nada em troca de sua dedicação e fidelidade. Por isso, esse livro fala de Justiça Social, pois ela inclui também os animais. As histórias não procuram humanizar os animais, pois não cabe a eles suprir desejos, necessidades ou carências dos seres humanos. Elas não fazem apologia de um tipo de amor que substitua a convivência entre os homens, elas não falam de exclusão e sim de inclusão. Aqui não se tece juízos de valor e nem se considera que a ajuda dada aos animais seja superior ou inferior à ajuda que devemos dar a nosso próximo. Esse livro pretende apenas apontar para uma injustiça histórica e para a necessidade de corrigirmos esse erro ao sugerir que os animais abandonados têm direito a uma vida digna. Em suma, ele propõe, um outro olhar na relação entre humanos e animais, o mesmo olhar de amor e respeito com que eles foram criados, um olhar de compaixão que foi formulado há cerca de 3.000 anos pela Torá,
  5. 5. Bíblia Judaica. O Judaísmo ensina que somos proibidos de ser cruéis para com os animais e que devemos tratá-los com compaixão, pois eles são parte da criação divina e as pessoas têm responsabilidades especiais para com eles. Este conceito está resumido no lema tsa’ar ba’alei chayim: não podemos causar dor a nenhuma criatura viva. O Judaísmo propõe também uma prática chamada Tikun Olam, que quer dizer reparar o mundo e é um modo de agir visando consertar os defeitos de nosso planeta. Uma pessoa faz Tikun Olam quando encontra uma maneira, sua própria maneira de realizar a tarefa de tornar o mundo por Ele criado em um lugar melhor para todos os seres vivos e assim, ela se torna parceira de Deus em Sua criação. Deus gostou de Sua criação, abençoou-a e deixou-nos a incumbência de aperfeiçoar Sua obra, como foi dito na Ética dos Pais: “O dia é curto e a tarefa é grande. Não cabe a você completar o trabalho, mas sim envolver-se nele, mas você também não está livre para desistir dele.” Pirkei Avot - Ética dos Pais (2:15,16) Por isso, nós precisamos agir sempre que encontramos alguma injustiça que precisa ser corrigida: “Quando os nossos estudos excedem as nossas ações, somos como árvores cujos ramos são muitos, mas as raízes são poucas: o vento vem e nos arranca. Quando nossas ações excedem os nossos estudos, somos como árvores cujos ramos são poucos, mas nossas raízes são muitas: assim, mesmo que todos os ventos do mundo venham e soprem contra elas, serão incapazes de movê-las.” Pirkêi Avot – Ética dos Pais (3:22) Muitas das histórias desse livro narram “coincidências”, animais que foram salvos graças a situações que se sucederam e criaram conexões perfeitas. O Judaísmo, por seu lado, nos ensina que não existem coincidências, tudo está perfeitamente conectado, como descrito na história da folha e da formiga atribuída ao Baal Shem Tov, fundador do movimento Chassídico: Baal Shem Tov disse que quando um pedaço de palha cai de um vagão, isso foi decretado pelo Céu. Da mesma forma, quando uma folha cai de uma árvore, é porque o Céu decretou que essa folha especial, neste momento particular, deveria cair nesse determinado ponto. Uma vez Baal Shem Tov mostrou aos seus discípulos uma folha caindo no chão e disse-lhes para buscá-la. Eles o fizeram e viram que uma formiga estava debaixo dela. O mestre então explicou que a formiga estava sofrendo muito devido ao calor e que a folha tinha caído para dar-lhe sombra.
  6. 6. Mais do que compaixão, o olhar proposto nesse livro assinala que os animais são seres sencientes, ou seja, sentem dor, medo e diversas outras emoções e se diferenciam dos humanos apenas no aspecto racional e na comunicação verbal e, uma vez que eles são seres que amam e são fiéis a seus tutores, têm direito a uma vida digna e merecem ser tratados com respeito. Porque são seres que não podem se defender sozinhos, nós temos o dever de amenizar seu sofrimento e tentar corrigir a injustiça milenar a que eles são submetidos.
  7. 7. Encontro marcado com Pintada Pintada sempre foi uma cadela muito especial, única com relação à sua aparência e, agora percebo, também sua boa estrela. Seu corpo é todo malhado, preto e branco, como as pinceladas de um artista impressionista. Seu rosto, porém é marrom, como se pertencesse a outro corpo ou então tivessem esquecido de finalizá-lo, pois faltam as pinceladas pretas e brancas. Quando você a olha pela segunda vez, já não tem a mesma impressão, você a acha bonita, de tão meiga e serena que ela é. É isso, ela é principalmente serena como se soubesse que no final tudo dará certo e as peças do quebra-cabeça, por mais estranhas e inusitadas que pareçam, irão se encaixar. Perplexidade é o que sinto até agora. Passadas muitas horas do ocorrido, eu ainda não consegui digerir todas as informações. Pintada surgiu certo dia em frente de casa, ainda filhote, muito magra e com sarna. Depois de medicada e bem alimentada ficou aguardando por um dono que veio buscá-la muitos meses depois. Neste dia, eu a vi partir assustada, sem entender o que estava acontecendo e nos deixando com aquela sensação que sempre retorna nesses momentos: não podemos ficar com todos os animais que resgatamos e, contra nossa vontade, precisamos deixá-los partir sem a plena certeza de que irão ficar bem. Só nos resta torcer por eles e esperar sempre pelo melhor. Depois disso, tive notícias frequentes da Pintada e informaram que ela estava bem e se acostumando ao novo lar. Depois de alguns meses, ela já parecia estar bem adaptada. Hoje, depois de quase um ano da doação, decidi ir ao supermercado numa cidade próxima, lugar onde nunca tinha estado e aonde provavelmente não retornarei, para comprar um produto, não tão importante, que estava em oferta. Por que hoje ou por que decidi fazer algo que nunca fizera antes? Na porta de entrada do supermercado, com aquele ar desolado que só os animais abandonados têm, eu vi a Pintada. Inicialmente, não acreditei em meus olhos e pronunciei seu nome mais por susto que por constatação. Um grito de alívio foi sua resposta, quase um choro, um misto de surpresa e esperança. Sim, era ela, com uma leve cicatriz perto do focinho, castrada e
  8. 8. principalmente com aquela pelagem inconfundível. Como ela fora parar nesse lugar? Como nós fomos parar nesse lugar? Depois do choque inicial, levei Pintada para o carro e ela foi se aninhando no banco traseiro e começou a cochilar quase que instantaneamente. Ela parecia estar finalmente relaxando, depois de muito tempo de tensão e sofrimento. Será que ela fora abandonada ou estava tentando voltar para o local em que fora feliz? Como ela sabia que tinha que me esperar àquela hora, naquele local? Que força poderosa é essa que nos reuniu? Tínhamos um encontro marcado para aquele dia e para lá fomos transportados, quase como marionetes. Eu não tenho essas respostas. A única certeza que tenho é que Pintada é uma cachorrinha que tem muita sorte. Ou será que a sorte é nossa por conhecê-la? E o produto que eu fui procurar no supermercado? Vocês podem acreditar, já estava esgotado.
  9. 9. Maria Chiquinha, um grande achado Ela vinha ziguezagueando pela avenida, totalmente desnorteada. Os carros passavam ao seu lado e ela seguia em frente, trêmula, desengonçada, em pânico total. Quando tentei pegá-la, ela quase me mordeu e eu tive que jogar meu casaco para conseguir segurá-la. Nesta hora, vi uma bicheira imensa em uma das patas, muitos nós em seus pelos longos e encardidos e um chumaço que cobria todo seu rosto. Quando finalmente consegui ver seus olhos, entendi tudo, ela era cega e não sabia por onde estava caminhando, só pressentia o perigo iminente. Fiquei chocada por vários dias, pois coloquei-me em seu lugar e consegui sentir seu desespero: ela sabia que tinha que continuar procurando um abrigo, um local seguro, mas não tinha a menor ideia de qual direção tomar. Até hoje recordo esse momento, não deve existir desespero maior do que aquele sentido por um cego vagando sozinho em terreno desconhecido. E também não pode haver maior covardia do que a cometida por pessoas que abandonam animais cegos à sua própria sorte. Nunca pensei em doar a Maria Chiquinha, não tive coragem. Tentei fazer com que ela se acostumasse a um local tranquilo, seguro e bem delimitado. No início, ela só ficava embaixo de um armário e lá eu colocava sua comida e água. Ela foi saindo aos poucos e esse processo foi longo e com muitos retrocessos. Eu não podia forçar nada, uma aproximação, um afago, e ela se fechava novamente e voltava para seu esconderijo. Aos poucos, ela se acostumou e, algum tempo depois, começou a relaxar. Mas, tranquila não é bem a palavra para descrevê-la, pois ela está sempre atenta, desconfiada e pronta para se defender de algum perigo que só ela pressente ou fareja. Hoje percebo que Chiquinha confia em mim e se entrega às vezes com prazer e outras com resignação às minhas exageradas demonstrações de carinho. Maria Chiquinha está feliz, mas seu espaço é permanentemente invadido: ela fica na lavanderia onde também abrigo os filhotes resgatados que aguardam adoção. No começo, isso me incomodava muito, pois achava que não estava conseguindo dar a ela a paz que ela merecia.
  10. 10. Aos poucos percebi que esta é sua missão, educar os filhotes. E ela sabe muito bem como fazê-lo: é enérgica, não gosta de bagunça, sujeira ou barulho fora de hora. Todo mundo aprende a fazer suas necessidades no lugar certo, aprende a hora certa para cada coisa e, principalmente, a hora de dormir. É maravilhoso observar essa menina tão pequena e frágil dando bronca em cachorros duas ou três vezes maiores que ela e eles obedecendo! Várias pessoas já me elogiaram, pois os filhotes que doo são muito educados, tranquilos, asseados e obedientes. Claro, com uma mãezinha tão rigorosa e competente, não poderia ser de outra maneira.
  11. 11. Raposa A Raposa morreu! Ninguém parecia acreditar no que estava acontecendo. Tínhamos tanta certeza que ela viveria muitos anos ainda. Raposa iria sobreviver a todos os outros cachorros e morreria bem velhinha. Eu também estava certa disso. Estou falando dos cachorros do condomínio que moram nas guaritas há anos. Eles são cachorros especiais que conquistaram seu espaço depois de muita luta e persistência. Muitos passam por lá todos os dias, mas só alguns permanecem e todos os residentes têm algo em comum: persistência, docilidade e esperteza. Raposa, com certeza, nasceu no mato e, de algum modo, conseguiu sobreviver. Certa manhã, ela foi se aproximando e esse processo foi muito, muito longo. Foi chegando bem devagar, desconfiada, medrosa e arisca. Meses depois já vinha comer. Dormir na casinha, porém, nem pensar! O mato era bem mais seguro. Um dia, ela chegou de vez, silenciosa e suavemente. Chegou e ficou. Logo depois, levei-a para castrar. Ela voltou assustada e, ao contrário de outros cachorros, teve complicações sérias. Uma manhã, percebi que ela estava muito agitada e, ao me aproximar, vi suas entranhas começando a sair. Após horas de perseguição, ela foi novamente internada. Nova cirurgia. Mais umas semanas e Raposa volta triunfante para a guarita. Ainda ouço todos felizes e brincando: - Raposa não morre mais! Ela deve ter alma de gato: mais umas seis vidas, pelo menos ... Três anos depois, novamente estranhei sua ausência: ela esperava minha visita diária com a maior assiduidade. Sabia a hora exata da minha chegada, portanto, algo errado acontecera. Depois de três dias de procura, ela apareceu, só que dessa vez, Raposa veio se arrastando até a guarita com a bacia fraturada e sem seu lindo e volumoso rabo. - Onde já se viu uma Raposa cotó? Novamente ela foi internada mas, desta vez, por um longo período. Seu retorno foi ainda mais comemorado:
  12. 12. - Esta tem ainda umas cinco vidas pela frente ... Raposa não morre tão cedo! Depois do acidente, ela passou a demonstrar sua felicidade balançando todo o corpo. Na ausência do rabo, Raposa gingava. E não é que a Raposa morreu! Silenciosa e suave como chegou, ela desprezou a caminha quente que eu lhe presenteei e foi à procura da original. Deitou-se em sua cama de folhas e partiu. Restou um imenso vazio e a certeza de que sua partida foi prematura. Pior ainda, ela ficou nos devendo suas outras vidas.
