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Butler e Bourcier

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Textos para aula sobre Butler e Bourcier

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Butler e Bourcier

  1. 1. arm 18 ’ setembro 201 5 RS 14,90 . revistacu| t.com. br ERA DO TRAUMA PSICANALISE E A MPREENSAO DO DIVIDUO MODERNO LADIMIR SAFATLE CIRCUITO DOS AFETOS UJEITOS POLITICOS O CONSTITUEM UM POVO, TA SERA A ULTIMA A0 DE FREU. /I V L _ g" S ‘ MARIE-HELENE/ SAM or I * BOURCIER -. "E IMPOSSIVEL FAZER POLITICA QUEER SEM COMBATER O NEOL| BERAL| SMO" ”TEMOS QUE PENSAR O LUGAR DE CORPOS “C III . It A I A POI lit. .. : -I
  2. 2. EDITORA E DIRETORA RESPONSAVEL Daysi Bregantini DIRETOR DE REDACAO Marcos Fonseca EDITOR Welington Andrade weltngtonandrade@revfstacU/ t.com. br DIRETORA DE ARTE Andreia Freire de Almeida aridre-ia@revr'stacUItcombr REDAQAO Helder Ferreira ASSISTENTE DE ARTE Andriely Dantas REVISAO Sofia Nestrovski coLuN| srA Marcia Tiburi FOTO DE CAPA U| Istein Bild / Getty Images DIRETOR FINANCEIRO Dejair Bregantino ASSISTENTE FINANCEIRA Talita Gusmao financeiro@editorabregantimcom. br GERENTE DE ASSINATURAS Ana Lucia P. Silva assinecu/ t@edItorabregantini. com. br PUBLICIDADE EM 5110 PAULO Bibiana Grl comercr'aI@revistacUIt. com. br I 11 33853385 REPRESENTANTE EM BRASILIA Pedro Abelha pedroabeII7a@rer‘ra, com. br | 61 3321-9100 DISTRIBUICAO EXCLUSIVA NO BRASIL (BANCAS) Dinap Ltda. — Distribuidora Naclonal de Publicagées mrrnzssixo Bangraf ESPACO CULT ESPACO REVISTA CU T Rua Aspicuelta, 9‘? — Vila Madaiena S50 Pau| o~SP — CEP 05433-010 TEL ‘I1 3032-2800 DIRETORA Fernanda Paola fernarrda@re/ r'stacUItcomibr CULT — REVISTA BRASILEIRA DE CULTURA Praca Santo Agostinho, 70 /10" andar — Paraiso S50 Paulo-SP ~ CEP O1533—07O TEL 11 3385-3385 J FAX 11 3385~338<f> ONLINE www. revistacUIt. com. br twittercom/ revistacuit facebOOl<. com/ revistacult MATERIAS E SUGESTOES DE PAUTA redacao@revIstacuIt. com. br CARTAS cartas@revistacu/ t.com. br PARA ASSINAR assinecu/ t@editorabregantini. com. br PARA ANUNCIAR comerciaI@revfstacu/ t.com. br A revista CULT é uma publicacéo mensal da Editora Bregantini. A CULT néo se responsabiliza pelas ideias e COHCGIIOS expressos nos artigos assinados, que trazem somente o pensamento dos autores e néo representam necessarlamente a opiniéo da revista. E pronbida a reprodugéo total Ou parcial desta pubhcacéo, para qualquer finalldade, sem prévia autorizagéo. Editora ‘ ISSN 141470745 N°205 SETEMBRO 2015 ANO 78 , fl3"[‘B! ALl MUITO ALEM DA DIVERSIDADE DE GENEROS m novembro de 2013, a CULT publicou um dossié editado pela filosofa Marcia Tiburi a respeito do pensarnento de Iudith Butler, filosofa norte—americana cuja Obra tem provocado pesquisas e promovido debates mundo afora e que é reconhe— cida como uma das mais influentes intelectuais deste século. Em agosto de 2014, Carla Rodrigues, professora da UFRI, editou o dossié “O ge- nero em discussao”, e assim a CULT apresentou em uma publicacao nao académica, pela primeira vez no pais, a teoria queer, que da sus- tentacao a estudos ainda pouco difundidos, mas cuja importancia nas esferas cultural, sociopolitica e comportamental é inegavel. TOrnar—sc um sujeito feminino Ou masculino nao é uma coisa que aconteca num so golpe; antes, implica uma construcao que, efetiva— mente, nunca se completa, afirma Butler, chamando a atencao para O fato de que “a ideia do género é a estilizacao de um corpo, um conjunto de atos repetidos, no interior de um quadro regulatorio rigido, que se cristaliza para produzir a aparéncia de uma maneira natural de ser”. Diante de tal perspectiva, é preciso reagir positivamente, como propoe a professora Guacira Lopes Louro ao lembrar que “O desprezo e 0 escarnio usados para nomear quem se desvia das normas de género podem ser revertidos. Ainda que OS vestigios de um discurso de odio nao sejam completamente apagados, eles podem ser reconfigurados”l Inspirada por reflexoes vigorosas, essenciais as ideias de justica social e de direitos humanos, a CULT se sente muito orgulhosa deter se transformado em uma grande divulgadora da cultura queer no Brasil. Muito natural nos pareceu, entao, que uma instituicao COITIO o Sesc Sao Paulo — que tem entre seus compromissos chamar a atencao para a diversidade, reconhecer os direitos fundamentais das minorias e estimular processos de diferenciacao que nos facam mais humanos — participasse da criacao do I Seminario Queer, que acontece em Sao Paulo neste més de setembro, cujos ingressos esgOtaram—se uma hora apos terem sido colocados a venda. A cultura queer sai da academia e ganha O centro das atencoes mi vida social em carater mais amplo, embora O verdadeiro protagonismo dessa narrativa que vem sendo construida coletivamente deva ser assumido por cada um de nos. Agradeco, especialmente, as mulheres Marcia Tiburi, Carla Rodrigues, Guacira Lopes Louro, Marta Raquel Colabone, Mariangela Abbatepaulo, Berenice Bento e Karla Bessa. Completa esta edicao o dossié A cultura Como trauma, organizado pelo professor Marcio Seligmann—Silva, no qual se debate a importancia do conceito psicanalitico de “trauma" para a cultura, do inicio do século 20 ate’ Os dias atuais. Boa leitura a todos. DAYSI BREGANTINI
  3. 3. MARIE-HELENE/ SAM BOURCIER PEDRO PAULO GOMES PEREIRA Formada/ o em Filosofia na Ecole Normale Supérieure, Marie-Hé| éne/ Sam Bourcier concluiu doutorado em Sociologia na Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales, em Paris, e integra o corpo docente da Université Lille 3, na Franca. Organizou os Seminérios do Zoo, grupo de estudos queer, entre 19% e 2001; traduziu obras da teorica feminista italiana Teresa De Lauretis; e escreveu uma trilogia (Queer zones 1, politiques des identités et des savoirs; Queer zones 2, sex po/ itiques; e Queer zones 3, identités, cultures, po/ itiques) que contribuiu significativamente para a introducéo da teoria queer na Franga. N°205 11
  4. 4. ‘A’ : ‘ E‘. PEfIAL OUEEP ENTREVISTA MARIE-HELENE/ SAM BOURCIER I Vocé poderia contar um pouco de sua trajetéria intelectual? MARIE-HELENE/5AM BOURCIER Sou cria do pos- —estruturalismo francés, alimentado daquilo que os Estados Unidos chamam de French Theory (Deleuze, Lacan, Foucault, Derrida), em uma escola elitista: L’Ecole Normale Supérieure. A teoria queer da primeira onda, com Butler e De Lauretis, queerizou esses autores, neles injetando uma boa dose de fe- minismo (que nao era seu forte) e desviando alguns de seus conceitos para pensar os ge- neros — a performatividade de Derrida na obra de Butler, a tecnologia para Foucault na obra de De Lauretis — a partir de um ponto de vista minoritario e politico. Os géneros foram desvencilhados do sexo dito biologico; sua proliferacao se tornou visivel e gozante; a drag queen foi elevada ao topo para que se fizesse compreender que a feminilidade é uma performance, uma imitacao sem origi- nal. Em linhas gerais, entre uma mulher e uma drag queen, a diferenca e’ o comprimento do salto. As sexualidades desmoronaram gra- gas a insisténcia de Gayle Rubin e de Kosofsky Sedgwick. Mas nada teria aconte- cido na teoria sem as subculturas queer nas quais ja eram vividas e reivindicadas as iden- tidades de género e as sexualidades diferen- tes, desviantes, onde o genderfucking era usual. O que se tentou fazer na Franca, espe- cialmente com os Seminarios do Zoo, foi tra- duzir essa teoria queer da primeira onda, mas no contrapé dos EUA, ou seja, sem manter a critica contra as politicas de identidade, pois isso nos parecia contraproducente em um contexto francés, bastante universalista e re- publicano, que, assim sendo, esmaga as poli- ticas minoritarias, sejam elas sexuais, de género ou raciais. A Franca é um pals assom- brosamente monocultural. 