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Comentário Bìblico Broadman vol. 02

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Comentário Bìblico Broadman vol. 02

  1. 1. Volume2 ComentárioBíblicoBroadman
  2. 2. Comentário Bíblico Broadman Volume2 Levítico-Rute Tradução deArthurAnthonyBoome
  3. 3. Todososdireitosreservados. Copyright © 1994da Juntade Educação Religiosae Publi­ caçõesdaConvençãoBatistaBrasileira.Direitoscedidos,mediantecontrato,porBroadman Press, Nashville, Tennessee, USA. Copyright © 1969by Broadman Press. Allen, Clifton J., ed. ger. A425c ComentárioBíblicoBroadman/EditadoporCliftonJ.Alien.Tradução de Arthur Anthony Boorne. 2. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1994. v. 2. 552p. 23 cm. TituloOriginal: The Broadman Bible Commentary 1. Bíblia — Velho Testamento —Comentários. 2. Velho Testamento —Comentários. I. Titulo CDD — 220.7 Coordenação Editorial Josemar de Souza Pinto Edição de Arte Nilcéa Pinheiro Capas Valter Karklis ISBN 85-350-0041-0 Código para pedidos: 215031 Junta de Educação Religiosae Publicações da Convenção Batista Brasileira Caixa Postal 320 —CEP: 20001-970 Rua SilvaVale, 781 —Cavalcânti —CEP: 21370-360 Rio de Janeiro, RJ —Brasil 3.000/1994 Impresso em gráficas próprias.
  4. 4. COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN Volume 2 JuntaEditorial EDITOR GERAL Clifton ]. Allen, Ex-Secretário Editorial da Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Editores Consultores doVelhoTestamento John I. Durham, ProfessorAssociado de Interpretação doVelho Testamen­ toeAdministrador Adjunto do Presidente do Seminário Batista do Sudoes­ te, Wake Forest, North Carolina, Estados Unidos. RoyL. Honeycutt Jr., Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminá­ rio Batista do Centro-Oeste, Kansas City, Missouri, Estados Unidos. Editores Consultores do NovoTestamento J. W. MacGorman, Professor de Novo Testamento, Seminário Batista do Sudoeste, Forth Worth, Texas, Estados Unidos. Frank Stagg, Professor de Novo Testamento da James Buchanan Harrison, SeminárioBatista do Sul, Louisville, Kentucky, Estados Unidos. CONSULTORES EDITORIAIS Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta de Escolas Dominicais da Convenção Batista do Sul, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. William J. Fallis, Editor Chefe de Publicações Gerais da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos. Joseph F. Green, Editor de Livros de Estudo Bíblico da Broadman Press, Nashville, Tennessee, Estados Unidos.
  5. 5. Junta deConsultores Clifton I. Alien, ex-Secretário Editorial, Junta Batista de Escolas Dominicais da SBC J. P. Alien, Pastor, Igreja Batista de Broadway, Forth Worth JohnE. Barnes, Jr., Pastor, Igreja Batis­ ta deMain Street, Hattiesburg Olin T. Binkley, Presidente, Seminário Teológico Batista do Sudeste, Wake Forest, North Carolina WilliamJ. Brown, Gerente, Departamen­ to Oriental, Livrarias Batistas, Junta Batista de Escolas Dominicais John R. Claypool, Pastor, Igreja Batista deCrescentHill, Louisville, Kentucky Howard P. Colson, Secretário Editorial, Junta Batista de Escolas Dominicais ChaunceyR. Daley, Jr., Editor, Western Recorder, Middletown, Kentucky Joseph R. Estes, Secretário, Departa­ mento de Obra Relacionada aos Não- evangélicos, Junta Batista de Missões Nacionais da Southern Baptist Con­ vention William J. Fallis, Editor-Chefe, Livros Religiososem Geral, Broadman Press Allen W. Graves, Deão, Escola de Edu­ cação Religiosa, Seminário Teológico Batista do Sul, Louisville, Kentucky Joseph F. Green, Editor, Livros de Estu­ doBíblico, Broadman Press Ralph A. Herring, ex-Diretor, Departa­ mento de Extensão Seminarial, Con­ venção Batista do Sul Herschel H. Hobbs, Pastor, Primeira Igreja Batista, Oklahoma City Warren C. Hultgren, Pastor, Primeira Igreja Batista, Tulsa Lamar Jackson, Pastor, Igreja Batista Meridional, Birmingham L. D. Johnson, Capelão, Universidade Furman J. Hardee Kennedy, Professor de Velho Testamento e Hebraico, Seminário Teológico Batista de NewOrleans HermanL. King, Diretor, Divisão de Pu­ blicação, Junta Batista de Escolas Dominicais da SBC William W. Lancaster, Pastor, Primeira Igreja Batista, Decatur, Georgia Randall Lolley, Pastor, Primeira Igreja Batista, Winston-Salem C. DeWitt Mathews, Professor de Prega­ ção, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste John P. Newport, Professor de Filosofia da Religião, Seminário Teológico Ba­ tista do Sudoeste Lucius M. Polhill, ex-Secretário Exe­ cutivo, Associação Geral Batista de Virgínia Porter Routh, Secretário Executivo Te­ soureiro, Comissão Executiva, Con­ venção Batista do Sul John L. Slaughter, ex-Pastor, Primeira Igreja Batista, Spartanburg R.HoustonSmith, Pastor, Primeira Igre­ ja Batista, Pineville, Louisiana James L. Sullivan, Secretário Executivo, Junta Batista de Escolas Dominicais Ray Summers, Presidente, Departamen­ to de Religião, Universidade de Bay­ lor Charles A. Trentham, Pastor, Primeira Igreja Batista, Knoxville Keith von Hagen, Diretor, Divisão de Livraria, Junta Batista de Escolas Dominicais J. R. White, Pastor, Primeira Igreja Ba­ tista, Montgomery Conrad Willard, Pastor, Igreja Batista Central, Miami Kyle M. Yates, Jr., Professor de Reli­ gião, Universidade Estadual de Okla­ homa
  6. 6. Colaboradores CliftonJ. Allen, Junta Batista de Escolas Dominicais (aposentado): Artigo Ge­ ral Morris Ashcraft, Seminário Teológico Batista do Centro-Oeste: Apocalipse G. R. Beasley-Murray, Faculdade Spur­ geon, Londres: II Coríntios T. Milles Bennett, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Malaquias ReidarB. Bjornard, Seminário Teológico Batista do Norte: Ester James A. Brooks, Seminário Teológico Batista de NewOrleans:Artigo Geral Raymond Bryan Brown, Seminário Teo­ lógico Batista do Sudeste:I Coríntios John T. Bunn, Universidade Campbell: Cântico dos Cânticos; Ezequiel JosephA. Callaway, SeminárioTeológico Batista do Sul:Artigo Geral E. Luther Copeland, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudeste: Artigo Geral Bruce C. Cresson, Universidade Baylor: Obadias Edward R. Dalglish, Universidade Bay­ lor:Juizes; Naum John I. Durham, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Salmos; Artigo Geral Frank E. Eakin, Jr., Universidade de Richmond: Sofonias Clyde T. Francisco, Seminário Teológico Batista do Sul: Gênesis; I e I I Crôni­ cas; Artigo Geral D. David Garland, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Habacuque A.J. Glaze, Jr., Seminário Internacional Teológico Batista, Buenos Aires: Jo­ nas James Leo Green, Seminário Teológico Batista do Sudeste:Jeremias Emmett Willard Hamrick, Universidade de Wake Forest: Esdras; Neemias William L. Hendricks, Seminário Teoló­ gico Batista do Sudoeste: Artigo Ge­ ral E. Glenn Hinson, Seminário Teológico Batista do Sul: I e I I Timóteo; Tito; Artigo Geral Herschel H. Hobbs, Primeira Igreja Ba­ tista, Oklahoma City: I e I I Tessalo- nicenses RoyL. Honeycutt, Jr., Seminário Teoló­ gico Batista do Centro-Oeste: Êxodo; I I Reis; Oséias William E. Hull, Seminário Teológico Batista do Sul:João PageH. Kelley, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul:Isaías J. Hardee Kennedy, Seminário Teológi­ coBatista de NewOrleans: Rute; Joel Robert B. Laurin, Seminário Americano Batista do Oeste:Lamentações John William Macgorman, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Gá- latas Edward A. McDowell, Seminário Teoló­ gicoBatista do Sudeste (aposentado): I, I I eIII João Ralph P. Martin, Seminário Teológico Fuller: I Reis Dale Moody, Seminário Teológico Batis­ ta do Sul: Romanos William H. Morton, Seminário Teológi­ co Batista do Centro-Oeste:Josué Barclay M. Newman, Jr., Sociedade Bí­ blicaAmericana:Artigo Geral