  13. 13. Rita Consegui doar uma cadela adulta e vira-lata, uma combinação explosiva e que dificulta as doações. Rita porém, é pequena e bonita, com pelagem de Husky e tamanho de Poodle e tem aquele encanto e beleza que só os vira-latas possuem: as muitas misturas originam aparências totalmente inusitadas, algumas delas incomparáveis. Se você tem um vira-lata, sabe do que eu estou falando, ele com certeza é único e especial, não existe nenhum outro cachorro que se pareça com ele. Logo apareceu uma família querendo adotar Rita. Mas, não sei se é porque esperavam por um cachorro de raça, só sei que a devolveram após alguns dias com milhares de justificativas, todas elas banais. Lá fui eu buscar a Rita de volta. Para chegar à casa da família é preciso atravessar toda a cidade, uma pequena cidade do interior. Cruzei ruas repletas de animais abandonados, de crianças pedindo esmola e adultos sem esperança. Você vai observando em cada quarteirão três ou quatro cães famintos, mutilados por atropelamentos, cobertos de sarna e cruzando. Em breve teremos muitos mais perambulando por aí e sofrendo. Pois bem, peguei a Rita com um nó na garganta e saí contando os cachorros e homens abandonados que eu via pelo caminho de volta, com uma angústia que crescia a cada quarteirão, enquanto me perguntava qual seria o sentido desta doação mal sucedida e desta viagem. Por que eu tivera que ir até lá e ver tudo aquilo? Qual seria a explicação para o sofrimento de todos esses animais racionais ou não? O auge da minha tristeza foi quando vi, no centro da cidade, um dálmata em exposição numa casa de rações. Ele estava em uma gaiola muito pequena, sem comida ou água e, como já tinha uns três meses de idade, ficava com as patas para fora das grades por absoluta falta de espaço. Por um breve momento, ele tentou se levantar, mas não teve sucesso. Enquanto eu me distanciava, podia ver seus esforços inúteis, sua impotência e o desânimo que ia tomando conta dele e de tudo que o cercava. Cheguei em casa arrasada, só querendo compreender: qual é a explicação para tudo isso?
  14. 14. No dia seguinte, um conhecido da família veio nos visitar e, respondendo à clássica pergunta sobre se queria adotar um cachorro, disse: Só se for um dálmata. No mesmo instante, eu lhe dei a localização da casa de rações, ele foi até lá e comprou a Frida Kahlo por um preço simbólico e hoje ela é companheira do Van Gogh, também um dálmata. Quando Frida chegou em seu novo lar, não conseguia esconder sua felicidade: passou dois dias correndo de um lado a outro do quintal, incansável, como se quisesse expandir ainda mais sua liberdade e anunciá- la ao mundo. Percebo agora que esse foi o sentido da minha viagem, da doação e devolução da Rita: ela pacientemente me ensinou o caminho para que a Frida fosse resgatada.
  15. 15. O Observador - história do cachorro Babão Fomos recolhidos por uma senhora sensibilizada com nossa situação de animais abandonados. No começo éramos poucos, bem alimentados, usufruindo de bastante espaço e felizes. Muitos eram filhotes eu, porém, já cheguei velho, fui abandonado depois de adulto. Após certo tempo, já éramos muitos para dividir o quintal da casa e a solução encontrada foi a de nos deixar presos a correntes ou em minúsculos cercados. A comida também passou a ser escassa e a superpopulação nos tornou irritados, fazendo com que brigássemos muito. Depois de certo tempo, estávamos divididos em dois grupos: os valentes e os medrosos; os que batem e os que apanham. Eu entendo que a querida senhora teve a melhor das intenções, ela não queria nos ver sofrendo. Na minha modesta opinião, os culpados por essa situação são as pessoas que não cuidam de seus animais de estimação, aqueles que os abandonam por qualquer motivo ou sem motivo, os que não castram seus bichos, deixando nascer filhotes indesejados que, por sua vez, também serão abandonados. Só sei que para mim teve início um período muito difícil, pois além de tudo, eu fui espancado ainda jovem e hoje não consigo mais movimentar meus maxilares, nem para me defender, comer ou mesmo beber. Eu me babo todo, pois a ração e a água precisam escorrer pela minha garganta para serem ingeridas e por isso me chamam Babão. Assim, só me resta ficar no meu posto avançado, observando o sofrimento dos meus irmãos e as ações dos humanos. Certo dia, chegou a Vigilância Sanitária e deu prazo de uma semana para mudança de local ou seríamos todos mortos. Pela agitação das pessoas percebemos que a situação era mesmo grave. Ficamos também muito agitados, esperando pelo pior, mas num domingo, chegaram outras senhoras com ajudantes e um caminhão e fomos todos empilhados e fizemos uma longa viagem. Estamos agora em um sítio. Meus irmãos estão em baias maiores mas, mesmo assim, ainda brigam muito, porque não estão acostumados a dividir
  16. 16. o mesmo espaço. Só vejo um pouco de alegria em seus olhos e rabos quando sentem o corpo se aquecer com o sol, que aqui é bem generoso. Eu continuo preso a uma corrente e observando. Estou num ponto estratégico e tenho visão geral das baias. As moças que nos resgataram já voltaram várias vezes, para trazer ração, levar algum doente ao veterinário e, principalmente, para encaminhar os mais jovens e bonitos para adoção. As branquinhas, mestiças de dálmata, por exemplo, já foram embora. Sorte delas, além de jovens e lindas eram também mestiças e já devem ter encontrado um bom lar. Eu, puro vira-lata, deficiente e ainda por cima velho, ficarei sempre por aqui, observando as transformações sem ser muito notado: alguns me olham com piedade, e poucos, se aproximam de mim. E, já que não vejo muita chance de que as coisas se modifiquem para mim, gostaria de pelo menos poder alterar a paisagem que sou obrigado a observar: eu não quero mais ver tanto sofrimento. - Quero que permaneçam nesse local apenas alguns dos meus irmãos e que eles não precisem mais brigar por comida ou espaço. - E, principalmente, não quero mais ver meus irmãos implorando por pão ou carinho. Desse modo, com a situação melhorando para nós, eu até poderei me considerar um observador feliz.
  17. 17. Respeito Já vivenciei esse momento duas vezes. Uma amiga ligou logo cedo para contar que tinha visto um cachorro na Rodovia Raposo Tavares, imóvel, ao lado do corpo de outro cachorrinho. Ela passou apressada e não pode parar, pois tinha um compromisso importante. Na hora do almoço ela voltou ao local e o cachorro permanecia no mesmo lugar, no acostamento da estrada, embaixo de um sol escaldante de verão. Então, ela me liga desesperada: o cão ainda está lá, o que eu faço? Como não tinha local para abrigá-lo, eu pedi que ela o resgatasse que eu encontraria um cantinho pra ele. O cachorrinho foi provisoriamente para o escritório do meu marido e está lá até hoje, passados mais de 10 anos. Nunca tive coragem de doar o Mike. O processo de adoção contém diversos riscos e eu não tenho coragem de arriscar, principalmente quando se trata de animais que já sofreram muito. Há pouco mais de um mês, outra amiga passa por uma rua movimentada de Carapicuíba e vê um cachorrinho ao lado do corpo sem vida de outro que fora atropelado. Ela se desespera, mas segue em frente, pois tinha uma reunião de trabalho. Anda mais alguns quarteirões, se arrepende e faz a volta para resgatar o cachorro. Ele estava muito assustado e mancando de uma pata, provavelmente em decorrência do mesmo acidente que vitimou seu amigo. Esse cachorro foi posteriormente doado para uma família muito especial. Muitas outras vezes, ouvi casos semelhantes relatados por pessoas conhecidas. O que sempre chamou a atenção de todas elas é o longo tempo, muitas vezes dias, que os cães permanecem ao lado de seus amigos que partiram. O que leva um animal a ficar junto ao corpo de seu companheiro? Será que ele está prestando uma homenagem? Será que ele está velando, como nós humanos fazemos, o corpo do amigo que se foi? Será que ele está pedindo ajuda? Ou será que os animais permanecem com seus amigos enquanto aguardam a chegada do anjo da morte?
  18. 18. Como eles têm muito mais intuição e sensibilidade do que nós humanos, talvez seu ato vá além de tudo o que conseguiríamos apreender e eles saibam que a morte está chegando e o outro precisa de companhia para essa passagem. O que mais me surpreende nessa atitude é que ela parece ser tão racional, incapaz de ser adotada por um animal irracional. O que também impressiona nesses casos é o respeito demonstrado por eles ao companheiro que partiu. O cuidado e carinho são mais fortes do que o perigo que o local representa ou o incômodo de permanecer horas sob o sol e próximo ao tráfego de veículos numa rodovia movimentada. Os animais esquecem o medo, a fome e o cansaço e permanecem imóveis como se estivessem aguardando algo acontecer. Numa época em que raros seres humanos demonstram respeito por qualquer coisa, seja ela viva ou morta, humana ou animal, é de se admirar que os animais venham nos dar esse exemplo de amor, dignidade e respeito. Num mundo carente de gestos nobres, essa atitude emociona e nos faz refletir.
  19. 19. Responsabilidade Arlindo era um pedreiro que trabalhava e morava em uma obra perto de casa. Todos os dias, eu o via brincando com seu cãozinho amarelo, um vira- lata simpático e bem cuidado. Companheiros inseparáveis, ambos pareciam estar de bem com a vida. Um dia, notei uma cachorrinha nova com a dupla e, curiosa, fui saber da novidade. - Ela também foi abandonada e está se aproximando da obra à procura de alimento e companhia, disse Arlindo. Bem que eu ficaria com ela, o problema é que é fêmea e logo ficará prenha e não dá para cuidar de outros cachorrinhos. Levei a cachorrinha até o veterinário para ser castrada e uma semana depois, ela estava de volta, feliz e curtindo seu novo lar. Fiquei satisfeita também, pois percebi que Arlindo gostava genuinamente dos animais. Ele não estava preocupado, como a maioria das pessoas, com a raça de seus cães. Ele os amava do mesmo modo como era amado. Os cães também não lhe perguntaram sobre sua raça, seu poder aquisitivo ou sua posição social quando o viram pela primeira vez e gostaram dele. E ele não precisava exibir seus cães como quem exibe um carro novo. Todo final de semana, Arlindo ia para o bar tomar uma cachaça, encontrar amigos, driblar a solidão. Naquele sábado não foi diferente, exceto pelo desfecho da noitada: muita bebida, confusão, discussões, início de briga, apartes, mais confusão. Arlindo voltou descontrolado para a obra. Pegou um facão e, decidido, o colocou entre os poucos pertences. Arrumou sua trouxa e, antes de partir para sua vingança, acordou o ajudante de pedreiro e lhe passou todas as instruções: - Cuide dos meus bichinhos. Se eles adoecerem ou precisarem de comida, entre em contato com a senhora da casa da esquina. Não sei se volto. Por favor, cuide bem deles. E Arlindo se foi, deixando, como narrou nosso poeta Manuel Bandeira: “lavrado o campo, a casa limpa, a mesa posta, com cada coisa em seu lugar”. E partiu para cumprir seu destino.