12 N°205 - Ha em suas atividades uma busca por performances e interven- cées artisticas. Vocé poderia falar sobre esse aspecto? BOURCIER A importancia da performance no meu trabalho se origina, sem duvida, do sucesso na teorizacao de Butler na esteira de Esther Newton, nos anos 1990, e dos performance studies. Mas se deve tam- bém ao papel por ela desempenhado desde 0 inicio no feminismo dos anos 1970, como técnica de desobediéncia civil, de ocupacao do espaco publico, que toma 0 corpo como suporte. Era também esse 0 caso de Act Up e dos primeiros grupos queer. E, entao, compreender que a realidade é nao somente construida, mas que passa pela performance e pela performatividade com o corpo e também com a linguagem é um modo bastante ativo e acessivel de desnaturalizar as coisas e de fazer polltica; de poder responder: “queer” é uma ofensa que foi en- globada por quem a recebia em um momento em que puderam se empoderar. Finalmente, a performance é um instrumento pedagogico formidavel. Eu a utilizo sistematicamente em minhas aulas sobre a performance de género, pedindo as/ aos alunas/ os que filmem uma performance de género ou de raca ou de etnicidade no espaco publico; em minhas aulas sobre o feminismo, nas quais devem “berrar” um manifesto feminista na sala. I Vocé poderia falar sobre as oficinas drag king? BOURCIER As oficinas drag king sao 0 complemento indispensavel da drag queen de Butler. .. E um exercicio excelente de desnaturalizacao da masculinidade para todos, tanto héteros quanto homos e queers. Deveriamos fazer oficinas drag king ja na escola primaria. Quando vocé sai de uma oficina drag king, vocé nao provou de sua dita bissexualidade psiquica, mas vocé desmistificou radicalmente a masculinidade: ela nao pertence aos homens e ela é circular. A mesma licao é tirada com o dildo. De modo geral, a forma da oficina é importante porque se trata de um vetor essencial das subculturas queer e post—porn, em continuidade com a cultura feminista da auto-exploracao, do raising consciousness: o politico pessoal em acao, de certo modo. E isso compensa o lado dessocializante ou despolitizante da teoria queer. Com as oficinas, nao vale mais a pena se preocupar com a ambivaléncia subversiva do drag: funciona, e ponto. A teoria queer do drag oculta também a temporalidade, a historicidade da performance da feminilidade e da masculinidade. Eu flquei chocado ao ver come as pessoas escolhiam com frequéncia figu- ras masculinas muito marcadas pohtica e historicamente nas oflcinas que fizemos no Brasil, come 0 Che Guevara, por exemplo. E entao nao se deve esquecer a tensao sexual que criam os experimentos entre kings, o que também é bom. Em todo caso, funciona comigo.
  5. 5. Mare-Helene/ Sam Bourcier em ensaio fotografico Drag King Em seus livros, vocé busca compreender zonas de pensamento, voltando o olhar para formas de expressao como 0 cinema porno- grafico, o sadomasoquismo (SM), a construcao das figuras do tra- vesti, do transgénero e do transexual. As zonas queer constituiriam espacos privilegiados de intervencao? Por que e de que maneira? BOURCIER Ha zonas e ha fios. Em cada uma das obras que compoem a trilogia de Queer zones, encontram-se, em dez anos, os mesmos fios ver- melhos: o cinema, incluindo 0 porno, 0 SM, 05 géneros, as subculturas, as politicas queer e uma reflexao sobre a producao de saberes queer, “epis- temologico”. Preferi falar em “zonas" queer de maneira a nada petrificar: de fato, ha movimento ai. E nessas zonas, a sexualidade, 0 gender fucking e também as politicas de representacao praticadas pelas minorias sexuais e de género tém papel principal. Fui marcado tanto pela teoria queer quanto pelos festivais de filmes gays e lésbicos nos quais a agitacao, a proliferacao identitaria avancam muito rapidamente. E foi o que vivi sendo designado como homossexual e depois me autodesignando como lésbica, SM, butch e, hoje, trans. Vocé poderia comentar um pouco sobre essas formas de expres- sao, como a pos-pornografia on as praticas SM? BOURCIER Acredito ser preciso vé—las como politicas. Quando lancei a pos—pornografia na Franca, em 2000, eu nem podia imaginar a forma que seu desenvolvimento tomaria, quinze anos depois. E uma das maiores e mais originais contribuicoes do queer europeu. A outra, ter finalmente abandonado a psicanalise como modo de subjetivacao e de compreensao abu- sivo e elitista. No comeco, tratava-se de des- construir o regime porno moderno no pais de Sade. .. Nos pensavamos que um outro porno era possivel, sobretudo quanto aos filmes. Isso, alias, deu origem a festivals de filmes porno alternativos na Alemanha, Espanha, Italia e em Grécia. E agora, em muitos paises da América Latina, no Brasil, com a Muestra Marrana levada de Volta ao México, e gracas a Diana Pornoterrorista e Lucy Sombra. Mas eu estava longe de imaginar que o post-porn se tornaria um instrumento de desobediéncia sexual tao politico, uma forma de “pornoati— vismo”, para retomar o termo de Rachele --é N"205 13
  6. 6. ENTREVISTA MARIE-HELENE/ SAM BOURCIER Como sua abordagem poderra ajudar a pensar a violéncia contra a mulher, a violéncia de género? dam as necessidades economicas. Elas obrigam as mulheres a se iden- tificar como vitimas, a valer-se do direito, negligenciando a colaboracao que pode ser encontrada na afirmacao cultural e politica na luta contra a violéncia, sobretudo nas politicas comunitarias. Sua visita ao Brasil a levou a pensar na interseccao entre raca e sexualidade nas queer zones? lista. E espero que isso aconteca. E claro, espero muito em termos po- liticos interseccionais, da articulacao entre raca, género, sexualidades e religiao. Estou bastante consciente de que pude evoluir, por ora, cm . ..A FEMlNlLlDADE E UMA PERFORMANCE, UMA IMITACAO SEM ORlGlNAL. EM LINHAS GERAlS, ENTRE UMA MULHER E UMA DRAG OUEEN, A DIFERENCA E O COMPRIMENTO DO SALTO 14 N°205 meios que permanecem privilegiados e bran- cos — as universidades. Mas devo dizer que fiquei surpreso pelo plano de desenvolvimento das universidades realizado por Lula, e pelo fato de que as universidades brasileiras per- manecem (cruzemos os dedos) publicas. Vocé sabe, as universidades europeias estao em ple- na privatizacao e ninguém faz nada a respeito. Eu tinha chegado ao ponto de nao acreditar mais no servico publico, e me deparei, na Unilab, em Sao Francisco do Conde/ BA, ou ainda no Ceara, com faculdades que brotavam em lugares ultra pobres, onde tive trocas com professores que se preocupavam todas as noi- tes para inventar suas faculdades. Isso me fez lembrar profundamente e me fez compreender ate’ que ponto a universidade pertence aos “co- muns” e que é correto promover acoes afirma- tivas, como as cotas. Interessei-me pelo nome social do qual podem se valer facilmente as pessoas trans em certas faculdades e por ver professoras travestis tornando-se reitoras, co- mo Luma Andrade, no Ceara. Algo inimagi— navel na Franca. Qual a relacao de seu estilo ironico, com franca vocacao para a polémica, com os te- mas que vocé aborda? BOURCIER Tenho um estilo trash, cru, vulgar para alguns, que utiliza girias e é intencional- mente-polémico. Deve ser meu lado francés que me faz polémica. Quanto a mistura de diversos niveis de estilo, burilado, grosseiro, intelectual e sexual, é uma estratégia a la Genet, algo camp e fora do género também. Meu lado Genet esta na cena do tubo de vaselina no Le journal du voleur [O didrio de um ladrdo], cuspes que se transformam em uma chuva de rosas no Miracle de la rose [0 milagre da rosa]. Xs queers praticam uma forma burlesca que consiste em elevar ao cume o que é rebaixado, em virar do avesso, em inverter. Em se voltar contra aquelxs que xs assujeitam com elegancia ou kitsch. Ha algo disso também em uma denominacao como “teoria queer” quando pensamos: é a teoria dos Viados, a teoria do cu. Ha também uma vontade de falar do sexo sem nunca retomar o vocabu- lario médico ou psicanalitico. De chamar uma