  7. 7. John P. Newport, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Artigo Geral JohnJosephOwens, Seminário Teológico Batista do Sul: Números; Jó (com TateeWatts); Daniel WayneH. Peterson, Seminário Teológico Batista Golden Gate: Eclesiastes Ben F. Philbeck, Jr., Faculdade Carson- Newman:I eII Samuel William M. Pinson, Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Sudoeste: Artigo Geral Ray F. Robbins, Seminário Teológico Batista de NewOrleans: Filemom EricC. Rust, Seminário Teológico Batis- tista do Sul:Artigo Geral B. Elmo Scoggin, Seminário Teológico Batista do Sudeste: Miquéias; Artigo Geral Burlan A. Sizemore Jr., Seminário Teo­ lógico Batista do Centro-Oeste: Ar­ tigo geral David A. Smith, Universidade Furman: Ageu Ralph L. Smith, Seminário Teológico Batista do Sudoeste: Amós T. C. Smith, Universidade Furman: Atos; Artigo Geral Harold S. Songer, Seminário Teológico Batista do Sul: Tiago Frank Stagg, Seminário Teológico Ba­ tista do Sul: Mateus; Filipenses Ray Summers, Universidade Baylor: I e II Pedro; Judas; Artigo Geral Marvin E. Tate, Jr., Seminário Teológico Batista do Sul: Jó (com Owens e Watts): Provérbios Malcolm O. Tolbert, Seminário Teológi­ co Batista de NewOrleans: Lucas Charles A. Trentham, Primeira Igreja Batista, Knoxville: Hebreus; Artigo Geral Henry E. Turlington, Igreja Batista Uni­ versitária, Chapel Hill, Carolina do Norte: Marcos John S. W. Watts, Faculdade Serampo- re, Serampore, índia: Deuteronômio; Jó (com Owense Tate);Zacarias R. E. O. White, Faculdade Teológica Batista, Glasgow: Colossenses
  8. 8. Prefácio O COMENTÁRIO BÍBLICO BROADMAN apresenta um estudo bíblico atualizado, dentro do contexto de uma fé robusta na autoridade, adequação e confiabilidade da Bíblia como a Palavra de Deus. Ele procura oferecer ajuda e orientação para ocrente que está disposto a empreender o estudo da Bíblia como um alvo sério e compensador. Desta forma, os seus editores definiram o escopo e propósito do COMENTÁRIO, para produzir uma obra adequada às necessidades do estudo bíblico tanto de ministros como de leigos. As descobertas da erudição bíblica são apresentadas de forma que os leitores sem instrução teológica formal possam usá-las em seu estudo da Bíblia. As notas de rodapé e palavras são limitadas às informaçõesessenciais. Osescritoresforam cuidadosamente selecionados, tomando-se em consideração sua reverente fé cristã e seu conhecimento da verdade bíblica. Tendo em mente as necessidades de leitores em geral, os escritores apresentam informações especiais acerca da linguagem e da história onde elas possam ajudar a esclarecer o significado do texto. Elesenfrentam os problemas bíblicos — não apenas quanto à linguagem, mas quanto à doutrina e à ética — porém evitam sutilezas que tenham pouco a ver com o que devemos entender e aplicar da Bíblia. Eles expressam os seuspontos de vista e convicções pessoais. Ao mesmo tempo, apresentam opiniões alternativas, quando estas são esposadas por outros sérios e bem-informados estudantes da Bíblia. Os pontos de vista apresentados, contudo, não podem ser consideradoscomoa posiçãooficial do editor. O COMENTÁRIO é resultado de muitos anos de planejamento e preparação. A Broadman Press começou em 1958 a explorar as necessidades e possibilidades deste trabalho. Naquele ano, e de novo em 1959, líderes cristãos —especialmente pastores e professores de seminários — se reuniram, para considerar se um novo comentário era necessário e que forma deveria ter. Como resultado dessas deliberações, em 1961, ajunta de consultores que dirige a Editora autorizou a publicação de um comentário em vários volumes. Maiores planejamentos levaram, em 1966, à escolha de um editor geral e de uma Junta Consultiva. Esta junta de pastores, professores e líderes denominacionais reuniu-se em setembro de 1966, revendo os planos preliminares e fazendo definidas recomendações, que foram cumpridas à medida que oCOMENTÁRIO se foi desenvolvendo. No começo de 1967, quatro editores consultores foram escolhidos, dois para o VelhoTestamento e dois para o Novo Testamento. Sob a direção do editor geral, esseshomens trabalharam com a Broadman Press e seu pessoal, a fim de planejar o COMENTÁRIO detalhadamente. Participaram plenamente na escolha dos
  9. 9. escritores e na avaliação dos manuscritos. Deram generosamente do seu tempo e esforços, fazendo por merecer a mais alta estima e gratidão da parte dos funcionários da Editora que trabalharam com eles. Aescolhada Versão da Imprensa Bíblica Brasileira “de acordo com os melhores textos em hebraico e grego” como a Bíblia-texto para o COMENTÁRIO foi feita obviamente. Surgiu da consideração cuidadosa de possíveis alternativas, que foram plenamente discutidas pelos responsáveis pelo Departamento de Publica­ ções Gerais da Junta de Educação Religiosa e Publicações. Dada a fidelidade do texto aos originais bem assim à tradução de Almeida, amplamente difundida e amada entre os evangélicos, a escolha justifica-se plenamente. Quando a clareza assim o exigiu, foram mantidas as traduções alternativas sugeridas pelos próprios autores doscomentários. Através de todo o COMENTÁRIO, o tratamento do texto bíblico procura estabelecer uma combinação equilibrada de exegese e exposição, reconhecendo abertamente que a natureza dosvárioslivros e o espaço destinado a cada um deles modificará adequadamente a aplicação desta abordagem. Os artigos gerais que aparecem no Volume 8 têm o objetivo de prover material subsidiário, para enriquecer o entendimento do leitor acerca da natureza da Bíblia. Focalizam-se nas implicações do ensino bíblico com as áreas de adoração, deveréticoe missões mundiais da igreja. O COMENTÁRIO evita padrões teológicos contemporâneos e teorias mutáveis. Preocupa-se com as profundas realidades dos atos de Deus na vida dos ho­ mens, a sua revelação em Cristo, o seu evangelho eterno e o seu propósito para a redenção do mundo. Procura relacionar a palavra deDeus naEscritura ena Palavra viva com as profundas necessidades de pessoas e da humanidade, no mundo de Deus. Mediante fiel interpretação da mensagem de Deus nas Escrituras, portanto, o COMENTÁRIO procura refletir a inseparável relação da verdade com a vida, do significado com a experiência. O seuobjetivoé respirar a atmosfera de relação com a vida. Procura expressar a relação dinâmica entre a verdade redentora e pessoas vivas. Possa ele servir como forma pela qual os filhos de Deus ouvirão com maior clarezao que Deus Pai está-lhes dizendo.
  10. 10. Sumário Levítico RonaldE. Clements Introdução................................................................... Comentário Sobreo Texto......................................... Números JohnJoseph Owens Introdução................................................................... Comentário Sobre oTexto......................................... Deuteronômio John D. W. Watts Introdução............................................................... Comentário Sobre oTexto....................................... Josué WilliamH. Morton Introdução................................................................. Comentário SobreoTexto....................................... Juizes EdwardR. Dalglish Introdução................................................................. Comentário Sobre oTexto....................................... Rute J. HardeeKennedy Introdução............................................................... Comentário Sobre oTexto.......................................