  20. 20. História da Sarita Sarita foi encontrada já sem forças, ao lado de sua ninhada. Só dois dos filhotes sobreviveram. Ela é uma mestiça de Pastor Alemão bastante velha, tem displasia e muita dificuldade para se locomover. Da sarna, ela e os filhos já estão curados, restam só algumas falhas no pelo. Da fome, também estão todos refeitos, os filhotes já estão até bem gordinhos. A dor do abandono, porém, deixou marcas profundas que são visíveis em seus olhos e em todas suas atitudes. Os filhos de Sarita serão doados já na próxima semana. Para Sarita resta apenas: dividir um canil com outros trezentos animais, onde ela terá poucas chances de sobrevivência, Ou Encontrar abrigo em um lar que possua: um quintal que pode até ser pequeno, apenas um pouco de ração e muito, muito amor para que ela possa ser feliz no pouco tempo que lhe resta. Sarita pede desesperadamente sua ajuda. Uma pessoa maravilhosa respondeu ao apelo de Sarita e a adotou. Fomos levá-la ao Embu, num final de semana e confesso, fiquei muito apreensiva. A casa tem um espaço enorme, uma chácara com muitos animais: outros cães, gatos, porcos, galinhas, patos, marrecos, papagaio, etc. Como se comportaria uma cadela já idosa, com hábitos adquiridos em um local desse tipo? Acompanhei diariamente a evolução do comportamento de Sarita e, ainda preocupada, decidi comprar tela para delimitar um espaço onde ela pudesse ter liberdade e, ao mesmo tempo, segurança. Voltei ao local duas semanas depois e quase não acreditei: Sarita estava rejuvenescida, o pelo brilhante, a coluna quase reta, apesar da displasia severa e um brilho no olhar que me emocionou. Como é possível a um animal com idade avançada se adaptar tão rapidamente a um ambiente novo e tão carregado de informações? Ela não só estava solta, como ajudava sua guardiã a cuidar dos outros animais: cercava os pintinhos para que eles entrassem no seu espaço
  21. 21. depois de horas ciscando, latia com autoridade para os porcos, vigiava a entrada da casa e parecia não ter a menor intenção de sair pelo portão totalmente aberto. Sarita encontrara uma ocupação, uma utilidade na velhice e estava desempenhando seu novo papel com uma vitalidade invejável. Fiquei emocionada e esperançosa. Com certeza, eu estava num local abençoado, tendo o privilégio de observar a natureza se desenhando com todo seu vigor. Não pude deixar de refletir: como uma pessoa com poucos recursos consegue administrar um mundo tão harmonioso? Como arruma tempo e energia para admitir outros seres que poderiam quebrar todo aquele equilíbrio? Essa é uma lição para nossas vidas. Somente seres iluminados conseguem abraçar as grandes causas com naturalidade e imprimir essa mesma naturalidade à resolução dos seus problemas. Entendi também que não é preciso delimitar um espaço e sim, dar uma função: Sarita estava feliz, pois sua vida tinha adquirido significado. Mais uma vez eu me senti privilegiada por conhecer um ser humano e um animal totalmente integrados à natureza e à obra divina. Estava agradecida por poder usufruir esses momentos mágicos, agradecida pela oportunidade de ter conhecido Sarita e sua guardiã. Elas são a resposta a um outro mundo, fundado na violência e no desamor.
  22. 22. Solidariedade e os 36 Justos Conheci Dorvina há vários anos. Foi ela que adotou Sarita, a mestiça de Pastor que foi covardemente abandonada junto com seus bebês. Desde nosso primeiro contato por telefone, eu já sabia que estava conhecendo alguém muito especial, uma boa alma, amante da natureza e uma pessoa dedicada e incansável, que acolheu uma cachorrinha velha e com displasia com muito amor e dedicação. Quando levei Sarita até sua casa, fiquei espantada com a fauna que habitava o lugar: dificilmente você vê convivendo cães, gatos, porcos, gansos, patos, marrecos, papagaios e sei lá o que mais. Eram tantas espécies e todas convivendo tão harmoniosamente e em total liberdade que o único pensamento que me ocorreu foi: assim devia ser o paraíso bíblico, o Gan Éden. O telefonema de Dorvina para me contar a partida da minha afilhada uns quatro anos depois, foi inesperado e muito triste. Ela disse que Sarita deitou em seu cobertor, como fazia todas as noites e, pela manhã, já estava morta. Confesso que não me surpreendi, eu sabia que ela só poderia ter uma morte assim, suave e indolor, pois já sofrera o suficiente. E como ela era um ser abençoado, Deus só poderia levá-la em seus braços enquanto dormia. Depois que Sarita faleceu, numa noite fria de inverno, fiquei muito tempo sem ter notícias da Dorvina. Ela me ligou novamente, quase um ano depois para contar que seu Rottweiler, amigo querido da Sarita estava doente. Algumas semanas depois, me contou que ele também havia partido. Qual não foi minha surpresa ao ouvir sua voz uma semana depois e ela estava eufórica: “- Eu precisava te contar, ainda não acredito no que aconteceu. Estava indo trabalhar, pois depois que me aposentei arrumei um trabalho em um consultório perto de casa. Atravesso o Rodoanel e ando mais um pouquinho. Estava apressada quando vejo um cachorro deitado ao lado da pista, bem debilitado, ele devia estar jogado lá há algum tempo. Ele me olhou implorando ajuda e eu respondi: agora estou com muita pressa mas, na minha volta, vou te socorrer e levar pra casa. Trabalhei aflita e pedi para sair mais cedo, não aguentei esperar, ele não
  23. 23. saia da minha cabeça. Corri apressada e lá estava ele me aguardando. Tentei levantá-lo, ele é imenso, mas ele não conseguia se erguer e muito menos caminhar. Eu só rezava, pedia ajuda a Deus, e pensava: como vou conseguir atravessar a pista e levá-lo para casa? Você sabe, no Rodoanel há movimento contínuo e você precisa esperar aquela brecha de trânsito e correr. Eu já estava desistindo quando um caminhão parou no acostamento: - é seu cachorro, senhora, precisa de ajuda? Dois homens com sotaque do sul pararam o caminhão e vieram nos socorrer. Um deles, amparou o cachorro enquanto o outro foi buscar uma marmita. Ele pegou toda sua comida e ofereceu ao cachorro que comeu de uma única bocada. Depois pegaram a água de uma garrafa e foram colocando na vasilha, acho que entornaram uns dois litros de água. Eu juro que comecei a chorar, eu não acreditava, nunca me emocionei tanto, nem no ano passado quando me aposentei do Hospital e fui homenageada. O cachorro começou a se animar e conseguimos colocá-lo de pé. Ele estava mancando, mas não tinha nada quebrado, tinha só fraqueza e um pouco de dor. A travessia pareceu longa, mas ele e eu nos sentimos muito amparados: os homens iam segurando o trânsito e eu ia empurrando o menino até que conseguimos atravessar. Eles nos colocaram do outro lado da pista, se despediram e então partiram. Levei o cão pra casa e cuidei muito bem dele. Ele já está ótimo, feliz e muito, muito agradecido. Confesso que poucas vezes vi um olhar como esse, de mais puro agradecimento e amor. Ele deve ser um mestiço de Setter ou Golden, não importa, e ele está ótimo! Telefonei só para te contar essa experiência e dizer que aqueles homens ficaram pouco tempo conosco e fizeram tanto, que vai ser difícil esquecê- los. Eles deixaram sua comida, seu cuidado, seu carinho e partiram felizes sabendo que salvaram uma vida. Neste mundinho de Deus tem muita gente boa, né?” Quando eu desliguei o telefone, comecei a rememorar todos os detalhes da história que Dorvina havia me contado e fiquei maravilhada. Mais uma vez, ela me provocava aquele sentimento de descoberta e aprendizado que eu já havia experimentado antes, quando da doação da Sarita. Lembrei-me, então, da antiga história judaica dos Lamed Vav Tzadikim, dos 36 Justos. Ela conta que existem trinta e seis homens no mundo cuja
  24. 24. missão é justificar a existência humana perante Deus. E é por isso que ainda estamos aqui, vivos e apreciando esse lindo espetáculo.
  25. 25. A Casa dos cachorros Como tudo na vida, até as histórias tem dois lados. Quando escrevi a crônica intitulada A casa dos gatos, meu filho veio com a seguinte colocação: - Mãe, seu quarto fica do lado do gatil, portanto é calmo e silencioso, mas do outro lado, onde fica o meu quarto, a situação é totalmente diferente: eu moro na Casa dos Cachorros. É verdade, ele tem razão. Minha casa é dividida em duas alas: de um lado os gatos e de outro os cães. As pessoas ficam no meio. Como os gatos são bem mais tranquilos, nessa parte da casa temos bastante silêncio e você consegue ouvir o canto dos pássaros e o guincho dos saguis. A natureza surge plena e derrama todos os seus sons. Já do outro lado, dependendo do momento, o barulho é pesado. Quem tem muitos cachorros sabe do que estou falando: basta um animal passando na rua ou alguém conversando mais alto para que eles comecem a latir sem trégua. Eles ouvem qualquer barulho diferente e reagem à altura. Para os cães, qualquer movimento brusco ou barulho significa invasão e eles são dirigidos desde sempre para proteger seu território. E então latem, latem e latem, pois essa é a sua linguagem. Na verdade, o que ocorre é uma sequência de latidos: os cães dos vizinhos detectam algo anormal e dão a partida. Os cães da casa seguinte dão continuidade ao aviso e os meus, sem saber ao certo o porquê, reagem alto e prontamente. Ou seja, todos os cães do quarteirão latem ao mesmo tempo e o barulho aumenta num crescendo assustador e explode em nossos ouvidos. Nessa hora, não há nada que os faça parar, nenhum grito ou ameaça. E a coisa fica ainda pior quando pessoas desavisadas resolvem soltar fogos de artifício. Aí a situação fica incontrolável mesmo, um verdadeiro bombardeio. A reação dos cães é tão insana quanto aquela que leva um ser humano adulto a soltar os perigosos artefatos. É por isso que todas as pessoas que convivem com animais odeiam fogos de artifício. Fora este pequeno detalhe sonoro, algo desagradável, o lado dos cães é bem animado. Eles se alegram de verdade quando você chega em casa e estão sempre
  26. 26. atentos aos seus menores gestos, pois é você que sempre comanda a situação. Ficam felizes com movimentação, visitas, adoram novidades e estão sempre dispostos a te seguir por todos os lados. A vida para eles é uma festa, desde que em sua companhia, claro. Com os cães não tem baixo astral: a hora de passear, a hora de comer, a hora de brincar, tudo é celebração. Então, dependendo do seu estado de espírito, você pode escolher e visitar um ou outro lado da minha casa. Se você estiver meio mal, deprimido, o lado dos cães é o mais recomendado. Lá você é valorizado e visto como uma pessoa especial. Na casa dos cães você é o mais bonito, o mais inteligente e, sem dúvida, o mais amado. Eles se esforçam ao máximo para te deixar feliz. Já o lado dos gatos é bem mais sossegado, não tem correria e nem festa. É um lado contemplativo, próprio para relaxamento. Tudo flui com lentidão e até o tempo parece passar mais devagar, no ritmo próprio dos gatos. Esta paz não significa que eles não se alegrem com sua companhia, é que os gatos são bem mais discretos. Eles demonstram sua alegria com um ronronar ou então passando por entre suas pernas, tudo muito sutil e delicado. No entanto, se você quiser meditar ou ler um bom livro, deve ficar na companhia dos gatos. Só que lá não vão te achar o máximo, vão simplesmente aceitá-lo como você é. Lá você tem que ficar relaxado como eles para conseguir se sentir bem. As pessoas mais agitadas precisam desacelerar aos poucos e entrar em outra sintonia. Para gostar de gatos, você precisa, primeiramente, estar satisfeito consigo mesmo e esse é o motivo pelo qual algumas pessoas amam e outras odeiam os gatos. Voltando aos cães, eles são fascinantes por sua pureza, ausência de maldade e por várias imperfeições que muito os aproximam dos humanos. Já os gatos fascinam por sua delicadeza, elegância e requinte, o que muito os afasta dos seres humanos. Assim, o ideal é você conviver simultaneamente com estas duas realidades tão distintas e complementares. Porém, pode ter certeza que escolhendo um ou outro lado da minha casa, você estará sempre fazendo uma espécie de terapia. Por sinal, uma ótima terapia, eu recomendo.