  7. 7. boceta de boceta, um pau de pau. Do mesmo modo que 0 falo de Lacan — desculpe—me mas é um pau, a bem da verdade. Ha também uma vontade de nao deixar dizer que essa linguagem é um privilégio masculino. Enfim, tentei me livrar da valorizacao da “alta” cultura contra a “baixa” cultura, algo muito forte na Franca. Dai vem meu interesse pela cultura popular e pelas subculturas, e nao pela Cultura com um grande C, em uma pa- lavra, kantiana, e que finge o esteticismo, a Escrita com um grande E contra 0 politico. Tentei elaborar uma escrita queer que seja engracada. E o meu lado Charles Chaplin. Ha também meu lado buldogue. Adoro o conflito no debate de ideias porque gera um brainstorming, que faz avancar. Nunca sao ataques ad hominem ou ad feminem, mas eu constato que é muito dificil ter esse tipo de dialogo com representantes da teoria queer dos EUA. E uma pena ja que é urgente despersonalizar a teoria queer, se queremos fazer politicas queer que funcionem. Como pensar a teoria queer para além dos paises do Norte glo- bal? E como vincular as zonas queer e as experiéncias/ corpos queer aos contextos locais? Como, enfim, traduzir o queer? BOURCIER No meu ponto de vista, sera necessario encontrar um outro termo. Na Espanha, por exemplo, o transfeminismo é claramente uma traducao politica anti—imperialista do queer estadunidense, dos “queericanos”. Em seguida, é preciso se desvencilhar da teoria branca queer da primeira onda, e ha fontes importantes na critica das QOC (Queers ofColour), inclusive nos EUA. Foi o que [Gloria] Anzaldua comecou. Em seguida, a teoria queer nao pode ser separada das sub- culturas e das politicas queer, enquanto 0 oposto é possivel. Vocé falou em “corpos” e e’ exatamente disso que se trata: 0 corpo é o vetor maior das micropoliticas queer, sobretudo em sua contestacao dos regimes disciplinares, mas também contra as tecnologias de seguranca, a so- ciedade e a cultura de seguranca que injeta o neoliberalismo em tudo. Os corpos queer/ transfeministas devem se encontrar em todo lugar em que se produzam zonas queer: o post-porn é uma dessas zonas que pode nos reunir sem o Norte global, que esta pouco se lixando, alias, para o post-porn. Traduzir é também aumentar e partilhar nossos universos referenciais. Mas é preciso que isso funcione em todos os sentidos, que se traduza do portugués, e que sejamos capazes de des- colonizar o queer (para nos franceses, europeus, isso vai mais longe do que Walter Mignolo chama de “delinking”), e de aprender licoes com o “racismo espistémico” europeu, que nos formou, mas que ainda fascina demasiadamente a América Latina. Em quais projetos Vocé esta trabalhando atualmente? BOURCIER Estou escrevendo um livro que se chama Homo INC (de Incorporated). E uma critica sobre para onde a agenda miuda da politica igualitaria nos levou com seu modo de engajar a luta contra as discrimi- nacoes, com essas historias de casamento gay e lésbico, mas nao trans. O casamento nao é um direito. E um privilégio e uma idiotice. E essa a politica daqueles que chamo de “bons-homos” e os same sex, tendo em vista que essa fracao rica e branca das lésbicas e gays (LG) nao se define mais por expressoes de género diferentes, mas pelo fato de ser homem ou mulher: essa bussola do sexo seria a orienta- cao sexual. Acredito que essas politicas sao cum- plices do neoliberalismo, que promovem 0 ho- moprodutivo e o homonacionalista, para nao dizer racista. Eu estava no Brasil durante a Copa do Mundo, e foi perto de Salvador, eu acho, que ocorreram manifestacoes historicas de gays con- tra uma partida com o Ira. Uma importacao direta da islamofobia sobre a qual se construiu a internacional gay. Eu tento ver o que seria uma agenda queer/ transfeminista, tento falar de co- letivos que propoem uma verdadeira agenda de transformacao e de justica social. Ou seja, trata- —se de ir contra esse novo lugar de producao da subjetividade homo que se tornou o mercado sob o angulo do trabalho e da economizacao dos comportamentos homossexuais. Era Foucault que dizia que, com a sexualidade moderna oci- dental, a questao “quem e’ Vocé? ” era preciso responder “um homossexual”, tornar-se um tipo sexual e nao mais uma pessoa que praticava a sodomia no século 17. “Quanto Vocé custa? ”, “Quando Vocé nos custa? ”, “Quanto Vocé pro- duz? ” site as novas questoes que faz agora um regime de producao da verdade do sexo indexa- do sexual e racialmente, ligado aos mercados nacionais e internacionais nessa era neoliberal. Para mim, é impossivel fazer politica queer sem combater o neoliberalismo, e é também por isso que ha uma clara oposicao entre as politicas LG e as politicas queer e transfeministas. rRADucAo MARIO SAGAYAMA Em suas respostas, além de ginas e estrangeirlsmos, Mane-Hélene/ Sam Bourcler usa alternadarnenre as marcas dos géneros masculino, feminino e neutro, este marcado pela letra "x". . __________________________
  8. 8. ENSAIO DIVERSIDADE ou DIFERENQZA? Tolerar a diversidade é muito diferente de a acolher, dei><ar~se influenciar e se transformar por ela RICHARD MISKOLCI oi na virada entre as décadas de 1980 e 1990, quando alguns conflitos envolvendo diferengas culturais ganharam visibilida— de midiatica, que emergiu a discussao teorica e politica sobre a diversidade e a diferenqa. Os conflitos raciais renovados nos Estados Unidos, a ameaga separatista do Quebéc no Canada devido a sua diferenga linguistica 6: Cultural em relagéo ao resto do pais, além de outras formas de conflito na Europa, tudo fazia refletir sobre a fragili- dade dos principios universalistas do direito e da cidadania no chamado Primeiro Mundo. Em 1990, é lanqado um texto fundamental sobre o tema: The politics of recognition, do filosofo canadense Charles Taylor. Sua reflexao serviu de base para muito do que foi escrito desde entao sobre diversidade, tanto em termos académicos como em politicas sociais. A nogao de diversidade busca — dentro de um enquadramento universalista — abar— car as demandas por respeito e acesso a direitos por parte de grupos historicamente subalternizados como negros, povos indigenas, homos- sexuais, mulheres. Em sociedades democréticas fundadas no universalismo, como a francesa, é notéria a dificuldade em reconhecer demandas de grupos chamados de “minoritarios”. Em uma ordem republicana universal nao ha espago para a diferenea, dai medidas como a proibigao de imagens religiosas em repartigées piiblicas e a recusa do uso do Véu por estudantes mugulmanas nas escolas. A rationale universalista exige que 0 Estado laico seja preservado a custa do ocultamento das diferentes formas de confissao que nele convivem. Em paises como os Estados Unidos e 0 Canada, a concepgao politica de nagao é mais permeavel a demandas diferenciais, por isso 0 Estado adota medidas de reconhecimento e/ ou politicas como as aqées afirmativas que visam, por exemplo, ampliar o acesso de negros e mu- lheres as universidades e mesmo aos postos de trabalho. Nesses paises, a nogao de diversidade engendrou a de multiculturalismo, uma forma de compreender as diferengas internas a nagao como uma riqueza cultural. A0 mesmo tempo, diversidade e multiculturalismo se construiram como um adendo ou reforma das instituigoes sem problematiza-las mais profundamente, apenas disseminando o valor da tolerancia a diferenga. Vale sublinhar que tolerar a diversi- dade é muito diferente de a acolher, deixar-se influenciar e se transformar por ela. No inicio da década de 1990, comegaram a surgir as criticas, dentre as quais destaco a forma como a diversidade se baseia em uma concepgio de cultura frégil e estatica assim como compre- ende horizontalmente as relagoes de poder den- tro de uma naqao. Culturas nio sao estaticas tampouco 0 poder existe sem hierarquias e con- flitos, portanto a diversidade e o multicultura- lismo se revelam incapazes de superar a proble- mética para a qual foram criados. Eles buscavam materializar o que alguns chamaram — ironica- mente — de “politica do arco—1'ris”: a utopia de uma sociedade que poderia manter suas diferen- gas lado a lado, sem conflitos, negociagoes e mu- dangas na cultura como um todo.