  11. 11. LevíticoRONALD E. CLEMENTS Introdução I. Título, PropósitoeConteúdo O título português “Levítico” teve a sua origem naquele queencabeçavaoter­ ceiro livro de Moisés na Septuaginta, a tradução antiga do Antigo Testamento para o grego, onde se chama de Leuiti- kon, “O (livro) Levítico”. Ele passou para a versão Vulgata Latina como “Li­ ber Leviticus” e dela para o português. Na Bíblia Hebraica, chama-se pela sua palavra inicial Wayyiqra (“E ele cha­ mou”), de acordo com o costumejudaico antigo de usar a palavra ou frase inicial deum livrocomo seu título. O título português descreveolivro pelo seu conteúdo, pois contém assuntos de interesse levítico, embora os mesmos le­ vitas sejam referidos somente em 25:32- 34. O título é, porém, plenamente jus­ tificado no sentido de que o livro trata extensivamente de assuntos referentes ao culto que era uma preocupação especial dos sacerdotes, aos quais os levitas esta­ vam ligados pelo exercício de uma espé­ cie de ministério auxiliar. O livro como um todo, portanto, deriva o seu caráter especial de sua preocupação com o regu­ lamento docultoe com as exigências que essecultoimpunha sobre a vida e condu­ ta doshomens e das mulheres em Israel. Instruções dirigidas a cada israelita estão intimamente entrelaçadas com as que se relacionavam, com muito mais particularidade, com a comunidade sa­ cerdotal. Além disso, muitos dos regula­ mentos que regiam a conduta dos cida­ dãos comuns teriam sido ensinados ao povo pelos sacerdotes, que também vela­ vam pelo seu cumprimento. Assim, há, através do livro todo, um interesse leví­ tico, ou sacerdotal, constante, embora grande parte de seu conteúdo fosse diri­ gida aos cidadãos israelitas comuns. Se­ ria um engano, portanto, interpretar a preocupação sacerdotal do livro como indicação de que ele tratasse somente de regulamentos que diziam respeito aos sacerdotes. Abrange os aspectos da vida em que um sacerdote estava envolvido, quer como o dirigente no culto, quer como o guardião especial da natureza sagrada de Israelcomoum todo. Achamos, por conseguinte, que Leví­ tico contém muitos regulamentos sobre afazeres cotidianos, sobre o comporta­ mento familiar entre o povo de Deus e sobre a manutenção da saúde e da higie­ ne no lar e nas relações pessoais. Todos estes eram assuntos que se esperava que um sacerdote explicasse ao povo, os quais se lhe mandava velar, a fim de evitar qualquer infração do posiciona­ mento santo que Deus exigia de Israel. O título do livro é, portanto, totalmente apropriadocomo uma descrição do cará­ teressencial de seu conteúdo. O propósito de Levíticoé, claramente, odejuntar numa só coletânea ordenada regulamentos diversosque diziam respei­ toao oferecimento de sacrifício a Deus, à organização do sacerdócio e muitos ou­ tros assuntos que surgiam da relação sagrada existente entre Israel e Deus. Pode, com toda a propriedade, ser inter­ 15
  12. 12. pretado como um guia abrangente, que mostra como Israel devia pôr em prática, na rotina da vida cotidiana, a grande promessa feita no monte Sinai: “E vós sereispara mim reino sacerdotal e nação santa” (Êx. 19:6). De todos os cinco livros que compõem oPentateuco, Levíticoé o que pode, com maior coerência, ser descrito como Lei. Seu conteúdo consiste, quase que exclu­ sivamente, de leis e regulamentos, com um mínimo apenas de narrativa interve­ niente. Isso é mais significativo do que possa parecer à primeira vista, porque, embora o Pentateuco se descreva tradi­ cionalmente como contendo os cinco li­ vrosdalei, éessencialmenteuma obra de narrativa histórica. Martinho Lutero re­ conheceu isto, pois classificou estes livros de histórias, e esta praxe é seguida tam­ bém nos cabeçalhos da versão do Rei Tiago (KJV). Porém Levítico contém uma quantidade muito pequena de nar­ rativa, nos capítulos 8-10 e em 24:10-23, enquanto o restante dele é composto de regulamentos e leis. Mesmo na narrativa histórica que contém, há uma nítida preocupaçãocom questões da Lei. II. DataeAutoria Quem escreveu o livro de Levítico e quando foi escrito são questões tão de perto relacionadas que têm de ser consi­ deradasjuntamente. As duas são ligadas de tal maneira ao papel de Moisés no livro, que temos de considerar este papel aqui. Tradicionalmente, os mestres ju­ daicos aceitavamMoisés comoo autor de Levítico, e, na realidade, do Pentateuco inteiro. Este ponto de vista era, no pas­ sado, largamente aceito dentro da Igreja Cristã. Com o surgimento de uma eru­ diçãohistóricamais críticaeprecisa, este ponto de vista tem sido quase totalmente abandonado, embora de uma forma um tanto negativa, que não tentou demons­ trar osmotivos práticos e religiosos sobre que a atribuição do livro a Moisés se fundamentava. Ê importante, desse mo­ do, não apenas examinarmos tais indí­ cios que o próprio livro nos dá com respeito à data de sua origem, como também entendermos, na medida do possível, por que este material foi colo­ cado sob a autoridade de Moisés, pois é nada menos que isso que o próprio livro afirma. Devemos, em primeiro lugar, voltar- nos para a questão da data do material apresentado nolivrode Levítico. Já nota­ mos que, em sua maior parte, este ma­ terial consiste em coleções de leis que regem o oferecimento dos sacrifícios, a ordem do sacerdócio, e uma gama de assuntos em que as obrigações religiosas afetam a vida cotidiana. Quando consi­ deramos como tais regulamentos surgem dentro de uma comunidade, é evidente que não aparecem todos de uma só vez, em forma de um programa pormenoriza­ do de obrigações, mas, sim, gradativa- mente, durante um número considerável de anos, à medida que a experiência e a necessidadeimpõem a organização da so­ ciedade e a direção doculto. Os regulamentos individuais detalha­ dos emergem em resposta a situações específicas, muito embora os princípios fundamentais sobre que semelhantes princípiossealicerçam sejam muito mais antigos. Assim era, indubitavelmente, em Israel, e não devemos ter receio de reconhecer que a coleção final de todos os regulamentos e leis coligados em Le­ vítico não se deu senão numa data rela­ tivamente tardia na história literária do Pentateuco. No entanto, isso não mini­ miza o fato de que esse processo, de expor em forma de regulamentos por­ menorizados aquilo que significava para Israel ser opovo santo de Deus, repoüsa em certos princípios fundamentais que são tão antigos quanto opróprio Israel. Estesprincípios diziam respeito à ofer­ ta a Deus de uma parte do aumento de todos os rebanhos, manadas e de cam­ pos; também diziam respeito à santidade associada a semelhantes oferendas. O 16
  13. 13. oferecimento delas em sacrifício impu­ nha certas precauções, especialmente a abstenção de sangue e gordura, por cau­ sa da relação especial existente entre estes e a vida animal. A observação de certas estações de festas sagradas era também fundamental para Israel, ser­ vindo elas como expressão de lealdade a Deus e como um envolvimento da di­ mensão do tempo na santidade de Deus. A questão da data, portanto, assume certa complexidade, visto que não se deve permitir que a forma final dada a determinada lei esconda o fato de que por detrás dela houve uma longa história de experiência e prática, expressa atra­ vés de regulamentos semelhantes. Uma vez que a relação entre Israel e Deus era especial, revelada na história e afirmada na experiência, as suas leis também ex­ perimentavam desenvolvimentos e modi­ ficações para corresponderem às necessi­ dadesprogressivas da vida sob a aliança. Leis fixas e imutáveis teriam resultado num “congelamento” da relação com Deus. Uma outra consideração também vem ao caso aqui. O registro por escrito de leis que regiam a direção do culto e os deveressacerdotais não é largamente evi­ dente no mundo do Oriente Médio anti­ go. Não há dúvida de que tais registros foram um passo relativamente tardio em Israel.1 Longe de ser o registro por escrito de uma lei do culto uma expressão do está­ gio durante o qual entrou ela, pela pri­ meira vez, em vigor, indica antes o ponto no qual um costume, ou tradição, longa­ mente praticado chegou a ser documen­ tado. Anteriormente a leiteria sidocerta- 1 Ver especialmente E. Nielsen, Oral Tnditioii, A Mo- dem Problem in Old Testament