  27. 27. O patinho DiFeReNTe Eu sou o Pingo e nunca percebi nada de errado comigo. Sou tão feliz! Acho que já passei um pouco de fome mas, pra dizer a verdade, nem me lembro mais. Quando cheguei nessa casa, parei bem na porta, logo me encheram de comida e me deram uma cama bem quentinha. Puxa, que gostoso ... lembro que adorei tudo aquilo e nunca mais deixei de ser feliz. Adoro meus amigos, minhas folias e meus ossinhos. Adoro viver! Só acho estranho que meus amigos mudam sempre. Nesses meses que estou aqui já tive uns 20 amigos, mais ou menos. Eles chegam meio tristinhos, logo ficam alegres e, quando começamos a brincar e a curtir, eles vão embora. Fico triste por uns dias, mas logo aparecem outros e começamos a fazer amizade. Só não entendo uma coisa: por que será que eles logo partem quando a coisa começa a melhorar? Comecei a ficar desconfiado e resolvi observar: as pessoas ficam tirando fotos novas minhas toda semana e dizem: essa ficou melhor, quem sabe dessa vez ... Será que estão insinuando que minhas fotos não ficam boas? Por que eles querem que elas melhorem? Por que minhas fotos não ficam boas? Nunca percebi nada de errado comigo. Aliás, tenho certeza que não tem nada de errado comigo. Eu sou saudável, alegre e dócil, amoroso e obediente. Um pouco mimado e bagunceiro, mas ninguém é perfeito. Já ouvi minha madrinha dizendo: ele é exótico, tem uma beleza não convencional e só as pessoas não convencionais irão apreciá-lo. Então ela fica brava e diz: A maioria das pessoas quer um lhasapoodlemaltês igualzinho ao da vizinha e, de preferência, da mesma cor! É para irem passear com as crianças na pracinha e todos vestidos com roupas idênticas. Ela fica muito brava! O que será que ela quer dizer quando ela diz: diferente? Acho que estou começando a entender: minha madrinha quer que a pessoa certa olhe para mim, veja um cisne e me leve para morar em seu
  28. 28. castelo.
  29. 29. Nostalgia Durante toda a infância tive contato com animais, na casa de meus pais, meus avós e todos os parentes e amigos de quem me lembro. Os animais sempre estiveram relacionados a experiências agradáveis, brincadeiras animadas e eram fonte de prazer e alegria. Eles também eram felizes e tinham uma vida longa e saudável. Animais nunca me despertaram compaixão ou essa urgência em ajudá-los e lutar por sua sobrevivência, como acontece hoje. É verdade que há alguns anos você não via, principalmente no interior de São Paulo, animais vagando pelas ruas em péssimo estado. Você também não encontrava pessoas vivendo em condição de extrema pobreza e os sem-teto eram raros e motivo de assombro. Os tempos mudaram! Houve uma disseminação da pobreza e do desemprego e, com eles, a banalização da miséria: hoje em dia é tão comum vermos crianças em semáforos, famílias “vivendo” embaixo de pontes, animais famintos e doentes que, a maioria das pessoas já não vê, ou não se importa, ou ainda, nem se comove mais. Todos eles fazem parte de uma paisagem, uma triste paisagem, à qual as pessoas se habituaram. Os tempos mudaram! Estive recentemente em uma reunião com vários protetores, um encontro muito agradável com as pessoas relatando como se tornaram amantes dos animais e descrevendo seu cotidiano pesado e, ao mesmo tempo, gratificante. Todos eles falavam de sua relação com animais desde sempre e como esta preocupação pelo bem-estar deles vem crescendo à medida que também cresce a pobreza e o descaso do poder público em nosso país. Ambos os fatos estão profundamente relacionados: como o Estado é o responsável pelos animais, “Todos os animais existentes no país são tutelados pelo Estado”, e este não cumpre com seu dever, as pessoas que se importam com a vida são obrigadas a despender seu tempo e seu dinheiro para fazer o que foi negligenciado pelo poder público. Não existe uma política de castração dos animais de rua para evitar o excesso de população, assim como não existem campanhas educativas de incentivo à posse responsável ou que estimulem as pessoas a não
  30. 30. abandonar seus animais de estimação. Claro, não existe uma preocupação política na medida em que os animais não votam e os políticos acham que essa matéria não tem retorno eleitoral. O resultado é a proliferação desordenada de animais abandonados que ficam aguardando a morte nas ruas, à mercê de atropelamentos, doenças e toda sorte de sofrimentos. Os tempos mudaram para pior! Todo este descaso com a vida e ausência de valores que impera nos nossos dias me fez lembrar de uma música de Taiguara, compositor brasileiro que marcou os anos 70 por sua sensibilidade e sua percepção do caos que se aproximava. Uma de suas composições relata o desânimo com que ele encarava a sociedade brasileira da época. Suas palavras mostraram- se proféticas: “Eu desisto. Não existe essa manhã que eu perseguia Um lugar que me dê trégua ou me sorria Uma gente que não viva só pra si Só encontro Gente amarga mergulhada no passado Procurando repartir seu mundo errado Nessa vida sem amor que eu aprendi.” Infelizmente, as novas gerações nunca ouviram falar de Taiguara e tantos outros que ficaram esquecidos pelo caminho. Assim como não estão a par da urgência de se preservar a vida para que haja uma saída para nosso planeta. Pobre do país que não respeita suas florestas, seus animais, suas crianças e seus artistas.
  31. 31. Sem-teto, mas com cachorro Com esse dinheiro eu posso até dar entrada num barraco lá na Vila. Ou então comprar aquele tão sonhado som, uns presentinhos para a Tina. Preciso planejar ... É muito dinheiro de uma só vez. Quem sabe voltar para casa, reencontrar a família, sair desta cidade sem alma. Posso comprar a passagem de volta e dizer a eles que cansei de tudo isso aqui, dessa luta e que fui enganado. No entanto, como esquecer o olhar de Branquinha, da Amarelinha e do Polegar? Como esquecer os gritos da Tina, quando lhe arrancaram seu cachorro Pimpão? Tantos anos de convivência, tanta cumplicidade. Eu só sei que sinto muita falta deles. Os homens não tinham o direito de levá-los. Eles eram bem cuidados, amados. Muito mais queridos do que os bichos de muita gente por aí, gente rica que não se importa com seus amigos, que são tratados de qualquer jeito. Gente que nunca olhou nos olhos de seu bicho e viu muito amor. Só por que nós os sem-teto não temos um espaço delimitado? Será que temos que nos comportar como os animais e marcar um território? Se eu tivesse meu lugar, eles não teriam levado meu Polegar à força, indiferentes aos meus gritos, à minha dor. Incrível, não é? Humanos precisam de muros! Ainda bem que o professor foi testemunha de toda a violência. Ele viu nosso desespero, sentiu nossa impotência e resolveu ajudar. E ele tem o dinheiro que transformará tudo: posso trazer os cães de volta ou dar entrada no barraco, comprar um presente para a Tina, ou a passagem de volta para casa ... Eu tenho certeza que nunca conseguiria ser feliz, sabendo que abandonei meus amigos. Como eu posso ir embora, sabendo que eles não terão nenhuma chance? Três dias, eles disseram: - Você só tem três dias para conseguir o dinheiro e voltar para recuperar seus animais. É muito dinheiro para se conseguir em três dias. Se o professor não resolvesse nos ajudar, eu deveria fazer o que? Roubar? É nessas horas que a gente entende as pessoas que perdem a cabeça. Mas, não quero pensar sobre isso agora, nada de ruim aconteceu e amanhã, com a ajuda de Deus e do professor, vou rever meus amigos do coração.
  32. 32. “O sem-teto José Augusto dos Santos foi ontem ao Centro de Zoonoses (CCZ) buscar Amarelinha, Branquinha e Polegar, os amigos que lhe foram retirados à força na quarta-feira pelo mesmo CCZ. De quebra, pegou Pimpão, da amiga Tina. O quarteto foi recuperado depois que um professor pagou a taxa exigida.” Jornal da Tarde de 21/07/2002
  33. 33. Ricardo e Garoa Para Beatriz Você já viu protetor elogiar criador de animais? Impossível! São duas espécies incompatíveis. Citando apenas o lado econômico da questão: o primeiro gasta seu dinheiro tentando ajudar animais, enquanto o segundo, ganha todo seu dinheiro por intermédio deles. Mas, é claro que não dá para generalizar, pois encontramos pessoas sérias e picaretas em todas as profissões. Mesmo assim, é muito comum protetores receberem denúncia sobre “criadores de fundo de quintal”, pessoas inescrupulosas que usam os animais visando apenas o lucro fácil. Quantas vezes, ficamos sabendo de cadelas que passam a vida parindo, uma gestação após outra até serem abandonadas por velhice ou por estarem muito debilitadas? Quantos machos ficam eternamente acorrentados ou presos em gaiolas minúsculas com a única finalidade de servirem de matriz? Denúncias sobre filhotes famintos e doentes, expostos à sujeira e muito valorizados na hora da venda, também são muito comuns. E por aí vai ... Porém, este não era o caso do Ricardo. Jovem ainda, ele foi para o interior de São Paulo viver em uma chácara e criar cachorros. No entanto, ele não estava interessado em um cachorro qualquer, e sim em um exemplar único de Fila Brasileiro. Seus cães viviam livres em amplos espaços, local impecavelmente limpo e florido. Tinham direito à boa alimentação, acompanhamento veterinário e, para as fêmeas, intervalos de gestação respeitados para não colocar em risco sua saúde. A venda dos filhotes era uma dificuldade à parte. Os donos eram escolhidos com cautela, submetidos a entrevistas rigorosas e, muitos deles, saiam de lá sem seus desejados filhotes. - Não posso entregá-los a qualquer um, dizia Ricardo. É claro que este comportamento atípico gerou muitos problemas. Ricardo estava sempre passando por dificuldades financeiras, sempre atrapalhado para pagar suas contas em dia. Tinha uma vida muito simples, sem comodidade alguma, mas para seus cães não deixava faltar nada. A austeridade era tamanha que ele começou a deixar de lado a própria saúde e, aos 50 anos já tinha graves problemas de saúde. Mas, seus
  34. 34. cachorros não, esses esbanjavam alegria e disposição e eram valorizados e disputados por pretendentes de várias partes do Brasil. A primeira vez que Ricardo ficou doente e precisou de internação foi um pesadelo. Os médicos não sabiam como segurá-lo no Hospital para realizar os exames necessários. Ele tinha urgência de voltar para casa, pois ninguém iria cuidar dos cães como ele o fazia, é claro! Ricardo precisou assinar um Termo de Responsabilidade para poder “fugir” do Hospital. E, assim, ele foi levando a vida até que uma noite passou mal e não conseguiu pedir ajuda. Seu corpo só foi encontrado na manhã do dia seguinte e a seu lado, a cadela Garoa, que por oito anos foi sua companheira fiel e inseparável. Eles tinham uma amizade tão profunda que foi muito difícil tirá-la do lado do amigo, ela estava irredutível e se recusava a abandoná-lo. Garoa estava transtornada e a dor refletida em seus olhos era algo palpável, parecia que um véu encobria e imobilizava suas feições. Ela era a personificação da dor. Quando finalmente conseguiram levá-la, entrou em um estado de apatia profundo. Garoa se recusou a comer e, apesar de todos os esforços médicos, também partiu, exatos quinze dias da morte de Ricardo.