  9. 9. social como Marx e Weber, 0s 0 conflito é parte da Vida social . ..{—- DO UNIVERSALISMO AS DIFERENQAS O universalismo pautou a construcao de de- mocracias em termos politicos em que a cida- dania foi pensada como unica porque projeta- da em uma sociedade imaginada como homogénea. A grande encarnacao dessa co- munidade imaginada foi a nacao, um constru- to historico, politico e cultural que — segundo historiadores — ganhou protagonismo a partir de fins do século 18. Nao por acaso, no mesmo periodo em que se inicia a era contemporanea e sua promessa de superacao das hierarquias do Velho Regime. Algumas das primeiras feministas, como Olympe de Gouges e Mary Wollstonecraft, apontaram ja naquela época que o liberalismo politico se associou ao economico na afirma- cao de valores universais, como 0 de que todos sao iguais perante a lei, ja deflnindo 0 cidadao como homem. Assim, a universalidade e In} N°205 17
  10. 10. snsmo DIVERSIDADE ou DIFERENCA? sua promessa de igualdade comecou criando modalidades de cidadania ao relegar as mu- lheres a uma posicao inferior, pois nao tinham acesso a educacao, direito ao voto, ao patri- monio ou qualquer forma de autonomia indi- vidual, mesmo porque eram tuteladas do nas- cimento ate’ a morte. Os paises em que a democracia universalis- ta comecava a ser construida também tinham outras contradicées para lidar, como 0 colonia- lismo e a escravidao em suas colonias. Na pri- meira repiiblica moderna, os Estados Unidos da América, em 1848, um grupo de feministas e abolicionistas criou um manifesto conjunto intitulado “Declaracao de Sentimentos”. Suas demandas de direitos iguais sublinhavam o carater servil que a nova ordem politica reser- vava as mulheres e aos negros evidenciando que a democracia na América ainda tinha um longo caminho a construir. Mundo afora, movimentos anticolonialis- tas, feministas e abolicionistas problematiza- ram os ideais universalistas assentados no im- perialismo, na dominacao das mulheres e na escravidao. Infelizmente, tal historia nao entrou para os livros, tampouco teve a atencao devida antes da década de 1960, quando tais movimen- tos se reconfiguraram e ganharam adesao mas- siva. Foi nessa época que emergiu o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos, a cha- mada “segunda onda” do feminismo e o movi- mento homossexual. Tais movimentos tinham em comum a demanda de reconhecimento social e legal de suas diferencas, uma nova for- ma de clamar por igualdade. O movimento feminista, por exemplo, em sua primeira onda era predominantemente igualitarista. Do século 19 a primeira metade do século 20, seus principals slogans eram 0 di- reito a educacao e ao voto, os mesmos que ja eram garantidos aos homens. Alcancadas essas demandas na maior parte do mundo, a partir da década de 1960, a agenda feminista é reno- vada e volta—se para direitos que exigem reco- nhecer diferencas. Um deles é 0 da autonomia corporal, o direito de escolha sobre a contracep- cao. Em outras palavras, o movimento — desde entao — tornou—se um feminismo da diferenca. 18 N°205 Grave das Mulheres Equality) em Nova York, 29 de agosto de 1970 A luta pelo direito ao aborto assim como a do movimento homossexual pela despatolo- gizacao e descriminalizacao do desejo por pessoas do mesmo sexo contribuiram para flssurar o mito da nacao como uma comuni— dade reprodutiva. A sociedade que, desde a invencao da pflula, comecara a separar 0 sexo da reproducao e cujas demandas politicas de negros envolviam o direito ao casamento in- ter—racial, se deparava com um cenario novo na esfera das relacoes de género, sexualidade e, inclusive, étnico-raciais. Desde entao, 0 mi- to da homogeneidade cultural e politica nao cessou de ser cada vez mais problematizado, e nao apenas nos paises centrais. pela Igualdade (Women's Strike for
  11. 11. (1 l ‘ O u FOTO DIANA DAVIES AS DIFERENQAS NO BRASIL Na época em que emergem as discussoes teoricas, conceituais e legais recentes para lidar com os limites do universalismo, o Brasil vivenciava a ruptura com seu passado autoritario e a expectativa de construir uma democracia baseada na Constituicao de 1988. N510 tardou para que a li- berdade permitisse que vozes abafadas durante o Regime Militar (1964- 1985) comecassem a se articular em torno de demandas de reconheci— mento. Refiro-me aqui a reorganizacao de movimentos sociais, em especial o feminista, o negro e o que viria a se denominar de LGBT, os quais criaram novas pautas e formas de atuacao. Foram esses movimentos que pouco a pouco fissuraram mitos sobre a nacao brasileira que escon- diam ou minoravam as divergéncias sobre a representacao historicamente construida de que ela seria conciliatoria, pacifica e, sobretudo, justa. Ha décadas era fato mundialmente conhecido de que temos uma das piores distribuicoes de renda do mundo, mas até recentemente perma- neciam insuficientemente problematizadas outras formas de desigual- dade. Na academia, até a mais evidente, a desigualdade étnico-racial, tendeu a ser abordada como questao economica ou de “integracao” por muitas décadas. E, mesmo no presente, gera divergéncias acaloradas entre intelectuais que insistem em salvar o mito da democracia racial e aqueles que propoem pensar em outros termos a forma como a sociedade brasi- leira efetiva e cotidianamente lida com diferencas étnico-raciais. As di- vergéncias tem pendido para seu reconhecimento em politicas como as acoes afirmativas no ensino superior e em concursos publicos. A pauta de direitos das mulheres também tem sido bem sucedida. A luta feminista alcancou vito’rias admiraveis, as quais modificaram a or- dem institucional, politica, mas também cultural. Ha evidéncias empi- ricas de melhoras de indicadores de igualdade entre mulheres e homens, como a aprovacio da Lei Maria da Penha que pune a violéncia contra mulheres, mas nao foi aprovada a descriminalizacao do aborto. A des- peito dos sucessos, a agenda feminista precisa se manter e incrementar politicas publicas para alcancar seus objetivos, o que — no ritmo atual — ainda pode levar algumas décadas. A problematica das diferencas que ainda gera mais resisténcia e’ a da sexualidade e do género. As pautas LGBT geram formas flagran- tes de desqualificacao de setores conservadores tornando evidente algo que a sociedade brasi- leira nunca reconheceu: seu moralismo. O mito da liberalidade sexual esconde nao apenas o preconceito contra expressées do desejo por pessoas do mesmo sexo, mas também de dis- sidéncias de género ou de demandas de auto- nomia contraceptiva. O discurso conservador de suposta defesa da familia mal encobre 0 desejo de manter os privilégios dos homens assim como a ordem que os privilegia. As conquistas e resisténcias brevemente descritas acima demonstram que, a partir da década de 1990, nosso pais entrou em sintonia com as discussoes internacionais. A maioria dos programas estatais adotaram o termo di- versidade e 0 uso de referéncias ao multicul- turalismo para descrever iniciativas para lidar com as recentes demandas por reconhecimen- to e direitos. Infelizmente, taladoc: "1o vocabu- lar tendeu a ser feita de forma acritica e se disseminou, sem o devido debate, até mesmo nos movimentos sociais. Lutas politicas exigem reconhecer e pro- blematizar 0 vocabulario em que se dao. No caso, contrapondo a retérica da diversidade e do multiculturalismo a perspectiva das dife- rencas, do reconhecimento da existéncia de conflitos e desigualdades que exigem a trans- formacao social e politica de nossa sociedade. A perspectiva das diferencas, afinada com as demandas historicas dos movimentos sociais, propoe repensar a nacao brasileira como ainda a compreendemos e, neste exercicio cultural e politico, refletir sobre como reformar a cida- dania, de maneira que ela nao seja apenas dis- ponivel a alguns, antes suficientemente demo- cratica para abarcar a todos e todas. Ii
  12. 12. l/ iulher, lésbica, feminista, queer, hegeliana, pos-estruturalista, judia, norte-americana, filosola, eclética. .. ha inumeras identidades possiveis para ciassificar Judith Butler e todas performatizam o eixo principal de seu pensamento: néo é possivel reduzir o sujeito a uma identidade sem iimité—| o. Também néo é possivel encerrar Butler em uma categoria sem limité-la. N 205 21
  13. 13. ENTREVISTA JUDlTH BUTLER pensamento para muito além das questoes de género, pelas quais se notabilizou por aqui desde a traducao, em 2003, de Problemas de ge- nero: femim'5mo e subversao da identidade. Quadros de guerra: quando a Vida é passive] de luto? , pela Civilizacao Brasileira, e Relatar a 5i mesmo: crztzca da violéncia ética, pela Auténtica seus leitores franceses —, a materialidade dos corpos nao havia ocupado tamanha centralidade no pensamento filosoflco. SE CORPOS PERFORMATlZAM GENEROS A PARTIR DE UMA ESTRUTURA DE REPETicAo QUE CONTEM NELA MESMA A PossiBiuDADE DE TRANSGRESSAO, CORPOS TAMBEM INDICAM A coNDi<; Ao PRECARJA DA VIDA