Introduction (Londres: SCM Press 1954), p. 39 e ss., para o argumento em iavor de uma data tardia para os registros, por escrito, das tradições legal e histórica em Israel. Nielsen é, porém, céptico demaissobre ouso do escrito para finsespeciais em períodos anteriores. Material comparativo útU da área nào-bíblica se pode achar em J. Vansina, Orai Tradition: AStudyin HistoricalMethodology.Trad, para oinglês por H.M. Wright(Londres: Routledge, 1965). mente lembrada e transmitida oralmen­ te, de geração em geração, dentro das famílias sacerdotais. A própria restrição da realização dos deveres sacerdotais a determinadas famílias era, em parte, uma salvaguarda da preservação precisa desseconhecimentoespecializado. Não houve nenhum motivo uniforme para a ocorrência da mudança da trans­ missão oral para a escrita, mas podemos aceitar que era, muitas vezes, conse­ qüência de uma época de crise ou de transição. Uma lei foi escrita e coligada com outras leis quando estava em pe­ rigo de esquecimento ou de negligência. No Israel antigo, a maior crise desta natureza teve lugar em 587 a.C., com a destruição do templo em Jerusalém e a deportação de grande parte da popula­ ção de Jerusalém, inclusive de seus prin­ cipais sacerdotes. Este evento proporcio­ nou tão séria ameaça à continuação do culto e da vida religiosa de Israel que, por conseguinte, muitos regulamentos e leis, que anteriormente tinham sido transmitidos oralmente, foram agora re­ gistrados por escrito. Foi esse processo, que prosseguiu durante o exílio babiló­ nicoe depois dele, que serviupara criar o nossolivroatual de Levítico. £ importante notar que este estágio da escrita de uma lei não indica a data de sua origem ou de sua entrada em vigor, mas é um passo relativamente tardio em sua história. As leis individuais, como regulamentosque regiam o culto e a vida comunitária, eram muitomais antigas do que a sua coleçãoem forma de documen­ to escrito. Assim, falar em autoria no sentido moderno levaria a mal-entendi­ dos, pois oautor quepreservouum relato da lei por escrito não seria a mesma pessoa, nem sequer um contemporâneo daquele que a compôs. Enquanto muitas vezes podemos aprender algo do pano de fundo e da situação do coletor das leis, geralmente há pouco que indique as cir­ cunstâncias ou data em que uma lei apa­ receupelaprimeiravez.Taisleissão, pela 17
  14. 14. sua natureza, atemporais no sentido de que não dependem de uma ligação com os eventos específicos da história externa nem contêm normalmente referências a qualquer momento quando tenham co­ meçado a vigorar. Podemos afirmar muito pouco, por­ tanto, quanto à data exata quando os re­ gulamentos individuais no livro de Leví- tico começaram a ser observados em Israel. Que muitos deles são de grande antiguidade não há dúvida. Ê também certo quehouveum processo contínuo de revisãoe de adaptação dessas regras que diziam respeito ao relacionamento de Israel com Deus. Esse elo era vivo, e mudanças de circunstâncias levavam a alterações e melhorias nos detalhes e nas formas de culto. Assim, até a época de sua coleção no livro de Levítico, esses regulamentos, em sua maior parte, já tinham passado por uma história consi­ derável. Quanto à data de composição final de Levítico,já sugerimos que se tenha dado depois do exílio, e podemos agora pros­ seguir com a consideração do assunto. A parte literária mais antiga do livro se acha, quase certamente, nos capítulos 17-26, os quais originalmente compu­ nham um livrode leis independente, nor­ malmente chamado de Código da Santi­ dade, por causa de sua exigência carac­ terística que Israel fosse santo. Como uma obra separada, formava um manual de instrução sacerdotal para Israel, que foi coligado e redigido em Jerusalém antes da queda do templo. O manual de sacrifíciocontidoem Levítico 1-7foitam­ bém, provavelmente, uma obra indepen­ dente, que surgiu da necessidade de ins­ trução, tanto para os sacerdotes como para os leigos, sobre as modalidades e as formas de sacrifício. Também podemos aceitar que as leis de higiene, contidas em Levítico 11-15, surgiram de listas separadas, guardadas pelos sacerdotes em Jerusalém. Este material foi então unido, e o núcleo desta redação e cole­ ção era a narrativa histórica de Levítico 8- 10. Esta narrativa é a continuação direta do mais recente e abrangente dos relatos das origens de Israel que compõem o nosso Pentateuco. Este âmago histórico, descrevendo o começo do culto de Israel no Sinai, foi que proporcionou o ponto central para os vários manuais e listas que, de maneiras diversas, relacionavam- se com esse culto. Assim Levítico reúne de uma maneira tão completa quanto possível tudo que dizia respeito ao contí­ nuo cultoevida de Israel como o povo de Deus. Os regulamentos de Levítico ha­ viam de formar uma ponte, portanto, entre o evento passado da revelação de Deus no Sinai e o culto diário, no San­ tuário de Israel, que se originou naquele evento. Temos agora de considerar o significa­ do da figura de Moisés para a composi­ ção e origem de Levítico. Não há dúvida que, de todos os grandes personagens de Israel, é Moisés quem está mais direta­ mente associado com Levítico e é quem se apresenta como aquele que, orientado por Deus, deu ao livro sua autoridade e caráter mandatário. Tanto o versículo inicial como o final do livro (1:1; 27:34) afirmam que o ensino e as leis de Leví­ tico são uma revelação divina para Israel através de Moisés. Repetidas vezes, atra­ vés da obra, achamos seções ligadas pela fórmula “O Senhor disse a Moisés”. Esta ênfase não se concilia facilmente com a descoberta crítica de que os regu­ lamentos de Levítico foram compilados de um amplo arco da história de Israel e escritos numa época relativamente tardia em sua vida. Podemos reconciliar essa divergência somentepor indagar sobre a natureza e a finalidade da atribuição do livro a Moi­ sés. Certamente não podemos entendê-la comosignificando que Moisés tenha sido o autor do livro no sentido moderno que se atribui à palavra autoria. É significa­ tivo que, embora Arão, o cabeça ances- 18
  15. 15. trai das famílias sacerdotais de Israel, se avulte no livro, não é a pessoa dele que dâ autoridade ao todo. Nem se acha o nome de Davi no livro, muito embora fosse ele quem tivesse sido responsável •pelo estabelecimento do culto de Israel em Jerusalém (II Sam. 6:17; Sal. 132: 1-10), onde a maior parte do material contido em Levítico, se não todo, foi, em certa altura da história, ensinado e prati­ cado. É Moisés, e só o nome dele, que confere a Levíticoseu cunho de autorida­ de e que o caracteriza como uma des­ crição das formas de culto e instrução sacerdotal que Deus tinha entregue ao seu povo Israel. Qual, então, é o segredo da autoridade mosaica? Para responder a esta pergunta, te­ mos, primeiro, de voltar aos primórdios de Israel. O Deus a quem Israel chegou a adorar como Soberano e Senhor tinha primeiramente declarado a sua vontade nasleisque acompanharam a sua doação da aliança no monte Sinai (Êx. 19-33). Por isso também Israel chegou a ser conhecidopor aquilo que era, pela alian­ ça que lhe deu um destino e uma origem divinos. Seu Deus havia de se tornar co­ nhecido às nações do mundo como o Deus de Israel. Tanto Deus como seu povo foram indissoluvelmente ligados, aos olhos das nações, pela aliança que o próprio Deus tinha estabelecido. Num notável lance de auto-revelação, Deus tinha secomprometidocom ohomem. Amemória que Israel tinha desseeven­ to afirmava que Moisés era o mediador da aliança e que foi através dele que a sua realidade e as suas condições se descobriram. Sem Moisés, Israel teria ficado sem olhos para enxergar a glória deDeuse sem ouvidos para ouvir a men­ sagem dele. Significativamente, também é Moisés quem se apresenta como o pri­ meiro a inaugurar o culto de Israel den­ tro da aliança por meio de sacrifícios (Êx. 24:4-8). Todo o culto relativo à aliança, em Israel, portanto, ficou den­ tro da tradição e do padrão que tinha começado com Moisés. É este fato que jaz por detrás da forma que apresenta Levíticocomoum livrode Moisés. Visto que Levítico reúne e descreve os regulamentos sacerdotais, por meio dos quais Israel havia de continuar seu culto aoDeus com quem estava comprometido por aliança, estes