  35. 35. Desamparo Gosto de escrever histórias leves como a do Tiquinho Huguinho, o Incompreendido ou a história do Frank, meus gatinhos. Eu me divirto escrevendo, as pessoas ficam felizes quando leem e uma sensação agradável perdura por um bom tempo. Eu pretendia escrever sobre gatos filhotes e sua pureza, pois fiquei encantada observando Lupi, um gatinho que tenho para doar e que ficou tão feliz ao encontrar teto e comida, após sair da favela onde estava abandonado, que exala alegria. Tudo é bom para ele: comer, brincar, ser afagado, tudo é um prazer intenso. Explorar o mundo é algo mágico e agradável, comer e dormir são puro deleite, brincar então, é o clímax de um dia festivo. Pensando sobre as descobertas do Lupi, tentei tirar essa imagem da minha cabeça, mas ela sempre volta. Para mim e para as pessoas que amam os animais, o protótipo do desamparo é representado pela figura de um cachorro ou gato na rua, que não sabe onde buscar ajuda. Não tem nada mais frágil que um animal abandonado que só pode exprimir seu desespero e sua dor através do olhar. Cães e gatos foram domesticados pelos seres humanos e aprenderam a depender de nós para suprir todas suas necessidades. Quando eles se perdem ou são jogados fora, ficam totalmente desnorteados e o estresse é tanto, que muitos deles adoecem e morrem rapidamente. Outros, mais fortes, conseguem reagir e partem à procura de comida e abrigo. Mas, mesmo para estes é uma questão de tempo adoecer e morrer: as brigas e privações terminam por minar suas forças e eles acabam se entregando também. Quando vi aquela cadelinha tão pequena e frágil escondida no meio do mato, onde acabara de parir, meu coração congelou. Aliás, tudo em volta congelou, pois aquele foi o dia mais frio do ano e mais, o dia mais frio dos últimos sete anos. Estes bebês não poderiam ter escolhido outra data para nascer? Eu não tinha como tirá-la de lá com seus filhotes, pois ela estava agressiva, tentando proteger sua ninhada. Voltei para casa chorando e rezando para que o tempo melhorasse, para
  36. 36. que não chovesse e eu tivesse uma inspiração para socorrê-los. Por que será que os animais nos inspiram esses sentimentos tão intensos? Será porque sua alegria e tristeza são tão puras que nos contagiam? Ou porque seu olhar é tão sincero que nos desarma? Será porque seus sentimentos são tão verdadeiros que nós confiamos plenamente neles? Ou sua dor é tão profunda que nos arrasa? Recordo que cachorro em hebraico é Kélev e um comentarista do Talmude revela que o nome Kélev deriva de Shekulo Lev que quer dizer: um ser que é puro coração. Deve ser essa a explicação. Eu queria muito ter escrito uma história alegre. Aliás, eu queria viver em um mundo onde as pessoas pudessem se sentir como gatos filhotes com teto e com comida.
  37. 37. Mistérios Os mistérios existem para nos intrigar. Como protetora de animais me pergunto, por que quase sempre é preciso estar em situação de risco para se ter a chance de sobreviver? Recordando os animais que resgatei e que já foram doados, a maioria deles chegou até mim quando sua vida estava em perigo: ou estavam atravessando uma rua movimentada, ou foram atropelados, ou se encontravam muito doentes e por isso necessitavam de ajuda imediata. Por outro lado, eu cruzei com vários outros e nada fiz por eles, por estarem fortes, em locais mais seguros ou por serem bonitos e terem boa chance de serem resgatados. Estes não foram socorridos e ficou a dúvida: será que eles tiveram a sorte que eu imaginei que teriam? Nós protetores, depois de algum tempo de experiência sempre escolhemos os animais que estão em pior estado para resgatar. Para isso precisamos selecionar e essa tarefa é muito delicada, pois você tem pouco tempo para refletir e precisa decidir rapidamente entre ajudar ou não. Essa é a nossa “escolha de Sofia”. Nesse processo, várias coisas estarão em jogo. Muitas vezes, você não tem mais lugar em casa para acolher nenhum animal e tudo irá depender também de seu tempo disponível e, principalmente, de sua situação financeira no momento. Quantas vezes acontece de você saber que não tem condições de fazer aquele resgate e mesmo assim insiste em acolher o animal, sem entender o motivo que a leva a agir dessa maneira. Creio que, quando isso ocorre, não foi você que escolheu o animal, ele foi escolhido para você. Por um lado, quando conseguimos que os animais que salvamos fiquem bem, saudáveis e sejam adotados, temos muito a comemorar. Sabe aquele cachorro todo sarnento para quem ninguém mais olhava e que já estava sendo até enxotado por causa de seu aspecto? Quando ele se torna um príncipe e tem fila para adotá-lo e você só tem o trabalho de escolher cuidadosamente para que lar encaminhá-lo, é uma situação muito gratificante. Um ser que não tinha mais nenhum interesse aos olhos das pessoas e que começa a ser valorizado e disputado, isto é motivo de orgulho e satisfação. Por outro lado, existem aqueles que já estavam enfraquecidos por terem
  38. 38. permanecido muito tempo nas ruas e que, quando são resgatados, adoecem e não resistem. Então, você fica se perguntando: por que eu precisei cruzar com ele e me esforçar para salvá-lo, se era para ele morrer? Por que empenhamos nossa energia e temos tantas despesas, se no final ele iria morrer mesmo? O fato de ter sido escolhido não deveria fazer dele um sobrevivente? Algumas pessoas irão dizer que desse modo o animal teve uma morte digna, não ficou definhando, sozinho e sem cuidados na rua. Porém, todo seu empenho foi em vão. Todo tempo e toda sua energia foram gastos com que propósito? E tem também o lado psicológico, pois você fica arrasada, colocando em dúvida sua luta e, depois dessa fatalidade, você precisa de muito tempo para se recompor e reunir forças para continuar. Isso faz parte dos mistérios que em vão tento desvendar. Sei que é muita pretensão querer entender todos os motivos e julgar o que é significativo ou não. Mas, no fundo, toda escolha que você faz não deixa de ser intrigante. A única certeza que tenho é que nada seria muito diferente do que é, pois nós fomos criados para amar e cuidar.
  39. 39. Ser feliz dá trabalho Tempos atrás, doei uma cachorrinha que estava há dois anos aguardando um lar. Ela é uma vira-lata muito dócil, amorosa e, como não podia deixar de ser, se apegou ao pouco que tinha lá no abrigo: visitas diárias e a companhia de uma dezena de outros cães, todos abandonados como ela. Fiquei muito feliz com sua adoção e achei que sua hora de ser feliz finalmente chegara. Mas, ela foi devolvida semanas depois e disseram que não se adaptou, que estava apática e não estava se alimentando direito. Claro, ela precisava de um tempo para entender que tinha um novo lar e também ter a certeza que estava em segurança. Esta sensação de “estar abandonado” é muito comum em animais que viveram nas ruas e ficaram muito tempo em abrigos. Sempre digo para os adotantes: imagine que te sequestram e soltam em outro local e com pessoas que você não conhece. Você precisa de um tempo para se adaptar, certo? Mas, a cachorrinha não teve esse tempo. Em vez de ampará-la, foi mais fácil devolvê-la. Eu não insisti, como sempre faço, pois entendi que o adotante não estava preparado para conviver com um anjo. O problema é que as pessoas, a maioria delas, não quer ter nenhum trabalho. Diante da menor dificuldade elas desistem e, por isso, deixam de sentir os maiores prazeres da vida. Este moço que devolveu a cachorrinha se privou de seu olhar de gratidão, de sua presença amorosa e seu amor incondicional. Ele não chegou a sentir sua recepção calorosa ao chegar em casa depois de um dia difícil. Ele não teve sua cumplicidade nos momentos de tristeza e de alegria. Ele não sentiu nada disto, não deu tempo. Muitas vezes me dizem: - Você faz um lindo trabalho e deve ter muita satisfação com ele, deve se sentir uma pessoa realizada. Sim, algumas vezes eu tenho a sensação do dever cumprido e sou grata por ter as condições necessárias para realizar minha missão. No entanto, tenho muito trabalho também. Como dizia meu pai, citando um ditado popular: “Você sabe das pingas
  40. 40. que eu bebo, mas não sabe dos tombos que eu levo”. É exatamente isso: a ajuda aos animais é muito gratificante pois você os salva, cuida deles, encaminha para um bom lar e a história, muitas vezes, tem um final feliz. Há também um outro lado bastante pesado: os dias de luto por aqueles que foram resgatados, mas não conseguiram sobreviver; as horas de intenso trabalho para cuidar de filhotes doentes; as dificuldades para amparar animais idosos que não conseguem mais se virar sozinhos; o desgaste diário por cuidar de dezenas de cães carentes de afeto e marcados para sempre pelo abandono e daqueles que foram descartados por serem especiais, cegos ou paraplégicos; a necessidade de sacrificar seu lazer para comprar ração e poder cuidar dignamente dos animais; e a dor de sentir um gatinho muito amado ir se apagando em seus braços, depois de muito sofrimento. A lista é longa. Para se obter a dádiva de salvar uma vida é preciso muito esforço. Ser feliz é trabalhoso, cansativo e por vezes muito triste. Muitos protetores desistem, alguns piram ... eu escrevo.