  14. 14. Nesse sentido, Bodies that matter: on the discursive limits of sex, escrito em grande me- dida para responder a diferentes criticas ‘a pro- posicao de compreender tanto sexo quanto género como um sistema discursivo que se ins- creve sobre os corpos tidos apenas como biolo- gicos, pode ser considerado um ponto a partir do qual Butler também se inscreve na histéria da filosofia como a pensadora contemporanea de um “verdadeiro momento filosc'>fico”, expres- 5510 do francés Patrice Maniglier para se referir nao apenas a uma época, mas a um pensamento que demanda incessantemente ser relido e re- tomado. Entender sexo/ género/ desejo como um sistema discursivo que opera a diferenca sexual levou o pensamento de Butler ao estatuto de paradigma da critica a heteronormatividade. Tem sido assim desde a publicacao de Problemas de género, livro que fez de Butler uma das expoentes da teoria queer, tao bem definida por Vladimir Safatle no posfacio a Relatar a 51' mesmo como um pensamento que “toma como identificacao de si o que parece expulso da reproducao normal da Vida”. Se cor- pos performatizam géneros a partir de uma estrutura de repeticao que contém nela mesma a possibilidade de transgressao, corpos também indicam a condicao precaria da Vida, tema de Quadros de guerra (mas também de Precarious life: the power of mourning and violence, titulo que o antecede). Escrito no contexto do debate norte-americano sobre a guerra contra o Iraque e as praticas de tortura nas prisoes de Guantanamo e Abu Ghraib, Quadros de guerra também diz respeito ao pfiblico brasileiro ainda estarrecido com o episodio recente de um trem que destruiu o corpo de um ambulante morto nos trilhos ferroviarios do Rio de Ianeiro. Para pensar o luto como condicao de reco- nhecimento do valor de uma vida, como faz Antigona na reivindicacao do direito de enter- rar seu irmao, Butler recorre a teoria do en- quadramento do sociologo Erving Goffman a fim de indicar como a fragilidade dos corpos diante dos aparatos estatais de poder e das imposicoes de normas de género — a rigor, in- dissociaveis — sao resultado da construcao do nosso olhar sobre violéncia fisica a partir de marcas biologicas restritas por categorias iden- titarias e heteronormativas. A filésofa cuja tese de doutorado e’ sobre a recepcao francesa do pensamento de Hegel no século 20 faz parte também de uma retomada da filosofia politica a partir daquilo que poderia apontar para o seu fim: a derrocada da centralidade do conceito de luta de classes a partir do triunfalismo dos discursos de f1m da historia e a emergéncia das poli- ticas da diferenca. O esgotamento das politicas da diferenca — para usar uma expressao cara a Vladimir Safatle, principal expoente do debate com a filosofa no Brasil — faz Butler retomar o conceito hegeliano de reconhecimento, central na discussao sobre direitos. Da violéncia normativa de género se chega ao tema da violéncia ética discutida em Relatar a si mesmo, mais um dos lancamentos edi- toriais que, além de suprirem o longo espaco de mais de uma década desde a primeira traducao de Butler em portugués, se Valem da sua primeira Vinda ao Brasil para renovar o interesse por sua obra. O livro parte de um diagnostico de que as mudancas nas normas sociais nos fizeram chegar a um ambiente de niilismo moral a partir do qual so se pode recuar. Num clima de histeria nao muito diferente do que se pode assistir no Congresso Nacional dominado por forcas religiosas, preva- leceria a ideia de que a garantia dos direitos homossexuais e’ a abertura de uma porta para o inferno da auséncia de norma, cujo pecado maior estaria em nao poder ser universalizavel. A disjuntiva entre universal e particular é o eixo da discussao ética de Butler, que retoma a critica de Nietzsche e Foucault a Kant, para quem o fundamento da moralidade é a autonomia da vontade do sujeito moral. Ora, argumentariam os criticos, se com Hegel e a partir dele, o sujeito perde a possibilidade de se afirmar enquanto tal, uma “falha ética” ad- Vinda desse sujeito partido por uma diferenca intrinseca contaminaria todo o fundamento da moralidade. Ia para Butler, o que é considerado falha pode “muito bem ter uma importancia e um valor ético que ainda nao foram corretamente determinados por aqueles que equiparam, de maneira muito apressada, o pos-estruturalismo com o niilismo moral”. Em outras palavras, o questionamento da norma nao é sua destruicao, mas a busca por normas que melhor nos sirvam. Com essa formulacao, trabalha—se pela ampliacao da universalidade até um ponto impossivel, como Butler diz nessa entrevista a CULT, concedida como parte da recepcao da filosofa no Brasil, onde faz con- feréncias na UFBA, na UFSCar, e no I Seminario Queer — Cultura e Subversoes das Identidades: “Sinto que ainda nao alcancamos um con- ceito do universal que realmente inclua todas as populacoes que, por direito, desejam ser representadas dentro de seus termos. A conquista talvez seja impossivel, mas é um ideal em direcao ao qual lutamos. E essa luta é historica”. ---j»
  15. 15. ESPECIAL QUEER ENTREVISTA JUDITH BUTLER EU ENTENDO QUE HAJA GRAvI’ssIIvIAs E CONSEQUENTES HIERAROUIAS RACIAIS NO BRASIL QUE NOS MOSTRAM QUE UMA DAS FORMAS LETAIS QUE O RACISMO ASSUME E Q PODER DE ESTABELECER CRITERIOS QUE DETERMINAM QUAIS VIDAS SAQ MERECEDORAS DE AMPARO, E QUAIS SAQ DIsPEIIsAvEIs, "NAQ LAMENTAVEIS” I Existe uma gama ampla de pesquisas relacionadas ao seu tra- balho tanto no Brasil como na America Latina. Ha mais de dez anos que os estudos sobre sexualidade e género em areas como antropo- logia, sociologia e filosofia tém investigado assuntos como perfor- mance, interatividade e parodia. Vocé tem consciéncia da repercus- sio das suas ideias no Brasil? JUDITH BUTLER Eu tenho alguma nocao acerca da repercussao do meu trabalho no Brasil, porque as pessoas me mandam noticias, livros, videos de performances. Eu vejo que mesmo agora, hoje, existem ma- neiras em que a performance e’ central para as demonstracoes publicas, o exercicio da liberdade de género e também para a liberdade de reunir- —se em assembleia. Eu tenho acompanhado a traducao de alguns dos meus livros para o portugués, e tem sido muito animador ouvir tanto de estudiosos quanto de ativistas que derivam algo desse trabalho. H Durante os Iiltimos dez anos, Problemas degénermfeminismo e subversfio da identidade era 0 seu linico livro publicado no Brasil — o que limitou a pesquisa sobre seu trabalho a um foco muito especifico do debate sobre género. Assuntos da sua filosofia politica, como as politicas de identidade, precariedade de vida e reconhecimento pode- riam dar aos pesquisadores uma compreensao mais ampla de suas ideias. Vocé pretende falar sobre esses temas durante as suas confe- réncias no Brasil? JUDITH Eu pretendo, sim, falar sobre politica corporal, sobre a impor- tancia de corpos reunidos, o porqué de podermos pensar a performa- tividade nao so como algo que uma pessoa faz, mas também como algo encenado no coletivo. Eu pretendo demonstrar que meu trabalho sobre performatividade de género esta ligado a politica de precariedade sobre a qual tenho pensado nos ultimos anos. Afinal, ainda que tenhamos que lutar por liberdades individuais, temos que pensar o lugar de corpos atuantes e de corpos movendo-se livremente dentro de uma democracia. A meu Ver, nao existe democracia sem assembleia, e nenhuma assem- bleia sem uma forma plural e consubstancial de performatividade. 24 N°205 I Atualmente tramita no Congresso Nacional um projeto de lei que pretende res- tringir o conceito de familia aos casais hete- rossexuais e seus filhos. Na sua opiniéo, seu livro O clamor de Ant1’gona: parentesco entre a Vida e a morte pode nos ajudar a encarar essa posicio conservadora? JUDITH Meu livro e’ apenas uma contribuicao a um amplo debate sobre parentesco que esta acontecendo pelo mundo todo. No Brasil, cer- tamente, mas também na Polonia, na Franca. Eu acredito que esses esforcos para “definir” a familia em sua forma restrita, heterossexual e matrimonial, para fazer com que criancas sejam derivadas biologica ou legalmente do casal heterossexual é uma tentativa de frear movimentos sociais e novas formas de paren- tesco que estao lentamente se tornando :1 nor- ma. Tais definicoes estabelecem obstaculos para que todo tipo de pessoa, casada ou sol- teira, hétero, gay, lésbica, bissexual ou trans consiga estabelecer lacos intimos dentro dos termos da lei. Neste sentido, eles nao estao definindo nada, apenas usando 0 poder da definicao legal enquanto obstrucio. Meu livro é uma pequena e académica contribuicao para um debate muito mais amplo e urgente. --§