regulamentos foram considerados como se conformando ao padrão que Moisés tinha estabelecido. O culto relativo à aliança em Israel era, portanto, entendido como estabelecido sob a autoridade de Moisés. O que, pela história e pela experiência, para a cons­ ciência de Israel, foi aprovado como, na verdade, pertencente à sua fépactuai, foi considerado como compartilhando da autorização de culto outorgada por Moi­ sés. Esse não era umjuízo literal, basea­ do nas fontes conhecidas da história ou nos documentos, mas umjuízo religioso, fundamentado no que era certo e cabia dentro da experiência comprovada do povo de Deus. A autoridade de Moisés significava a autoridade da aliança que unia Israel a Deus. O que Moisés deu não foium código de regulamentos fixo e inalterável, quepoderia, por fim, tomar- se embaraçoso e arcaico, mas, sim, uma tradição vivade culto dentro deumarela­ ção de aliança. Precisamente por causa disso a continuidade vital de tradições sacerdotais de culto em Israel podia de­ clarar-se mantenedora da tradição que Moisés tinha instituído. A atribuição do livro de Levítico a Moisés expressa, portanto, um juízo al­ tamente relevante e significativo sobre o valor e autoridade religiosos do que con­ tém. Marca-o indelevelmente como per­ tencendo à aliança entre Deus e Israel. m . SignificadoReligioso Ê evidente, mesmo numa primeira lei­ tura, que Levítico é um livro de prática antes do que de teoria. Isso quer dizer que os seus regulamentos tinham a fina­ lidade de estimular a prestação de for­ mas específicas de culto e de um deter- 19
  16. 16. minado tipo de conduta, antes do que de ensinar determinadas doutrinas e cren­ ças. Porém existe uma grande riqueza de doutrina e fé em Levítico, que se pode discernirfacilmente, eque proporciona o significado e a explicação de todas as suas exigências. Levítico baseia-se numa compreensão religiosa da vida, ao mesmo tempo ele­ vadae detalhada, epressupõeum concei­ to de Deus tão elevadoe espiritual quan­ to se possa achar em qualquer lugar do Antigo Testamento. Posiciona-se dentro da corrente principal do pensamento teo­ lógico de Israel e fundamenta todas as suas exigências em seu entendimento particular de Deus e em sua relação com Israele com o mundo. O ensino religioso deLevíticoé, portanto, não tanto explici­ tado quanto aceito comojá conhecido de seus leitores. Ele vem à tona claramente apenas em alguns pontos determinados. Porém não é difícil desvendar esse pano defundo teológico pela atenção cuidado­ sa dada aos regulamentos contidos no próprio Levítico e pela consulta dos li­ vros anteriores de Gênesis e Êxodo, que elesuplementa. A primeira crença e de maior alcance que subjaz às leis de Levíticoé que Deus está realmente presente com o seu povo. Os regulamentos para o culto e especial­ mente ospara o oferecimento dos sacrifí­ cios são expostos como mandamentos, que devem ser cumpridos na própria presença de Deus, que se acha no taber­ náculo. É aqui que apresença de Deus se revela a Israel por meio de sua glória (Êx. 25:8). Depois de longo tempo, essa tenda do período desérticofoisubstituída por uma casa mais permanente, em Siló, e esta, por sua vez, deu lugar ao Templo de Jerusalém. Mas houve reconhecimento da continuidade, que fez com que a tra­ dição israelita de culto em seu santuário central constituísse um testemunho per­ pétuo da presença constante de Deus no meiode seupovo. Todosos regulamentos para oculto contidos em Levítico pressu­ põemessacrençana presençadeDeusno tabernáculo, ou tenda da congregação, comotambém échamado. O oferecimen­ to de sacrifícios era sempre “perante o Senhor”, que não estavalonge de seu po­ vo, mas, sim, presente nosantuário, para o qual o cultuador trazia a sua dádiva. O culto de Israel era oferecido em tributo a Deus, que cumpria a promessa da aliançaporpermanecercom o seu povo e por lhe dar, de seu santuário, a sua bênção. Das idéias principais de Levítico, a segundaé que Deus é perfeitamente san­ to e que a sua presença com Israel es­ tende essa santidade para cobrir a vida inteira da nação. Certamente não deve­ mos separar este conceito de sua santi­ dade do requisito moral de distinguir o certo do errado na vida cotidiana. Po­ rém era muito mais que isso; denotava um podere espírito de Deus, que afetava aspessoas eascoisas quelhepertenciam. Seu oposto é a imundície, que descreve essas formas de vida física e mental que seopõem a Deus — as doenças, a morte, os ritos e objetos rituais pagãos, bem como formas de vida naturais, tais como animais, que podiam ser portadores de doenças. Assim, em preservando a santidade de Israel, Levíticotambém sepreocupamui­ to em proteger Israel contra tudo que pudesse comprometer ou destruir essa santidade. Suas regras para a pureza do culto são, portanto, nitidamente ligadas às suas regras para a higiene e a obe­ diência moral, visto que todos esses as­ pectos da vida pertencem à santidade de Israel. Para Levítico, o mundo não é um lugar neutro, onde os homens possam fazer o que bem entendem, mas, sim, um lugar onde se defrontam em toda partecom asexigências doDeussanto. Esta ênfase fundamental na presença deDeuscom oseu povo Israel e na santi­ dade que essa presença tanto afirma como exige leva a mais uma caracterís- 20
  17. 17. tica teológica de Levitico. O livro pres­ supõe, como sua base, que a vontade de Deus de que o seu povo deva viver numa relação santa com ele recebeu expressão no ato gracioso de eleição no monte Sinai, pelo qual ele tomou Israel como parceiro em aliança consigo mesmo (Êx. 19:6). A santidade de Israel é, portanto, o resultado de um ato da graça divina, e não uma conseqüência de suas próprias ações. Nãoé simplesmenteuma condição devida, deumtipoquasefísico,mas,sim, um dom de Deus, que está arraigado em sua açãopassada na história. É por este motivo que uma importân­ cia teológicaconsiderável seassocia à au­ toridade mosaica atribuída ao livro. To­ dos os seus regulamentos e leis estão en­ gastados em suas narrativas históricas, que descrevem os acontecimentos no monte Sinai. Foi lá, pela declaração de Deus na aliança, que Israel se tomou um povo santo, e as leis de Levitico preten­ dem demonstrar comoIsrael podia conti­ nuar avivernesseestado de santidade. Um movimento triangular muito ins­ trutivo e impressionante, assim, se evi­ dencia na estrutura teológica da obra. O santo ser de Deus é, por definição, atemporal e etemo, porém, em sua auto- expressão para com o homem, ele reve­ lou a sua vontade num momento no tem­ po, quando acolheu Israel na aliança comeleno Sinai. Levíticomostra comoIsrael, através de seu culto, foi capacitado a perpetuar e tomar contemporânea essa auto-entrega de Deus na aliança. O culto em Israel era, num sentido bem real, uma reapre- sentação dos atos salvíficos de Deus do passado, pela qual a nação podia con­ tinuar a viver dentro da experiência da salvação. Nãoera simplesmente uma res­ posta dos homens a Deus, embora conti­ vesse esse elemento, mas também um meio contínuo da ação e graça divinas. O cultoservia, portanto, para atualizar a relação salvífica com Deus, pela qual Israel tinha sido criado, e tomava-a uma experiência contínua da nação. O Deus etemo, a história passada de sua revela­ çãoea experiência presente de seu poder ebondade são, assim, integrados no con­ ceito da santidade, do qual Levíticofala. Embora, em muitas de suas exigên­ cias, Levítico pareça estar muito remoto de nosso mundo modemo e de nossas necessidades religiosas, tem muito que nos dizer pelas suas doutrinas subjacen­ tesebásicas. Destaca ofato de que nossa maior necessidade não é de um conceito abstrato de Deus, mas, sim, de uma experiência de sua presença e de um co­ nhecimento de como achá-la. O conheci­ mento de Deus não é uma idéia que se busque, mas, sim, uma comunhão para ser vivida e expressa na vida cotidiana. Isso nos impõe as suas exigências custo­ sas em nos chamar à obediência e à adoração. A tentativa de cumprir essas exigências mostra que os homens não podem, eles mesmos, ganhar a batalha contra o pecado e a impureza, mas têm de permanecer dependentes da graça de Deus, pela providência, por parte dele, de um meio de reconciliação. Como tão bem descreve a Epístola aos Hebreus, as leis de Levítico apontam para a cruz de Cristo. EsboçodoLivrodeLevítico I. InstruçõesPara osSacrifícios (1:1; 7:38) 1. AOferta Queimada(1:1-17) 2. AOferta de Cereais(2:1-16) 3. AOfertaPacífica(3:1-17) 4. As Ofertas Pelo Pecado e Pela Culpa(4:1-6:7) 5. Instruções Para os Sacerdotes com Relaçãoaos Sacrifícios (6:8-7:38) II. O Começo do Culto de Israel no Sinai(8:1; 10:20) 1. AConsagraçãode Arãoe de Seus Filhos Como os Sacerdotes de Is­ rael(8:1-36) 2. Os Primeiros Sacrifícios Públicos em Israel(9:1-24) 21