  41. 41. Diga não aos rodeios Rodeio é um espetáculo que reúne dois antagonistas em uma arena: de um lado o animal, que aparenta ser selvagem e indomável e de outro o mocinho, que transmite determinação e coragem. O propósito do show é subjugar o animal e então o homem irá provar toda sua força, superioridade e seu domínio sobre a natureza. No entanto, neste embate entre a selvageria e a bravura, entre o bem e o mal, você espectador está sendo ludibriado. Saiba que nada disto é verdadeiro, pois o modo como os animais se comportam na arena é resultado de sua exposição à tortura e à dor. Primeiramente o animal entra em cena e fica apavorado pelo barulho da plateia e pela iluminação excessiva do local, artifício usado para que ele se sinta desnorteado. Logo em seguida, ele fica desesperado, pois é vítima de instrumentos de tortura e a dor que sente faz com que ele pule como se fosse um animal selvagem, quando, na verdade, está inutilmente tentando se livrar dos apetrechos que o martirizam. Estudos sérios indicam as inúmeras irregularidades encontradas nos rodeios. Foram listados os seguintes instrumentos de tortura: sedem, apetrecho utilizado para comprimir a virilha e os genitais do animal; choques e espancamentos; esporas; laçada ao bezerro; alfinetes, etc.. Tudo isso é irregular e ilegal, além de ferir a ética e a civilidade. Todos nós sabemos que maus-tratos aos animais é crime com punição prevista por lei mas, como não existe fiscalização na maioria dos rodeios, tudo se torna permitido. Como pode ser chamado de diversão um evento onde os animais são torturados e humilhados? Como pode ser chamado de espetáculo um show onde os super-homens que dominam os animais são covardes torturadores? E no final da encenação ocorre unicamente a celebração da crueldade humana. A comparação com o Coliseu criado pelo Imperador Vespasiano, onde homens corajosos lutavam com animais selvagens não é inapropriada. A diferença é que na época romana eles não usavam truques.
  42. 42. A realidade dos abrigos de animais Toda vez que me perguntam se conheço algum abrigo que receba animais de estimação, eu recordo a necessidade de escrever sobre o assunto. Essa semana os pedidos foram tantos, que vou tentar descrever a realidade dos abrigos, que é bem diferente da imagem que muitas pessoas fazem deles. O cão ou gato, quando vai para um abrigo, não está saindo de férias ou indo passar uma temporada em um SPA ou hotel de cinco estrelas. Infelizmente, ele vai enfrentar uma dura realidade. Alguns humanos resolvem, por vários motivos, se desfazer do animal que viveu muitos anos em sua companhia, outros então devolvem o animal adotado depois de meses de convívio com uma família e todos acham que ele ficará feliz indo para um abrigo. Essas pessoas precisam saber que o estresse enfrentado pelo animal que sai de um local onde ele se sente seguro e amado é tão grande que, nas primeiras semanas no abrigo ele adoece e demora muito tempo para se recompor e participar da vida coletiva. No período de adaptação, ele fica apático, deprimido e muitas vezes para de se alimentar. Os mais sensíveis ou velhos adoecem gravemente e alguns acabam morrendo. Só quem já visitou um abrigo de animais sabe do que eu estou falando. Existem vários tipos de abrigo: alguns são pequenos, com poucos animais, o tipo de local que a maioria dos protetores acaba construindo e que fica muitas vezes em sua própria casa. Nesses, os animais têm alimento, proteção, mas nem sempre têm atenção e carinho, como gostaríamos de lhes proporcionar. Tem também aqueles abrigos maiores, que pertencem à sociedades protetoras, onde os animais muitas vezes sofrem por falta de alimentos e cuidados. Neles há superlotação e são rotineiras mortes causadas por brigas, disputa por território, alimento e até disputa por atenção. Nesses locais os cães e gatos estão sempre tristes, apáticos ou, ao contrário, tornam-se tão agitados que não conseguem relaxar nunca. Já resgatei animais de abrigos que se comportam como crianças delinquentes, pois são agressivos, extremamente inquietos e podem demorar anos para se reequilibrar.
  43. 43. Nos locais menores e mais bem equipados, os animais geralmente não passam fome, mas estão sempre carentes e chegam a brigar por um simples afago e você precisa ficar atento para não privilegiar nenhum deles. Durante muitos anos fui voluntária em um abrigo que comporta uns trinta cachorros e senti na pele todos os problemas que mencionei. Chegava sempre no mesmo horário e os cachorros já começavam a correr e a latir enquanto eu estava a um quarteirão de distância. Eles já sabiam a hora certa da minha chegada e ficavam tão agitados que, muitas vezes, começava uma briga, antes mesmo que eu abrisse o portão. Nessa hora, eu precisava ser rigorosa e fazia de tudo para que eles se acalmassem. Sempre levava algum petisco e começava a servir para a turma que, só então, ficava quieta, esperando para ganhar o prêmio. Então, eu aproveitava o silêncio para conversar com eles e explicava que estava procurando bons lares para todos e que eles precisavam ter paciência, pois tudo era uma questão de tempo e logo eles iriam ter uma vida melhor. Contava também como que era difícil encontrar pessoas sem preconceito e que também tivessem amor para dar. Essa conversa, na maioria das vezes, os acalmava, pois cachorros gostam de ouvir uma voz humana que lhes fala com carinho e transmita serenidade. Todos os dias eu saia de lá com um nó na garganta, pois só voltaria no dia seguinte e os cães teriam um longo dia pela frente, sem atenção e sem a companhia de um humano. Lá, como na maioria dos abrigos, eles só têm o básico: comida, água e proteção contra as intempéries. Mas, felizmente e aos poucos, os animais acabam aprendendo a conviver com a solidão e, depois de um tempo, já não sofrem tanto; resignados, eles entravam em suas casinhas onde esperam o tempo passar. Eu sempre ficava triste, mas me consolava pensando que eles viviam melhor lá do que nas ruas, passando necessidades. Por tudo que os animais são obrigados a suportar, é importante que o abrigo seja sempre encarado como um local transitório, uma casa de passagem e não o lar definitivo para cães e gatos. Animais domésticos, como o próprio nome diz, existem para viver em contato e na companhia de humanos, pois dependem deles para todas suas necessidades. O certo é que sempre paira um ar de tristeza e resignação sobre os abrigos. Isto porque todos os animais que lá estão foram um dia abandonados e, mesmo os que se perderam de suas casas, ficaram traumatizados, pois nas ruas passaram por muita privação e medo. Eles se tornaram seres inseguros que têm receio de nos decepcionar, de fazer algo errado e serem descartados e sofrer novamente.
  44. 44. Essa é infelizmente a realidade dos abrigos de animais. Jim Willis, escritor e defensor dos animais, descreveu com precisão a tristeza dos abrigos em seu livro Pieces of My Heart: “Olhei para os animais abandonados no abrigo, os renegados da sociedade humana. Vi em seus olhos amor e esperança, medo e horror, tristeza e a certeza de terem sido traídos. Eu me revoltei e rezei: - Deus, isto é horrível! Por que o Senhor não faz nada a respeito? E Deus respondeu: - Eu fiz. Eu criei você.”
  45. 45. Se todos fizerem um pouco Se as pessoas cuidarem adequadamente de seu animal de estimação e o tratarem com o respeito que ele merece, não haverá abandonos e maus- tratos e os animais farão parte da família que eles tanto amam. Se nas escolas ensinarem as crianças desde cedo como cuidar dignamente de um animal e discutirem a importância dessa atitude, elas crescerão valorizando seu amigo, além de se tornarem seres mais responsáveis. Se as crianças aprenderem a valorizar todas as formas de vida, quando adultos saberão como ninguém amar e respeitar o ser humano e serão menos preconceituosas também. Se essas crianças transmitirem os conhecimentos adquiridos sobre posse responsável aos pais, familiares e amigos e conseguirem influenciá-los, a realidade dos animais será bem mais positiva. Se os guardiões de animais entenderem a necessidade de levar seus animais de estimação para castrar, como coisa rotineira, não haverá nascimentos indesejados, abandonos e mortes. Se as Prefeituras de todas as cidades realizarem campanhas de castração gratuitas para as pessoas de baixa renda, o problema da superpopulação estará resolvido ou pelo menos minimizado. Se os governos entenderem que é muito mais barato e eficaz castrar os animais do que manter a carrocinha e a morte indiscriminada de cães e gatos por injeção letal, já teriam modificado há muito tempo a política dos Centros de Zoonozes. Se os animais estiverem todos castrados, não haverá superpopulação e os que por acaso ainda estiverem nas ruas não procriarão, o que diminuirá significativamente o número dos desabrigados. Se não houver animais vagando pelas ruas, as pessoas passarão a valorizá-los e eles serão poucos e especiais. Se os animais que são comercializados só forem vendidos já castrados, isso evitará que muitos aproveitadores usem os animais de raça só com o intuito de procriação e venda de filhotes. Se as pessoas entenderem que os animais são seres sensíveis, elas não desejarão possuir um determinado animal só porque sua raça está na moda. Elas saberão que, por trás daquela raça, existe um ser que ama e
  46. 46. sofre e que se apega às pessoas que cuidam dele. Se as pessoas entenderem que os animais, assim como nós, sentem dor e medo, elas se compadecerão deles e tentarão ajudá-los quando estiverem necessitados. Se as pessoas se compadecerem dos animais que estão sofrendo nas ruas e os resgatarem e cuidarem deles para depois encaminhá-los para adoção, diminuirá significativamente o número de mortes causadas por doenças e desnutrição. Se as pessoas ficarem atentas às necessidades básicas dos animais como alimentação adequada, vacinação anual e abrigo contra as intempéries, todos eles terão uma vida longa e digna. Se as pessoas souberem que os animais, além de comida e abrigo, precisam também de atenção e carinho, eles serão muito mais felizes. Se todos souberem que prender animais em correntes ou espaços mínimos só gera revolta e infelicidade, todos os animais viverão livres e satisfeitos no espaço a eles destinado. Se todos souberem que os filhotes devem ser ensinados apenas com recompensas pelo acerto e nunca com castigos e violência, as pessoas terão em sua companhia animais adestrados e educados. Se as pessoas se conscientizarem, antes de comprar ou adotar um animal doméstico, que ele pode viver entre doze e quinze anos ou mais, dependendo do porte, não haverá tantos abandonos provocados por velhice. Se as pessoas souberem que, como qualquer ser humano, os animais precisam mais delas quando estão doentes ou velhos, eles não serão abandonados no momento que mais necessitam de cuidados. Se todos se conscientizarem de que existem muitos animais abandonados esperando por adoção, entenderão que não devem comprar e sim adotar: o melhor amigo não se compra. Se as pessoas proporcionarem uma boa vida aos animais de estimação, receberão em troca uma gratidão sem limites e uma dedicação que não se iguala a nenhum outro sentimento humano. Se todos fizerem um pouco, com certeza essa situação de abandono, sofrimento e morte será atenuada. Para que tudo isto aconteça, precisamos lutar e nos empenhar, pois os animais não podem se comunicar e dependem de nós.