  16. 16. ESPECIAL QUEER ENTREVISTA JUDITH BUTLER IN Em Quadros de guerra: quando a Vida é passivel de luto? , Vocé politiza a importancia do luto publico por vidas perdidas. De 2005 a 2014, 5132 pessoas foram mortas por policiais na cidade do Rio de Ianeiro, a maioria jovens, negros e moradores de favelas. Como suas ideias sobre guerra podem ser estendidas a outras situacoes de violéncia? JUDITH Acho que também devemos atentar ao modo com que vulnerabilidade e precariedade estao diferencialmente distribuidas, estabele- cendo populacoes inteiras como “nao lamen- taveis”. O movimento Black Lives Matter, nos EUA, torna clara a maneira com que as Vidas negras sao facilmente “dispensadas”, seja por falta de amparo social ou pela violéncia poli- cial irrestrita. Eu entendo que haja gravissimas e consequentes hierarquias raciais no Brasil que nos mostram que uma das formas letais que o racismo assume é o poder de estabelecer critérios que determinam quais Vidas sao me- recedoras de amparo, e quais sao dispensaveis, “nao lamentaveis”. Faz sentido para mim que haja raiva, politicamente justificada, diante dessa forma de poder. Em Relatar a 51' mesmo: critica da vio- lencia ética, Vocé defende uma mudanca na concepcao de que estamos vivendo num nii- lismo moral. Fale um pouco sobre isso. JUDITH Bem, nao tenho certeza do que os con- servadores estao colocando, mas aqui estao alguns pontos. Algumas pessoas acreditam que uma mudanca nas normas sociais ira produzir uma forma de niilismo moral. Se existe 0 ca- samento gay, on se é assegurado as pessoas trans o direito de mover-se e viver como quei- ram, isso levara ao “niilismo moral”. A Igreja Catolica em algum momento colocou que, se a homossexualidade for “aprovada”, o que nos deixaria de “aprovar” o sexo com animais, ar- vores etc. ? Sao todos argumentos histéricos que se recusam a aceitar as mudancas profundas que ocorrem nas normas que ditam sexualida- de e género. Existem outros, na regiao da filo- sofia, que dizem que devemos agir como se as nossas acoes fossem universalizaveis. Esses sao os kantianos. Ainda assim, minha tréplica é 26 N°205 que agimos dentro de nossa situacao historica. Até nossa capacidade de agir esta historicamente condicionada e estruturada (nao determinadal). Sinto que ainda nao alcancamos um conceito do universal que realmente inclua todas as populacoes que, com direito, desejam ser representadas dentro de seus termos. A conquista talvez seja impossivel, mas é um ideal em direcao ao qual lutamos. E essa luta é historica. Muitos filosofos, especialmente Hegel, mas também Foucault e Derrida, tém influenciado seu trabalho. Vocé pode fazer uma pe- quena selecao de mulheres pensadoras que a influenciaram? JUDITH Simone de Beauvoir foi muito importante para mim. Foi ela quem me deu, quem deu pra tantos de nos, a formulacao “Nao se nasce mulher, torna-se uma”. E Monique Wittig, que deu a Beauvoir uma leitura original, perguntou se, de fato, qualquer um de nos precisa se tornar mulher, e quais os riscos de habitar essa categoria. Eu também fui profundamente influenciada pela historiadora Joan Scott, a filosofa politica Chantal Mouffe, as escritoras Susan Sontag e Anne Carson, e mais recentemente pelos trabalhos de Simone Weil e Hannah Arendt. Arendt me deu uma maneira de revisar minha antiga teoria de género performativo (mesmo que ela provavelmente detestasse a nocao de género). Ela oferece um caminho para pensar a politica como necessi- tando de acoes plurals e consubstanciais, e isso me parece um jeito importante de pensar a performatividade de género com a performa- tividade do politico. Enquanto feminista, ja li muitas grandes autoras que me influenciaram, incluindo Gayle Rubin, Angela Davis e Bernice Johnson Reagon, para mencionar so algumas. Talvez sejam meus alu- nos que me afetem mais, desafiando as minhas ideias, provocando-me a conhecer o presente. rRAI: sucAo PEDRO KOBERLE X. PERGUNTA SOBRE SEXO (---) Ele tinha quatorze anos. Sexo é um modo de conhecer outra pessoa, disse Heracles. Ele tinha dezesseis anos. As partes quentes e desencontradas da pergunta lambiam cada fresta de Geryon, ele as estancou deixando escapar um riso nervoso. Héracles olhou. mas as palavras sairam erradas — E verdade que Vocé pensa em sexo ‘ tempo todo? O corpo de Heracles enrij - Isso nae é uma pergunt acusagdo. Algo escu entre eles como u ' Heracles ligou Siléncio, de repente. em frente a Ta tudo bem, disse Heracles. Sua voz Sem set lavou mas " e abriu Geryon. co Me conta uma coisa, disse Geryon, querendo perguntar As pessoas que gostam de sexo também tern perguntas sobre s
  17. 17. ‘ RESENHAS JUDITH BUTLER, cQIIDIg; oES DE VIDA E O HORIZONTE DO REPRESENTAVEL PEDRO PAULO GOMES PEREIRA RELATAR A SI MESMO udith Butler é uma das mais instigantes Desde Problemas degénero: femim'smo e subversao da identidade, Butler intelectuais da atualidade e Vem trilhando enfrentou uma critica sobre certa pressuposicao da presenca, em seus uma trajetoria impar, com contribuicoes trabalhos, de um sujeito autonomo e soberano de seus atos e desejos. incontornaveis em diversas areas do co- Em direcao contraria a essa critica, diversos e reiterados textos de nhecimento. Constante em sua obra é sua ca- Butler revelam como o sujeito esta comprometido com o poder e que pacidade de ser afetada pelos encontros, enga- sua acao é, simultaneamente, interna e externa ao poder. Sendo assim, jamentos e debates, produzindo reflexoes em a capacidade de acao nao pode ser imaginada a partir da perspectiva torno das indagacoes que surgem dos aconte- de um sujeito voluntarista, livre para escolher irrestritamente. Butler cimentos. No Brasil, poderemos acompanhar Volta a esse tema em Relatar a 5i mesmo — livro composto por textos mais de perto esse percurso comolancamento que surgiram em 2002, nas Conferéncias Spinoza realizadas na de dois de seus livros: Relatar a si mesmo: crz'- Universidade de Amsterda. O tema central é a ideia de que, para sermos tica da Violéncia ética (Auténtica Editora) e inteligiveis, devemos estar fora de nos mesmos, pois somos constituidos Quadros deguerra: quando a Vida épassivel de pelos outros — cercados por convencoes e regras que nos afetam, de- luto (Civilizacao Brasileira). pendemos dos outros para viver. Por todo o livro, a autora vai dese- { 2s N°205
  18. 18. condicoes sociais e as normas estabelecem um campo de falta de liber- dade e de possibilidade no qual nossas historias sao narradas. A persistente tendéncia a naturalizacao de um sujeito autonomo nao se sustenta diante do carater relacional da Vida: a vida nao pode relatar a si mesma nem discorrer sobre sua manifestacao no mundo sem consi- derar as normas sociais existentes. A relacao com o outro interpela e indaga sobre quem sou eu. E isso o que define e conforma o sujeito, que se constitui nesse contexto de interpelacao e de indagacao das possibili- dades de uma relacao moral. O que une uma politica critica a uma ética e a uma moral que, por momentos, exige relatar a si em primeira pessoa? Butler responde a essa indagacao afirmando que a moral nao é apenas um sintoma nem trans- cende os quadros sociais. As questoes morals surgem quando normas de comportamento deixam de ser evidentes e ha divergéncias entre o universal e o particular. Nesse caso, 0 universal nao inclui (nem esta de acordo com) o individuo — a propria reivindicacao de universalidade nega direitos. Isso nao significa que o universalismo seja Violento por definicao, adverte Butler, mas so que existem condicoes para se exercer a violéncia. Por conseguinte, a reflexao moral nao pode ser isolada do contexto sociopolitico no qual foi formulada. A questao da ética surge nos limites de nossos esquemas de inteligibilidade, exatamente no lugar onde questionamos o significado de continuar um dialogo sem campo compartilhado. Seja la como for, ha a necessidade de reciprocar reco- nhecimento a outrem, cuja interpelacao é incontornavel. E por essa dimensao do outro e da interpelacao que Butler vai con- siderar que a pergunta basica do processo de conhecimento nao seria “em que posso converter—me? ”, mas “quem és tu? ” O “tu” seria a origem de todo perguntar. Esse movimento busca retirar 0 sujeito narcisista do centro da ética, pois se admite o outro como constitutivo de cada origem. Qualquer tentativa de relatar a si mesmo tera que assumir que ha uma opacidade intransponivel no processo e tera que aceitar a propria ficcao desse relatar. Entretanto, o reconhecimento da propria opacidade e da limitacao essencial dos sujeitos nzio deve ser percebido como fracasso da ética, mas como ponto de partida de uma ética que se afaste da violéncia, que se aparte do juizo ético condenatorio de um sujeito seguro de si que acusa o outro. Butler argumenta a favor de uma ética de responsabilidade ancorada nessa opacidade, nesse fracasso, aportada em nossa cegueira sobre nos e sobre os outros. De tal forma que se possa