  18. 18. 3. O Erro de Nadabe eAbiú (10:1-20) III. Os Regulamentos Concernentes à Pureza(11:1; 15:23) 1. Animais Limpos e os Imundos (11:1-47) 2. A Impureza Relacionada com o Parto (12:1-8) 3. Impureza Resultante da Lepra (13:1; 15:33) (1) ODiagnóstico da Doença (13:1-46) (2) A Identificação da Doença nas Roupas(13:47-59) (3) As Ofertas Pela Purificação (14:1-32) (4) O Processo Para a Lepra em Casas(14:33-57) (5) Impureza Pelos Fluxos Cor­ porais(15:1-33) IV. O Grande Dia daExpiação (16:1-34) V. OCódigoda Santidade(17:1; 26:46) 1. A Oferta de Sacrifício e o Co­ merCarnes(17:1-16) 2. Os Regulamentos com Respeito aoCasamento(18:1-30) 3. Uma Lista Geral deLeis (19:1-37) 4. Leis Que Implicam a Pena de Morte(20:1-27) 5. A Santidade dos Saeerdotes (21:1-24) 6. A Santidade das Ofertas (22:1-33) 7. O Calendário dosFestivais (23:1-44) (1) Festivais de Instituição Di­ vina(23:1-3) (2) OFestival da Primavera (23:4-14) (3) O Festival do Começo do Verão(23:15-22) (4) O Festival do Outono (23:23-44) 8. O Culto Regular no Santuário (24:1-9) 9. A Validade da Lei de Israel Para Estrangeiros(24:10-23) 10. O Ano Sabático e o Ano do Ju­ bileu(25:1; 26:2) 11. RecompensaseCastigos (26:3-46) VI. Leis com Respeito a Juramentos e OfertasVotivas(27:1-34) Bibliografia Selecionada ALBRIGHT, WILLIAM F. Archaeology andthe ReligionofIsrael, 3?ed. Balti­ more: Johns Hopkins Press, 1953. _______ . Yahweh and the Gods of Ca­ naan, Londres: Athlone Press, 1968. CHAMPMAN, A. T. e STREANE, A. W. “Leviticus”, The CambridgeBi­ ble. Cambridge: Cambridge University Press, 1914. CLEMENTS, R. E. God and Temple. Filadélfia: Fortress Press, 1965. DE VAUX, ROLAND. Ancient Israel: Its Life and Institutions. Trad. John McHugh. Londres: Darton, Longman &Todd, 1961. _______ . Sacrifices in Ancient Israel. Cardiff: University of Wales, 1966. ELLIGER, K. “Leviticus”, Handbuch zum Alten Testament. Tübingen: 1966. GRAY, GEORGE BUCHANAN. Sacri­ fices in the Old Testament. Oxford: OxfordUniversityPress, 1925. KENNEDY, A. R. S. “Leviticus and Numbers”, The Century Bible. Lon­ dres: Caxton PublishingCo., s.d. KRAUS, H. J. Worship in Israel. Ox­ ford: Blackwell, 1965. NOTH, MARTIN. “Leviticus: A Com­ mentary”, Old Testament Library. Trad. J. E. Anderson. Londres: S. C. M. Press, 1965. PEDERSEN, J. Israel: Its Life and Cul­ ture. Trad. Sra. AslaugMollereAnnie I. Fausboll. I-II, Copenhague: Bran- ners, 1926; III-IV, Copenhague: Bran- ners, 1940. RENDTORFF, R. Studien zur Geschi­ chte des Opfers im Alten Testament. Neukirchen-Vluyn, 1967. RINGGREN, H. “Sacrifice in the Bi­ ble”, World Christian Books. Lon­ dres: 1962. 22
  19. 19. ROWLEY, H. H. WorshipinAncient Is- SNAITH, NORMAN H. “Leviticus and rael. Filadélfia: Fortress Press, 1967. Numbers”, The Centwy Bible. Lon­ dres: Thomas Nelson&Sons, 1967. ComentárioSobreoTexto I. InstruçõesParaos Sacrifícios (1:1-7:38) A primeira parte do livro de Levítico é dedicada a um manual pormenorizado de instruções para o oferecimento de sacrifício a Deus. Seu contexto histórico é muito importante. O livro de Êxodo narra o resgate divino do Egito e a alian­ ça entre Deus e Israel feita no Sinai. Isso é seguido por uma série de instru­ ções para a construção do tabernáculo (Êx. 26,27) e a ordenação do sacerdócio da linha de Arão (Êx. 28,29). A constru­ ção do tabernáculo, a “igreja no deser­ to”, é, então, empreendida sob a direção de Moisés (Êx. 35-40), e Deus aceita-o como um lugar digno para o culto, por ali revelar a sua presença na nuvem de sua glória(Êx. 40:34-38). Na continuação desta narrativa histó­ rica, Levítico 8 e 9 contam da realização das instruções divinas para a ordenação de Arão e de seus filhos como sacerdotes e do oferecimento dos primeiros sacrifí­ cios a Deus no altar do tabernáculo recém-construído. Antes que essas deter­ minações fossem cumpridas, porém, foi necessário expor as instruções estabele­ cidas por Deus para os diversos tipos de sacrifícios que se haviam de fazer no novo santuário. Assim, Levítico 1:1-7:38 constituem, essencialmente, o manual de sacrifício de Israel. Os capítulos l:l-6:7 contêm instruções para pessoas leigas, concernentes aos quatro tipos principais de sacrifícios que se hão de oferecer, e 6:8-7:38 contêm regulamentos estabele­ cidos para os sacerdotes com relação a essas ofertas. O compartilhamento do ministério do sacrifício entre os sacerdo­ tes e os israelitas leigos é, assim, bem apresentado. Acolocação deste manual de sacrifício neste ponto da história da obra salvífica de Deus para com Israel é muito impor­ tante. Enfatiza que o culto de Israel, centralizado no tabernáculo e expresso de forma máxima no oferecimento do sacrifício, era o meio dado por Deus, pelo qual a salvação do Êxodo e a co­ munhão com Deus, declaradas na alian­ ça do Sinai, haviam de ser continuamen­ te experimentadas por gerações sucessi­ vas deisraelitas. O ato histórico do resga­ te foi transferido a gerações posteriores nas bênçãos que recebiam de Deus em seu culto. Assim, o culto centralizado no tabernáculo, e, mais tarde, no templo, foi o meio pelo qual o poder da salvação deDeusfoiestendido através da história. Esse manual de sacrifício é apresenta­ do como uma revelação divina a Israel através de Moisés. Ê o próprio Deus que torna sabida a modalidade de culto que lhe agrada. Isso remove por completo qualquer sugestão que o oferecimento de sacrifício em Israel fosse uma obra hu­ mana, destinada a conquistar o afeto de um Deus indisposto ou a persuadi-lo a ser gracioso. Ê precisamente porque Deus é gracioso que ele tem revelado as modalidades de culto e de sacrifício que lhe agradam. Istoéparticularmente importante por­ que, entre os vizinhos de Israel, certa­ mente era corrente o ponto de vista de que ,os homens, por oferecerem sacrifí­ cios, eramcapazes de satisfazer uma ne­ cessidade de Deus e assim tomá-lo favo­ rável aos que o cultuavam. Não há dú­ 23
  20. 20. vida de que, dada a semelhança conside­ rável entre os ritos sacrificais de Israel e os de seus vizinhos, essa atitude também seinfiltrou em Israel. Talponto devistaé totalmente excluído, pela demonstração de que é precisamente porque Deus é graciosoque elemostra aoseu povocomo devecultuá-lo. O sacrifícioera importan­ te para Israel não porque satisfazia uma necessidade emDeus, mas porque supria uma necessidade em Israel e lhe possibi­ litava continuar no gozo da bênção divi­ na. Desta maneira, por detrás do rito do sacrifício, que expressava a dádiva do homem a Deus, afirmou-se a verdade de que mesmo essa oportunidade de dar a Deus era um sinal de seu favor e uma conseqüência de seu dom anterior da salvação. A maneira como o código sa­ crifical de Israel é colocado dentro~da revelação no Sinai revela que o culto a Deus éum dom de Deus aos homens que satisfaz as necessidades deles, e nãoas de Deus. A questão da época em que este ma­ nual de sacrifício foi redigido pode ser respondida somente de maneira muito geral. Na forma em que existe atualmen­ te, foi inserido na tradição global que Israel possuía de sua história e constitui­ ção, em data relativamente tardia, al­ gum tempo depois do exílio. Porém o oferecimentode sacrifícios dentro do cul­ to pactuai de Israel remonta ao começo da história da nàção, ao tempo de Moi­ sés. Os regulamentos que regiam a natu­ reza desses sacrifícios e a maneira como haviam de ser oferecidos foram transcri­ tos das práticas contemporâneas e com­ pilados em forma de leis através de um longo período. Na forma em que existem atualmente, refletem os padrões do culto que se estabeleceu no templo em Jerusa­ lém durante o período da monarquia israelita. Aqui, oculto de Israel alcançou assuasformas mais belaseexpressivas. A finalidade da compilação de seme­ lhante manualfoia de simplesmentepro­ videnciar para os cultuadores leigos ori­ entações com relação à maneira como os sacrifícios deviam ser oferecidos e tam­ bém definir, tanto para leigos como para os sacerdotes, os seus deveres respecti­ vos. As próprias leis são principalmente de natureza técnica e prática, e visam descrever o ritual a ser observado, mais do que explicar os propósitos e a nature­ za do sacrifício em si. Em certa fase, semelhantes leis foram preservadas no santuário onde sefaziam tais sacrifícios e certamente escritas para facilitar a con­ sulta de cultuadores e de sacerdotes. Tal­ vez também, em alguma época, o sacer­ dote tenha tido o costume, por ocasião dosgrandesfestivais, de recitar oralmen­ te, para o povo, a forma de ritual que devia observar, ao trazer as suas ofertas. O significado e propósito dos sacrifícios não são dados explicitamente em lugar algum no Antigo Testamento, presumi­ velmente porque se supunha serem já conhecidos de todos quefreqüentavam os cultos. No entanto, os pormenores e as alusões nos possibilitam inferir o seu significado. 