  47. 47. ENCONTRO MARCADO COM GATOS
  48. 48. Sumário Encontro marcado com gatos O primeiro gatinho a gente nunca esquece Existem coincidências? Frank e sua gangue Quatro gatinhos pretos Quatro gatinhos pretos – segunda parte Pequeno equívoco Dar nomes aos gatos A casa dos gatos Gato preto dá sorte Anjos também morrem Tiquinho Huguinho, o incompreendido Impressões felinas Gato de Israel A última visita de Bob A Inquisição, os judeus e os gatos Momentos felinos Perfeição O melhor presente de aniversário Kiwi Anjos da Raposo Mia e Vince O tal Dorival Judaísmo e os animais
  49. 49. O primeiro gatinho a gente nunca esquece Quando meu marido chegou dizendo que estava com vontade de trazer para casa dois gatinhos que estavam em liquidação num pet-shop perto do escritório, eu fui categórica: - Acho que não gosto de gatos. Eles não gostam das pessoas, só das casas e não são muito carinhosos. Mas, ele insistiu: - Isto não é verdade e esses são tão lindos, estão já com três meses e custando uma ninharia, o preço já caiu três vezes e logo, logo, serão jogados na rua. Nem cabem mais na gaiola ... Claro, depois desses anos todos, ele sabia muito bem qual era meu ponto fraco. - Está bem, concordei, traga os gatinhos e vamos ver. Eu nem sabia como fazer. Telefonei para a veterinária e precisei perguntar tudo: como cuidar deles, quantas vezes comem por dia, o que eles precisam, caixinha de areia? Não sabia que gatos comem um pouco várias vezes por dia, não sabia que usam uma caixinha de areia para suas necessidades e que não fazem nenhuma sujeira, não sabia que eles adoram brincar e, principalmente, não sabia que também gostam de um colo. Que são muito carinhosos, inteligentes e interessantes, isso tudo fui descobrindo aos poucos. Aliás, como a maioria das pessoas, eu não sabia nada sobre gatos. As descobertas foram diárias e eu fui me apaixonando a ponto de perguntar: como pude viver tanto tempo sem a companhia de um gato? Eles brincam e se divertem o tempo todo, eles se alimentam o tempo todo e eles são felizes o tempo todo. São seres fascinantes e instigantes. E, quando você pensa que entendeu tudo, que já sabe como eles “funcionam”, eles nos surpreendem: naquele dia resolvem não fazer a brincadeira esperada ou nem te respondem quando você os chama. Este dia vai ser diferente porque eles resolveram assim. Você começa a ficar preocupada achando que tem algo errado com eles mas, algumas horas depois, eles acordam de bom humor e tudo volta à rotina. Os gatinhos filhotes, então, são um espetáculo à parte: divertidos, ágeis,
  50. 50. alegres e encantadores. Você se pergunta: já vivi tanto, tenho tanta experiência e como nunca soube disso? Como nunca me disseram que a felicidade é tão simples: basta observar um gatinho filhote brincando e descobrindo o mundo. Porém, com o tempo, você aprende também uma outra característica felina: eles são especialistas em mascarar a dor e as doenças. Eu era inexperiente e só percebi que havia algo errado com meu gatinho Tom, quando já era muito tarde. Tenho certeza que ele fingiu estar bem para não me chatear, ele não queria me ver sofrendo. Foi muito difícil aceitar sua morte prematura somada à culpa que senti por não ter percebido os sinais da doença, enquanto ainda haveria tempo para a cura. O breve período que Tom conviveu comigo foi suficiente para me ensinar a entender e amar os felinos, admirá-los e descobrir com eles um aspecto da vida que eu já estava esquecendo: o prazer de estar vivo.
  51. 51. Existem coincidências? Para Eleonora Algumas vezes, tenho certeza que sou um simples instrumento, uma peça aleatória a serviço de uma engrenagem muito mais complexa e abrangente. Todos os dias, cruzo com vários animais precisando de ajuda e eu sofro, mas reajo: não posso fazer mais nada, já ultrapassei todos os meus limites, não dá para acolher mais ninguém. Então, arrasada, continuo meu caminho e rezo para que alguém, com mais disponibilidade, veja o animal, sinta sua dor e responda ao seu apelo. Entretanto, chega o dia em que todas as forças do universo resolvem se conectar para tornar determinado apelo irresistível. Naquele momento começa a chover, ou então, faz muito frio, ele ou ela atravessa uma rua movimentada e corre perigo iminente. Por vezes é a dor, a doença ou o sofrimento, os fatores que desencadeiam sua ação. Assim, tem início o resgate não planejado e, nessa hora, não raciocino e muito menos deixo a razão prevalecer. Sou guiada pelo instinto. O que fazer depois, já é uma segunda etapa, um problema a ser resolvido quando eu recobrar a razão. Naquele dia, tudo começou com um resgate planejado. Fui até aquele bairro, em uma favela, para buscar uma poodle que perambulava por lá, faminta e no cio, há vários dias. Já arrumara até lar provisório para que ela se recuperasse enquanto aguardava adoção. Mas, no meio do caminho, lá estava ele: pequeno, muito frágil e implorando por ajuda. Gatos atravessando ruas movimentadas em plena luz do dia são a personificação do desespero. Sempre que vejo esta cena me lembro dos tigres no circo, lançando-se contra círculos de fogo. Quanta dor os domadores teriam infligido àqueles pobres animais para que eles se lançassem desse modo para o desconhecido, para a morte? Quanto desespero guiou aquele gatinho para um local tão perigoso? Não pude deixar de socorrê-lo. Instintivamente quis apenas mantê-lo seguro, protegido e o levei para casa. Tudo foi muito rápido e, em questão de horas, seu destino, antes escrito com linhas tão tênues já estava decidido.
  52. 52. Aconteceu assim: Naquele instante em que eu passei, ele atravessou a rua. Levei-o para casa e coloquei o filhote num cantinho aconchegante. Alimentei-o e tirei sua foto na esperança de achar um lar seguro para ele. Algumas horas mais tarde, uma amiga foi conferir suas mensagens e lá estava ele, indefeso e implorando por ajuda. Naquele exato momento, alguém passou por ela e se emocionou com sua figura frágil e carente. Mais algumas horas e ele foi encaminhado para um lar amoroso e que preencheu todas as suas necessidades. Houve uma conjunção perfeita de fatos, lugares e pessoas, todos distantes, desconhecidos. Uma sincronia de forças que culminou em encontros e acertos. Tudo muito rápido, coordenado, eficaz. Creio que lá longe, os sinos dobraram e as pontas de um emaranhado, aparentemente sem nexo, foram se encaixando com facilidade e uma soma de fatos improváveis culminou num desenlace feliz. Nesse momento, você descobre que foi apenas um instrumento para a realização de um acordo que já havia sido firmado. Não aqui, mas em outra dimensão.
  53. 53. Frank e sua gangue Por que escrevemos sobre determinado animal? Porque ele tem uma história marcante que merece ser contada, ou é por causa de sua personalidade que também é muito marcante e deve ser conhecida. Frank se enquadra no segundo caso e pode ser descrito como um gatinho peculiar: vesgo, desafinado, encrenqueiro, mandão e muito divertido. De tão estrábico, não temos noção para qual direção ele está olhando e, as vezes acho que ele não enxerga quase nada, pois longe de seu ambiente, ele fica perdido e olhando para todos os lados como se não conseguisse fixar um objeto. Quando o encontrei ainda bebê, ele estava num terreno ao lado de casa e passou a noite berrando até ser regatado. Seu miado é tão desafinado, tão estridente que eu pensei, enquanto me revirava insone na cama: amanhã vou pegar este gatinho só para colocar um grande esparadrapo no seu focinho. Desde pequeno, Frank começou a demonstrar espírito de liderança e hoje ele é o macho dominante do gatil: mandão, briguento e, ao mesmo tempo extremamente amoroso com os gatos que gozam de sua preferência, e que são aqueles mais alegres e arteiros e que podem ser tanto machos como fêmeas. Ele é o líder da turma dos bagunceiros e normalmente é quem dá o sinal para que a folia tenha início: ele solta um miado alto e desafinado, como se estivesse exercitando a voz e sai correndo e fazendo a maior algazarra. Implica com todos os gatos sérios, como se dissesse: larga de ser chato, a vida é boa e breve e não adianta nada ser tão ranzinza. Frank está sempre de bom humor. Quando faz alguma coisa errada, corre e fica olhando para ver se eu o estou observando: derruba almofadas de locais altos, vira casinhas, puxa os lençóis para o meio da sala e adora fingir que vai fazer xixi na parede bem na hora que eu estou passando. Eu dou um grito: - FRANK! e ele sai correndo com uma carinha de safado e é visível que está se divertindo pra valer. Então, eu lhe dou uma sonora bronca e o coloco de castigo no prato de um brinquedo que tem no playground dos gatos. Trata-se de uma construção que imita uma árvore, tem movimento e é composta por vários
  54. 54. pratos grandes espalhados por sua superfície. E Frank fica muito tempo quietinho de castigo no mesmo lugar, até que eu lhe dou permissão para sair: - Pode sair agora Frank ... e, entendendo perfeitamente meu comando, ele sai correndo para infernizar a vida de algum gato menos avisado. Essa é a nossa brincadeira diária. Até seu nome é perfeito. Assim como Sinatra, ele tem lindos olhos azuis e veio morar conosco na mesma semana em que Sinatra faleceu. Ele só não é afinado como o cantor. Eu sempre penso nele como um líder mafioso de uma turma muito feliz que fica se divertindo o tempo todo e alegrando aqueles que a assistem. Fazem parte da turma: Frank, Tico e Teco, Chaplin e Ivan. Os meus meninos que poderiam também se chamar: Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Peter Lawford e Dean Martin. Essa é a minha gangue, que se diverte tanto quanto se divertia a americana e está sempre de bem com a vida.
  55. 55. Quatro gatinhos pretos A primeira vez que os vi, tentavam atravessar uma rua movimentada às 11:00 horas da manhã de uma segunda-feira. Passo ritmado, como se estivessem de mãos dadas, deram início à travessia, indiferentes ao movimento de pessoas e carros. A seu modo, eles pediam ajuda e a urgência do pedido era visível em seu olhar e sua determinação. Eles sabiam que essa poderia ser sua última chance e então se lançaram, sem hesitar, em busca da sobrevivência. Eu me assustei com o inusitado da cena e, aflita, coloquei-os rapidamente no carro, antes que fossem atropelados. Estavam famintos, cobertos de pulgas e, principalmente, exaustos. Livres de todos estes inconvenientes, dormiram longa e profundamente e, quando acordaram, deram início a uma série incansável de brincadeiras. Estes quatro gatinhos pretos são, sem exceção, muito alegres, brincalhões, espertos, comilões e, principalmente, agradecidos e amorosos. São gatinhos especiais destinados a pessoas especiais. Escrevi esse texto tentando doá-los e um casal adotou as duas fêmeas. Recebo sempre notícias das meninas que continuam até hoje comemorando sua sorte. Quanto aos dois machos, além da dificuldade que é doar gatos pretos e também, como não tive coragem de separá-los, acabaram ficando em casa. Permanecem muito unidos, são parceiros de toda hora, comem, dormem e brincam juntos e, o mais importante, contagiam os outros gatos com sua alegria e amor à vida. E eles não são só inseparáveis, são também muito semelhantes, são gêmeos idênticos. Você não consegue, mesmo após longa convivência, identificá-los facilmente. Um pelo branco aqui, outro pelo branco ali, mas quando precisamos agir com rapidez, é quase impossível acertar. Isso é um problema na hora de administrar remédios ou vacina. Preciso sempre da ajuda de outra pessoa: um deles é separado e o outro recebe o medicamento e depois invertemos os papéis. Ou então, pego um deles, amarro uma fitinha colorida, dou o remédio e tenho tempo para pegar o outro, enquanto o primeiro se ocupa de ficar livre do enfeite incômodo. De qualquer modo, preciso ser muito rápida, pois eles ficam poucos instantes no mesmo lugar. São donos de uma energia e vigor
  56. 56. impressionantes e só param de correr e pular quando são vencidos pelo cansaço. Nessa hora, procuram um cantinho aconchegante, abraçam-se e fecham instantaneamente os olhos. Apagam. Você diria que eles são típicos gatinhos filhotes. Só que estes dois já têm mais de dois anos de idade e ainda conservam a alegria, a curiosidade e a vitalidade dos bebês. Tico e Teco são um espetáculo à parte para as pessoas e um convite à celebração para os outros gatos que, de início, só observam e, minutos depois, contagiados, passam a se divertir também. É como se os dois gatinhos fossem animadores e tivessem o objetivo de fazer circular a alegria e o alto astral. No entanto, é paradoxal, pois sempre que penso neles surgem duas imagens contrastantes: amor à vida e desespero. A primeira imagem é fruto de seu comportamento cotidiano, de suas brincadeiras alegres e inocentes. Aí me lembro do desespero, o sentimento que os impulsionou a atravessar aquela rua e enfrentar o perigo e o desconhecido. Então fica claro: só quem viveu e superou situações extremas pode ser tão feliz. Estes gatos são sobreviventes e, por isso, dão tanto valor à vida e a celebram diariamente como uma benção divina.