suspender a pretensao de sujeitos completamente coerentes. Como adiantei, na formulacao de Butler, 0 su- jeito que nao e’ autofundante, nem autotransparente, nem autonomo, nem inteiramente consciente de si. E essa concepcao de sujeito possibilita sus- tentar condutas eticamente responsaveis, porque reconhece os limites do sujeito ao mesmo tempo em que constroi disposicao para humildade e para generosidade. Deixar aberta a pergunta pelo outro é estar mais perto da Vida, ja que a Vida e’ aquilo que excede a explicacao. Ao reconhecer os li- mites intrinsecos do (re)conhecimento, a postura ética seria a de perguntar “quem és tu? ”, sem esperar algo acabado coerente. O desejo de reconhecer torna-se proximo do desejo de viver, e deixar viver, a base de toda teoria do reconhecimento. Se assim for, haveria um afastamento da vio- léncia fundamentada na seguranca de um sujei- to que acredita poder relatar a si mesmo, dar conta completamente de si e que circunscreve o outro a essa existéncia. Seguindo esse raciocinio, se a violencia é o ato no qual um sujeito procura reinstaurar seu dominio e sua unidade, a nao Violéncia pode ser decorréncia da Constante in- dagacao sobre a anterioridade e proeminéncia de minha subjetividade. A questao e sempre deixar aberto o encontro com o outro e colocar em risco 0 “en”, compreendendo a precariedade como condicao compartilhada. --'C‘ BUTLER Retatar a si mesmo (mica ua mic’-nria (‘IKE RELATAR A SI MESMO: CRITICA DA vIoLENcIA ETICA JUDITH BUTLER TRADUQAO Rogerio Bettoni Auténtica Editora R$ 39,90 0 200 pags. N°205 29
  19. 19. RESENHAS QUADROS DE GUERRA Butler ja havia refletido sobre as maneiras pelas quais certas representa- coes do humano originam seres nao considerados humanos, em Vidas precarias. Ao percorrer esse processo de demarcacao das Vidas viviveis e das descartaveis, analisando inclusive 0 papel da midia nas represen- tacoes restritivas do outro, ela indagou sobre o que nos vincula ao outro, mostrando que esse vinculo surge quando reconhecemos a precariedade como condicao compartida. Com uma introducao e cinco artigos, publicados entre 2004 e 2008, Quadros de guerra reafirma e amplia esses argumentos. Os textos abordam a guerra dos EUA contra o Iraque, a tortura dos prisioneiros em Guantanamo, refletindo sobre quais Vidas sao reconhecidas e pas- siveis de luto e quais as Vidas descartaveis, e como o aparato bélico norte-americano atua impondo uma distincao entre as Vidas que me- recem pranto e aquelas que nao podem ser lamentadas. Ha uma impossibilidade de se fazer o luto publico das Vidas nao reconhecidas — como nos casos da mencionada guerra contra o Iraque, a ocupacao israelense dos territorios palestinos ou da aids. A guerra controla e potencializa os efeitos da distribuicao desigual e politicamente induzido da precariedade, que compromete 0 status ontologico de po- pulacoes, mantendo-as como descartaveis e nao merecedoras de luto. Ao discutir a tortura como politica de Estado, a condicao de reco- nhecimento dos corpos dissidentes, a biopohtica como uma forma de controle de corpos, Butler se interroga sobre avioléncia e a possibilidade de uma ética politica que seja capaz de balizar uma critica a Violéncia de Estado e as novas formas de poder. Por todo o livro, sustenta que a politica necessita compreender a precariedade como condicao vital generalizada. A Vida entendida como Vida precaria implica dependéncia de redes e de condicoes sociais. Nossas obrigacoes surgem da ideia segundo a qual nao pode haver uma Vida Vivivel (e, portanto, suscetivel de pranto) sem am- paro, que é uma responsabilidade politica e ética. Como Butler havia sublinhado em Relatar a si mesmo, estamos todos em relacoes intensas e mutuas. Nao ha nenhum vinculo entre o eu e o outro anterior a essas relacoes — alias, 0 {mice vinculo anterior seria o que se instaura quando surge a questao ética do reconhecimento de sua humanidade. A guerra (e a tortura) mostra que somos vulneraveis a destruicao pelos demais e, por conseguinte, estamos necessitados de amparo, de protecao mediante acordos baseados no reconhecimento da precariedade compartida. Butler questiona incisivamente o papel dos meios de comunicacao dominantes na regulacao dos afetos. A midia converte-se em parte da guerra e do aparato que leva :3 destruicao populacoes que nao se en- caixam nem sao adequados ao que se imagina como humano no Ocidente. As praticas de representacao e as imagens revolveriam entre as possibilidades de humanizar e de desumanizar. A guerra se sustenta e funciona por meio da modelacao, pelas diferentes formas de expres- soes midiaticas, dos sentidos e dos afetos, ja que a midia controla o que 30 N°205 [la mesma auluia 1.» lTxIlr. ’:'I: u: .1: JUl]I'l‘}{ BU'l‘LER UlIIl]R[]. ‘:' DE [1'llERl’tI quando a Vida 2 passive] de luto? £2 QUADROS DE GUERRA: QUANDO A VIDA E PASSIVEL DE LUTO? JUDITH BUTLER TRADUQAO Sergio Tadeu cle Niemeyer Lamarao e Arnaldo Marques da Cunha Civilizacao Brasileira R$ 39,00 - 288 pags. se pode mostrar e o que se deve ocultar. As mortes anonimas sao construidas antecipada e continuamente, perfazendo um processo imagético de edificar o inumano: afinal, onde nao houvera Vida nao havera morte. Na constituicao do campo poblico do visual, a nossa capacidade de fazer transitar uma res- posta moral dependera das condicoes de recep- tividade que incluem, além de meus recursos privados, os distintos quadros e enquadramentos que constroem repetitivamente a realidade e circunscrevem os horizontes de sentido. A em- preitada incide, assim, em constituir maneiras publicas de olhar e escutar que reavivem e esti- mulem os sentidos da precariedade do outro, proporcionando meios interpretativos para com- preensao da guerra que interroguem as interpre- tacoes dominantes e se contraponham a elas. O quadro (ou o enquadramento) que pre- tende determinar como e o que se Vé tem que circular a fim de estabelecer sua hegemonia. Como nas performances de género, essa
  20. 20. circulagéo apresenta o carater historicamente contingente do quadro (com suas exposiqées e ocultamentos), revelando-o como enganoso, abrindo possibilidades insurgentes. Isso pode ser observado quando prisioneiros de Guantanamo escreveram poemas: nesses poemas ha tragos de uma cultura poética que perfaz movimento contra o poder estatal. A divulgaqéo da poesia de Guantanamo, a circulagéo de fotos da guerra e a imagem digital fora dos muros de Abu Ghraib sinalizam que a circulaqao do texto e da imagem por fora de seu confinamento oferece condigoes para outro tipo de resposta moral. A camera instiga, demarca, orquestra o ato de tortura e, concomi- tantemente, capta sua consumagéo. Mas a circulagao de imagens per- mite romper com esse quadro, com essas formas de enquadramento. Nossa capacidade de resposta afetiva pode se compor dentro de uma matriz de poder, mas isso néo significa que necessitemos reproduzir essa matriz. A circulagao e sua reprodutibilidade fazem-no falivel, vul- nerével 2; inverséo e a subversao. De maneira que as imagens e os textos podem construir diversos afetos, como a indiferenga, mas também como a solidariedade. EM TORNO DA VIDA Estes comentarios nem de longe fazem justigta ‘a riqueza da argumentagao, aos diélogos com a teoria social e ao estilo de Butler, que apresenta, in- daga e provoca. Espero, contudo, que sejam suficientes para mostrar a Constante interrogagéo critica sobre os contextos que fazem as Vidas inteligiveis e passiveis de pensamento e afetos. E suficientes também para delinear algo do movimento de Butler em torno das condi<;6es de vida e do horizonte do representével. Tanto Relatar a 51' mesmo como Quadros de guerra buscam encontrar maneiras para examinar o que significa a vida em nosso tempo, e refletir sobre nossa responsabilidade. Esses livros destacam também a capacidade de Butler em trabalhar com diversas teorias (que surgem como partes de um dialogo e de um processo argumentativo) sem subserviéncia, produzindo algo a mais e diferente. 0 lanqamento desses livros, os relangamentos jé programa- dos, e a visita de Butler ao Brasil para participar de eventos dos mais importantes, podem nos levar a questionar: se optarmos por seguir o proprio movimento de Butler, como ler no Brasil, sem subserviéncia, a autora de Problemas de género? E se um de seus ensinamentos é 0 de, no diélogo, produzir algo que Va além, como desviar de simplesmente aplicar uma teoria que fora formulada, evitando apenas a repetiqao? E também: se esses livros nos mostram afetos e afecgées produzidos e acentuados nos eventos e nos dialogos, nas interpelagoes dos encontros, o que podemos esperar com a passagem de Butler no Brasil? Como ela sera afetada por mais esse encontro? Como se abriré aos Outros aqui nos tropicos? Enfim, perguntas, livros, eventos, dialogos que compéem momento impar para reflexao.