1. AOferta Queimada(1:1-17) 1 Ora, chamou o Senhor a Moisés e, da tenda da revelação, lhe disse: 2 Fala aos filhos de Israel e dize-lhes: Quando algum de vós oferecer oferta ao Senhor, oferece­ reis as vossas ofertas de gado, isto é, do gado vacum e das ovelhas. 3 Se a sua oferta forholocausto de gado vacum, oferecerá ele um macho sem defeito; à porta da tenda da revelação o oferecerá, para que ache favor perante o Senhor. 4 Porá a sua mão sobre a cabeça do holocausto, e este será aceito a favor dele, para a sua expiação. 5 Depois imolará o novilho perante o Senhor; e os filhos de Arão, os sacerdotes, oferecerão o sangue, e espargirão o sangue em redor sobre o altar que está à porta da tenda da revelação. 6 Então esfolará o holocausto, e o partirá nos seus pedaços. 7 E os filhos de Arão, o sacerdote, porão fogo sobre o altar, pondoem ordem a lenha sobre ofogo; 8tam­ bém os filhos de Arão, os sacerdotes, porão em ordem ospedaços, a cabeça e a gordura, sobre a lenha que está no fogo em cima do altar;9a fressura,porém,e as pernas, ele as lavará com água; e o sacerdote queimará 24
  21. 21. tudo isso sobre o altar como holocausto, oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. 10 Se a sua oferta for holocausto de gado miúdo, seja das ovelhas seja das cabras, oferecerá ele um macho sem defeito, 11e o imolará ao lado do altar que dá para o norte, perante o Senhor; e os filhos de Arão, ossacerdotes, espargirão osangue em redor sobre o altar. 12 Então o partirá nos seus pedaços, juntamente com a cabeça e a gor­ dura; e o sacerdote os porá em ordem sobre a lenha que está no fogo sobre o altar; 13 a fressura, porém, e as pernas, ele as la­ vará com água; e o sacerdote oferecerá tudo isso, e o queimará sobre o altar; holo­ causto é, oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. 14 Se a sua oferta ao Senhor for holocausto tirado de aves, então de rolas ou de pombinhos oferecerá a sua oferta. 15E o sacerdote a trará ao altar, tirar-Ihe-á a ca­ beça e a queimará sobre o altar; e o seu sangue será espremido na parede do altar; 16e o seu papo com as suas penas tirará e o lançará junto ao altar, para o lado do orien­ te, nolugar da cinza; 17e fendê-la-á junto às suas asas, mas não a partirá; e o sacerdote a queimará em cima do altar sobre a lenha que está no fogo; holocausto é, oferta quei­ mada, de cheiro suave ao Senhor. A oferta queimada era a forma princi­ pal de sacrifício em Israel. Por esse moti­ vo, vem em primeiro lugar nesta lista de sacrifícios. O formato e conteúdo das instruções para oseu oferecimento foram seguidos muito de perto por aquelas que dizem respeito à oferta pacífica no capí­ tulo3. Expostas deuma maneira direta e pragmática, sâo as informações que pos­ sibilitariam ao cultuador comum ofere­ cer sua oferta queimada a Deus. Dá-se atençãoparticular aos deveres que opró­ prio cultuador havia de desempenhar e à definição dos que eram da responsabili­ dade dosacerdote. O ritual como um todo pode ser divi­ dido nas seguintes ações principais: (1) a apresentação da oferta na entrada do santuário(v. 3,10,14); (2) a colocação da mão do ofertante sobre a cabeça da vítima (v. 4); (3) a execução da vítima (v. 5,11); (4) oespargirdo sangue sobre o altar (v. 5,11,15); (5) a esfoladura do animal e a sua divisão em pedaços (v. 6,12,16,17); (6) a queima de certas partes da vítima sobre o altar (v. 8,9,12, 13,15,17). É evidente que são especificamente essas ações que implicam contato direto com o altar que foram reservadas para o sacerdote. O derramamento do sangue da vitima sobre o altar, a ordenação e o acender dofogosobreele e a queima, em si, das partes da vitima eram todos deve­ res do sacerdote. O altar, como o lugar da reconciliação entre Deus e o homem, era considerado sacríssimo, e as ações que implicavam contato com o mesmo foram reservadaspara os sacerdotes, que compartilhavam de sua natureza espe­ cial, sagrada (cf. Ez. 44:4-31). Fora dis­ so, o cultuador comum desempenhava um papel surpreendentemente grande, no oferecimento do sacrifício, pois ele matava o animal, esfolava-o e dividia-o em pedaços. Um interesse especial recai sobre a colocação das mãos do cultuador sobre a cabeça doanimal designadopara o sacri­ fício. O significado desta ação não é de tudo claro. Aparece de novo, de maneira especial, no Dia da Expiação, quando o próprio sumo sacerdote colocava as suas mãos sobre obode, queera levado para o deserto (16:21). Neste caso se afirma claramente que o propósito dessa ação era a transferência dos pecados de Israel para o bode, que em seguida os levava embora para odeserto. No caso da oferta queimada, essa transferência de pecado não é tão claramente afirmada (1:4). O significado desse gesto é, aparente­ mente, o da identificação. A colocação das mãos do cultuador sobre a cabeça da vítima declara de quem é o sacrifício e para quem a reconciliação que obtém seráválida. Assim, serve, de uma manei­ ra especial, para demonstrar a posse da vítima por parte do cultuador, e o desejo dele de buscar a graça divina por meio dela. Serviu para ligar o desejo e a inten­ ção nítidos docultuador ao ritual externo dosacrifício, que, como sabemos das crí­ 2S
  22. 22. ticas dos profetas (Os. 6:6; Am. 5:21-24; Miq. 6:6-8), podia facilmente descambar para o vazio de uma formalidade ex­ terna. Levítico 1:9 descreve a oferta queima­ da como de cheiro suave ao Senhor. Esta expressão aparece várias vezes em rela­ ção à oferta queimada eà oferta pacífica. Literalmente, quer dizerum cheiro “aca- riciativo” ou “agradável”, indicando que o cheiro do sacrifício era atraente para Deus. Semelhante idéia antropomórfica de Deus, e do efeito que o sacrifício exercia sobre ele, era, indubitavelmente, muito antiga e pré-israelita. Está muito claro que os rituais, em Levítico, não consideram osacrifíciocomouma dádiva para aplacar uma deidade irada. Temos deconcluir, portanto, que esta expressão peculiar tem sido retida como uma ex­ pressão arcaica e colocada num contexto onde tinha um sentido simbólico, já não literal. Não há nenhuma declaração, nestas instruções, quanto ao significado do ri­ tual da oferta queimada ou em relação às ocasiões quando se havia de oferecê-la, mas as características essenciais de seu uso podem ser deduzidas destes versí­ culos e de outras referências a ela no Antigo Testamento. O nome hebraico dela significa “o que sobe”, e, certamen­ te, deriva-se do fato de que era a forma de sacrifício que subia até Deus na fu­ maça do altar. Pode ser entendido, em­ bora menos plausivelmente, como o que subiu ao altar em oferenda a Deus. Por­ que a vítima era inteiramente consumi­ da pelo fogo, sobre o altar, podia tam­ bém ser chamada de oferta queimada (1:9,13,17). Provavelmente, os “holo- caustos” de Salmos 51:19 eram seme­ lhantes. A vítima havia de ser escolhida dentre os animais domésticos do ofertante, um boi, umaovelhaou um bode, oupodia ser uma rola ou um pombinho (v. 14-17). Estaúltima possibilidade era introduzida casoocultuadorfosse pobre demais para oferecer um animal doméstico. E todo israelita havia de participar desse culto e não havia de ser privado do privilégio de fazer a sua oferta a Deus, muito