  57. 57. Quatro gatinhos pretos – Segunda parte E a rotina continuou: muita alegria, celebração e muita, muita curiosidade. Esta característica, por sinal, também diferenciava um dos irmãos: Tico é mais curioso e amoroso com as pessoas, Teco mais independente e próximo dos outros gatos. Tico sempre me esperava pela manhã à porta do gatil e era o último a se despedir à noite. Sempre interrompia suas atividades para correr até a porta e desejar-me boa noite com seu olhar doce e carinhoso. Uma manhã, no entanto, ele não estava me aguardando. Um rato, um pássaro, a eterna curiosidade dos gatos, algo o impulsionou a forçar a tela do gatil e sair para explorar o mundo lá fora. Nesse momento, é como se houvesse uma cisão no tempo, uma interrupção que paralisa ações e sacode sentimentos. Para não sucumbir ao desespero você começa a planejar todo tipo de buscas, diurnas e noturnas, silenciosas e barulhentas, racionais, meticulosas e também descontroladas. Pede ajuda a todos, amigos e conhecidos e faz contato com vizinhos que nem sabia que existiam. A busca constante e obsessiva acaba levando a uma exaustão que faz você questionar todas suas convicções. Afinal, para que eu salvara a vida desses quatro gatos, se era para ele fugir e ficar em perigo novamente. Não tinha sentido. Ou será que o trabalho de ajuda aos animais é que não tem sentido? O tempo vai passando e você começa a fraquejar, ânimo e desânimo se alternam num mesmo dia, especialmente quando saímos atrás de pistas falsas, dicas bem intencionadas daqueles que pretendem ajudar e elas se tornam em novas frustrações. Como alternativa, você articula novas táticas que também acabam apontando para sua impotência e fracasso. Mesmo evitando a todo custo, passamos a imaginar os perigos e assim, como num pesadelo, tudo se torna perigoso, desde o cachorro do vizinho até o carro cruzando sua rua. E a fome e a sede são presenças constantes quando você troca a água ou coloca ração na vasilha dos outros gatos. E, o mais cruel, o fato dele ser um gato preto, aquele que sofre mais discriminação e que corre mais perigo nas ruas. Soma-se à dor da perda o desespero da impotência e o resultado é a tristeza que se abate sobre tudo e contagia indistintamente pessoas e gatos.
  58. 58. Talvez para me consolar, Teco começou a tomar algumas atitudes que antes eram próprias de seu irmão: esperava-me na porta do gatil, despedia- se quando eu saia e tentava brincar sozinho. Corria para todos os lados tentando contagiar os outros gatos, sem sucesso, porém. Então, postava-se no local exato onde a tela fora forçada e chamava: R A U L R A U L R A U L R A U L R A U L T. S. Eliot em um de seus poemas fala sobre o nome secreto dos gatos, o nome que eles partilham entre si e não nos contam. Teco, em sua dor, deixou escapar o segredo e eu fiquei sabendo o nome verdadeiro do Tico. De todo modo, a busca não foi totalmente infrutífera, pois resultou no acolhimento de quatro outros gatinhos pretos que ficaram muito agradecidos ao Tico quando foram encaminhados para seus novos lares. Numa noite, 67 dias ou 1608 horas depois, eu ouço um fraco miado vindo da rua, uma vozinha leve e insistente. - É você, Tico? E, contra todas as probabilidades, ele pula de uma árvore direto para meu colo, como se estivesse acabado de se despedir à porta do gatil. Como se não houvesse ocorrido uma interrupção, como se essa suspensão temporal, este hiato de dor, fosse fruto da minha imaginação. Minha rotina mudou. Hoje eu acordo, abro a cortina do quarto e quando vejo os dois gatinhos pretos brincando, começo meu dia com um sorriso de alívio e satisfação e agradeço a preciosa dádiva que me foi concedida. Para eles houve uma retomada da rotina e, para mim, uma grande mudança. PS.: Outro dia, estava acariciando Tico e recordando aqueles dias terríveis, quando ele me olhou bem nos olhos e soprou um pensamento: - “Nunca contei pra você, para não chateá-la. Mas, eu me diverti muito enquanto estava fora: passeei, conheci lugares novos, fiz muitos amigos e aprendi coisas interessantes. Hoje sou bem mais esperto e vivido. Vinha toda noite para comer a ração que você deixava no muro da casa, para o caso de eu voltar com fome. Eu só voltei mesmo porque te ouvia me chamar, até altas horas e você chorava também, coitada. O certo é que não dá para se ter tudo: liberdade, boa comida e amor. Fazer o que?” Tive vontade de lhe dar um beliscão, mas emocionada, eu o abracei e dei- lhe um sonoro beijo.
  59. 59. Pequeno equívoco Hoje foi um dia daqueles! Se eu fosse supersticioso diria que essa segunda-feira está mais para sexta-feira 13 do que qualquer outra coisa. Mas não, eu não posso alimentar este tipo de sentimento: preconceito, superstição são coisas similares e eu tenho que lutar contra elas. Desde que nasci que ouço: Xô, Xô, Sai Gato Preto ... Gato Preto dá Azar! Eles me enxotam como se eu tivesse algum dom especial, como se a minha cor me concedesse poderes ... como se eu pudesse alterar algo que está fora de mim, transmitir azar a alguém, por exemplo. É tudo muito doido! Eu não consigo mudar meu próprio destino, como poderia ter alguma influência sobre a sorte ou o azar das pessoas que cruzam meu caminho? E o mais incrível é que tem gente que acredita nesse meu poder. Se eu tivesse algum, seria para melhorar minha vida e não para prejudicar a vida desses seres estranhos e irracionais chamados “humanos”. No entanto, vejam o meu dia. Eu estava tranquilamente tomando sol com minha irmã mais nova, quando começou uma gritaria daquelas. Como sempre eles estavam conversando, depois discutindo, depois brigando e sempre culpando um ao outro. Eles são muito bons nisso. No fundo, eu sabia que ia sobrar pra mim, mas nunca supus que as coisas pudessem chegar a tal ponto. Achei que iam só me expulsar, como era de hábito. Tá certo que eles nunca se importaram muito comigo: comida, só às vezes. Carinho, então, nem pensar. Ficará para sempre a dúvida: será que se eu fosse um gato branco e peludo, seria tratado de outra maneira? Pelo menos eu tinha um cantinho só meu ... lugar tranquilo onde podia observar as coisas dos humanos seguirem seu curso. Certas atitudes são tão surpreendentes que eu não tive nenhuma reação. Poderia ter tentado fugir, mas estava tão espantado que deixei que me colocassem, junto com minha indefesa irmã, em uma caixa de papelão. Eu não reagi, santa ingenuidade, pois não imaginei que pudesse haver qualquer relação entre a discussão que acontecia e minha pacata figura. Nós fomos amarrados numa caixa, fizeram uns furinhos generosos, e
  60. 60. levados para bem longe dali. Começou então nossa longa agonia. Durante horas, eu diria muitas horas, eu só consegui ouvir carros passando e freadas violentas. Estávamos, eu mal pude acreditar, no meio de uma estrada muito movimentada. Eu só conseguia ouvir o barulho dos pneus, cada vez mais próximos e, à medida que o desespero crescia, ia ficando totalmente paralisado, certo de que aquele seria meu último suspiro. Depois de um longo período, eu já não tinha mais nenhuma reação. Exausto, mal conseguia abrir os olhos, aliás, tinha muito medo de abri-los. Estava ciente da inutilidade de qualquer esforço e deixei que a impotência e o desespero tomassem conta de todo meu ser. A partir desse momento, passei a ouvir apenas as batidas do meu coração que, gradativamente, foram se tornando mais fortes do que o barulho dos pneus no asfalto. De repente, o silêncio. Estávamos sendo levados dali. E, como se estivesse despertando de um pesadelo, comecei a ouvir vozes: - Meu Deus! Uma mãe com seu filhinho. Coitados, estão tão apavorados! Estão em pânico, mal conseguem respirar !!!! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . Então, entre apavorado e indignado, finalmente me rendi. Eu desisto. Nunca mais tento entender o ser humano. Primeiro me prendem naquela caixa apertada, fedida e asfixiante. Depois, passado o susto, e eu mal consegui me recuperar, aparece essa louca: - Mãezinha pra cá, mãezinha pra lá! Só porque estou abraçado com minha irmã e sou, digamos, meio gordinho ... Quem ela pensa que eu sou? Pra mim chega! Eu desisto. Nunca fui tão humilhado.
  61. 61. Dar nomes aos gatos Dar nome aos gatos é uma arte. Requer um certo tempo, criatividade e alguma paciência. Precisamos de tempo para testar a eficácia do nome escolhido. Normalmente fazemos várias tentativas até chegar àquele som que tem a “cara do seu gatinho”. Quando acertamos, eles respondem na hora. Bingo! Será que é porque eles mesmos escolheram o nome? Criatividade: alguns nomes são motivados por circunstancias exteriores ao bichinho, a época em que ele chegou, por exemplo. Outras vezes, nos atemos à maneira ou ao local onde ele foi encontrado. Temos ainda nomes desencadeados pela própria personalidade do gato, são os nomes que eles mesmos nos sugerem. Este processo permite a nós humanos ser muito mais criativos, pois não precisamos, neste caso, agradar parentes ou o pai da criança. Ninguém vai tentar nos impor aquele nome horrível, mas que homenageia uma tia recém-falecida. No nome do meu gato, ninguém dá palpite! Além de todas estas facilidades, temos ainda algum tempo para testar o acerto da escolha. Se surgir outro nome mais adequado, pode-se ainda corrigir o erro. Temos o tempo que o gato precisa para se acostumar ao som de seu nome. E o leque de opções é quase infinito. Podemos dar nomes de plantas, flores, frutas, lugares, sentimentos e mesmo nomes humanos. A escolha destes últimos aproxima felinos de nós humanos, faz surgir uma certa cumplicidade, intimidade, um elo entre espécies. Algumas pessoas se incomodam quando gatos levam seus nomes, mas eu acho que não existe homenagem mais carinhosa. Nos gatos é permitido colocar nomes em outro idioma e não correr o risco de parecer brega. Dependendo do tipo do gato, essa escolha é até inevitável. Alguns deles só podem ter nomes ingleses e ainda acrescidos de Sir ou Lady. Outros, muito dengosos, pedem nomes franceses. O prazer da escolha de um nome é um capítulo à parte. Um pouco de pesquisa e depois é só deixar por conta de sua imaginação. Vou tentar me lembrar de gatos passados e presentes e do processo de escolha de seus nomes. Eddie: meu primeiro gatinho preto. Foi só observá-lo por alguns

Cães e Gatos.

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