  21. 21. V ESPECIAL QUEER RESENHAS Em O clamor de Antigona. ‘ parentesco entre a Vida e a morte, Judith Butler discute o ”cara'ter contingente do parentesco” o CLAMOR DE ANTIGONA: PARENTESCO ENTRE A VIDA E A MORTE JUDITH BUTLER Editora UFSC R$ 28,00 0 128 pégs. 32 N°205 DA FAM| 'L| A AO PARENTESCO CARLA RODRIGUES ramita no Congresso Nacional um projeto de lei — PL 6583/13 — que trata do Estatuto da Familia, instrumento conservador cujo objetivo é definir que tipo de agrupamento de pessoas pode ser denominado como familia. Na contramao da Vida real — em que familias se organizam para além dos lacos sanguineos, se vinculam em redes extensas, se reconfiguram a partir de novas unioes —, o projeto pretende limitar a familia ao modelo heterossexual e proibir a adocao de criancas por casas homoafetivos. E contra esse tipo de discurso conservador que 0 clamor de Antigona: parentesco entre a Vida e a morte (Editora UFSC, 2014), da filosofa Judith Butler, se insurge. A partir de uma interpretacao original da peca de Sofocles, Butler revisita as leituras de Hegel e Lacan para localizar na personagem tragica de Antigona a possibilidade de dissociar familia e parentesco. O argumento para essa separacao vem da percepcao de que a narrativa da luta de Antigona para enterrar Polinices foi inumeras vezes lida sem que se tenha observado o amor dela por seu irmao. A Butler vai interessar o que ela chama de “carater contingente do parentesco”, insistindo que todas as interpretacoes da peca contornam 0 fato de que Antigona é filha de uma relacao incestuosa: Edipo é, ao mesmo tempo, pai e irmao de Antigona, e ambos sao filhos de Jocasta. so isso, argumenta Butler, ja a impediria de ocupar 0 lugar de representante de leis de parentesco ordenadas pelo tabu do incesto. No entanto, na leitura de Hegel, Antigona encarna a passagem da lei singular e familiar para a lei universal e publica, e em Lacan, Antigona encarna a lei do desejo, sem chegar a perturbar os arranjos familiares que representa. Nesse ponto, Butler recorre a antropéloga feminista Gayle Rubin para repensar o tabu do incesto como centro fundador das estruturas elementares do parentesco pensadas por Le’vi~Strauss. Na antropologia estruturalista de Lévi~Strauss, a proibicao do incesto funciona como centro das estruturas elementares de parentesco. Rubin percebe ai um aspecto que sera fundamental para o argumento de Butler: na estrutura de parentesco pensada por Lévi—Strauss, 0 género se estabelece para a orientacao do desejo sexual, sempre dirigido ao outro sexo. Mulheres submetidas ao sistema de trocas e homossexuais sao oprimidos em prol da ordem que deriva do mesmo sistema. Butler faz ecoar uma pergunta de George Steiner — autor de Antzjgonas, amplo estudo sobre as inumeras interpretacoes da peca de
  22. 22. Sofocles na historia do pensamento — e questiona o que teria acontecido se 0 mito fundador da psicanélise freudiana fosse Antigona, e nao Edipo. As hipoteses de resposta apontam para a possibilidade, segundo Butler, de desconstruir a normatividade da familia heterossexual e pensar que a funcao do tabu do incesto é instituir um padréo fora da norma do qual a norma depende para se estabelecer. Nesse sentido, nao reconhecer como relacoes familiares determinadas relacées de parentesco funciona como a estratégia necessaria para afirmar uma normatividade a partir daquilo que nao se enquadra no padrao normativo. E na rejeicio — ou no nao reconhecimento do diferente — que a norma se impée sobre os sujeitos. Em outras palavras, para que haja uma lei universal, é preciso que seja criada também 0 fora-da—lei, so a partir do qual a lei sera assegurada. E nesse movimento que se pode identificar 0 PL 6583/13, cuja definicao do que seja familia depende de tornar abjeto todas as outras formas de parentesco, ja que seu unico proposito passa a ser afirmar o que nao cabe no conceito de familia. BIBLIOTECA QUEER Fplsu-11:01.03“ do Amurlu EPISTEMOLOGIA DO ARMARIO EVE KOSOFSKY SEDGWICK Ana R. Luis e Fernando Matos de Oliveira Marfim Angelus Novus R$ 38,70 40 pégs. nu-A1 w-. Publicado nos EUA em 2000, O clamor de Antigona contém os tracos de algumas obras posteriores de Butler, como Precarious life ou Quadros de guerra, este em lancamento pela Civilizacio Brasileira. No debate que a autora estabelece sobre quais sao as Vidas passiveis de luto, Antigona simboliza a luta de uma mulher por um enterro digno ao seu irmao, ou seja, a afirmacao de que a condicao para que uma Vida tenha Valor inclui a possibilidade de que esta Vida seja enlutada. Dois temas que mostram a atualidade da filosofia de Butler e sua pertinen- cia no contexto brasileiro de Violéncia, seja ins- titucional, como na proposta parlamentar, seja na experiéncia cotidiana a cada dia mais mar- cada pelo desprezo a Vida do outro. PROBLEMAS DE GENERO: FEMINISMO E SUBVERSAO DA IDENTIDADE JUD| TH BUTLER Renato Aguiar Sujeito e Historia Civilizagéo Brasileira R$ 39,00 288 pégs. E UM CORPO ESTRANHO: NOSSOS CORPOS TAMBEM MUDAM: ENSAIOS SOBRE SEXUALIDADE A INVENCAO DAS CATEGORIAS E TEORIA QUEER TRAVESTI E "TRANSEXUAL" c, uAc| RA Lopes | _ouRo NO DISCURSO CIENTIFICO Auténtica Editora JORGE LEITE JUNIOR R$ 32,00 96 pégs. Queer Editora Annablume Prego sob consulta 350 pégs. R$ 46,00 214 pégs. A REINVENQAO DO CORPO: O DESEJO DA MACAO: SEXUALIDADE E GENERO MASCULINIDADE E BRANQUITUDE NA EXPERIENCIA TRANSEXUAL NO BRASIL DE FINS DO XIX BERENlCE BENTO RICHARD M| SKOLC| Ciéncias Socials Queer Editora da UFRN Editora Annablume R$ 51,75 208 pégs.

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