embora a pobreza fizesse com que ela fosse mais humilde e menos evidente do que a que normalmente sedava. Afinalidadeprimordial da oferta quei­ mada era assegurar a propiciação pelos pecados, como se infere do versículo 4. Um exemplo disso, na prática, se acha em Números 15:24, onde uma oferta queimada seria oferecida em sacrifício, se a comunidade inteira transgredisse a lei de Deus inadvertidamente. Não era essa a única ocasião, todavia, quando semelhante oferta podia ser feita. Leví­ tico 12:6-8 exige uma oferta queimada junto com uma oferta pelo pecado da parte de uma mulher depois do parto, e Números 15:3 alude a se fazer uma oferta queimada como pagamento de um voto. O sacrifício da oferta queimada era um ato de reconhecimento da soberania de Deus e uma expressão visível de ação de graças a ele. Essas instruções determinadas que achamos em Levítico 1 dizem respeito à oferta queimada de um israelita leigo individualmente. Noutros lugares, no Antigo Testamento, achamos a oferta queimada usada como um sacrifício ofe­ recido pelo rei (II Sam. 6:17 e s.; I Reis 9:25; 10:5), em prol dele mesmo e da naçãosobre que reinava. Dissosurgiu em Israel a prática de fazer uma oferta quei­ mada diária no templo em Jerusalém pela manhã (Ez. 46:13-15) e, depois de períodoindefinido, outro sacrifício seme­ lhante ao entardecer (Núm. 28:4,8). A oferta queimada também se fazia' em prol da comunidade inteira de Israel, por ocasião das festividades especiais, nota- damente no sábado, nasluas novas, e nas outras festividades principais do ano is­ raelita(Núm. 28,29). De todas as formas de sacrifícios cor­ rentesem Israel, a natureza distintiva da 26
  23. 23. oferta queimada era bem destacada. Era a dádiva que o israelita fazia exclusiva­ mente a Deus, e assim constituía um ato de culto expressivo de obediência total. O ofertante não guardava nada para si, e não usava seu sacrifício para providen­ ciar um repasto festivo, para o gozo dele e de sua família. A oferenda era para Deus somente, e, assim, em a oferecer, ele reconhecia a total soberania de Deus sobre todas as criaturas vivas e a reivin­ dicação divina de plena obediência em suaprópriavida. 2. AOferta deCereais(2:1-16) 1 Quando alguém fizer ao Senhor uma oferta de cereais, a sua oferta será de flor de farinha; deitará nela azeite, e sobre ela porá incenso; 2e a trará aos filhos de Arão, os sacerdotes, um dos quais lhe tomará um punhado de flor de farinha e do azeite com todo o incenso, e o queimará sobre o altar por oferta memorial, oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. 3 O que restar da oferta de cereais pertencerá a Arão e a seus filhos; é coisa santíssima entre as ofertas queimadas ao Senhor. 4Quando fizeres ofer­ ta de cereais assada ao forno, será de bolos ázimos de flor de farinha, amassados com azeite, e coscorões ázimosuntados comazei­ te. 5 E se a tua oferta for oferta de cereais assada na assadeira, será de flor de farinha sem fermento, amassada com azeite. 6 Em pedaços a partirás, e sobre ela deitarás azeite; é oferta de cereais. 7 E se a tua oferta for oferta de cereais cozida na frigi­ deira, far-se-á de flor de farinha com azeite. 8Então trarás ao Senhor a oferta de cereais que for feita destas coisas; e será apresen­ tada ao sacerdote, o qual a levará ao altar. 9 E o sacerdote tomará da oferta de cereais o memorial dela, e o queimará sobre o al­ tar; é oferta queimada, de cheiro suave ao Senhor. 10 E o que restar da oferta de ce­ reais pertencerá a Arão e a seus filhos; é coisasantíssima entre as ofertas queimadas ao Senhor. 11 Nenhuma oferta de cereais, quefizerdes ao Senhor, será preparada com fermento; porque não queimareis fermento algum nem mel algum como oferta queima­ da ao Senhor. 12 Como oferta de primícias oferecê-los-eis ao Senhor; mas sobre o altar não subirão por cheiro suave. 13 Todas as tuas ofertas de cereais temperarás com sal; não deixarás faltar a elas o sal do pacto do teu Deus; em todas as tuas ofertas oferece­ rás sal. 14 Se fizeres ao Senhor oferta de cereais deprimícias, oferecerás, como ofer­ ta de cereais das tuas primícias, espigas tostadas ao fogo, isto é, o grão trilhado de espigas verdes. 15Sobre ela deitarás azeite, e lhe porás- por cima incenso; é oferta de cereais. 16 O sacerdote queimará o memo­ rial dela, isto é, parte do grão trilhado e parte do azeite com todo o incenso; é oferta queimadaao Senhor. O ritual para a oferta de cereais é, naturalmente, muito mais simples do que o para a oferta queimada. As diver­ sas subseções do capítulo dizem respeito principalmente aos materiais diferentes que podiam ser usados para a oferta. O título hebraico da oferta de cereais quer dizer, simplesmente, “dádiva”, e a mesma palavra podia ser usada em sen­ tido lato, para abranger todas as classes diferentes de oferta de sacrifício, bem como em sentido mais restrito, para se referir àqueles sacrifícios que não impli­ cavam a matança de um animal. Isso é o caso aqui, onde a oferta é composta de cereais moídos grossos, ou de trigo ou de centeio, preparados de uma dentre vá­ rias maneiras possíveis. Acolocação das instruçõespara a ofer­ ta de cereais diretamente depois das ins­ truções para a oferta queimada reflete, sem dúvida, a prática de trazer aquela juntamente com esta. Assim, a oferta de cereais era usada freqüentemente como um tipo de sacrifício suplementar, para acompanhar a oferta queimada, como é mostrado em Números 15:3-5 e II Reis 16:13, quando ofertas de vinho como libação eram também feitas. Nem sem­ pre acontecia assim, porém, e achamos diversos exemplos da oferta de cereais sendo trazida sozinha(6:14-18; 23:15,16; Núm. 5:15; 28:26). A ocasião mais co­ mum para uma oferta de cereais inde­ pendente era a da entrega das primícias da colheita aDeus. Este capítulo menciona quatro formas diferentes em que a oferta de cereais podia ser trazida. Em cada caso os ingre­ dientes básicos, da farinha moída gros- 27
  24. 24. sa, de trigoou decenteio, misturada com óleo, continuam os mesmos, e a diferen­ ça está na maneira como se prepara a oferta. Os quatro tipos são: (1) O cereal básico (farinha) com óleo derramado sobre ele (v. 1-3). O incenso estava misturado só com a parte que se queimava sobre oaltar. (2) Bolosde farinha, assados num for­ no e misturados com óleo enquanto sen­ do preparados ou untados com óleo de­ pois (v. 4). Nenhum fermento havia de sermisturado com a massa. (3) Bolos assados numa fôrma sobre chapa de ferro quente (v. 5,6). Eles ti­ nham de ser misturados com óleo e, quando cozidos, partidos em pedaços, derramando-se ainda óleosobreeles. (4) Bolos cozidos numa frigideira de barro e também misturados com óleo antes de cozidos(v. 7). Exceto o cuidado de se evitar o uso de qualquer fermento, na preparação dos bolos(v. 5,11), não havia dúvida de que cada uma dessas formas da oferta de cereais representava um método comum de preparar bolos em Israel. Assim, a oferenda a Deus era uma parte simbó­ licada comidapreparada emcasa. Como a oferta queimada expressava o elevado custo da entrega integral da pessoa a Deus, assim a oferta de cereais declarava que era a vida cotidina de homens e mulheres que havia de ser dedicada a Deuseabençoadaporele. O ritual de oferta de cereais consistia no seguinte: (1) a preparação da oferta (v. 1,4-7); (2) o trazimento da oferta ao santuário(v.2,8); (3) a separação da por­ ção memorial especial (v. 2,9,16); e (4) a queima da porção memorial sobre o altarpelosacerdote. Mais uma vez, como no caso da oferta queimada, existe uma divisão nítida de responsabilidade entre o israelita leigo, que preparava e trazia a oferta, e o sacerdote, que realmente queimava par­ te dela sobre o altar. A divisão da oferta em duas partes mostra que apenas uma parte dela se queimava no altar, como sinal de que se dava o todo a Deus. Esta parte se chama de porção memorial, e esta tradição se deriva do fato de que o adjetivo usado é formado do verbo que normalmente significa “lembrar”. Po­ rém, num estudo cuidadoso da palavra, G. R. Driver (Journal of Semitic Stu- dies I, 1956, p. 97 e ss.) argumenta que realmente significa “sinal”, e é isso que esperávamos que significasse, à luz de seuempregono ritual. Ê osinal da oferta decereais queera queimado sobre o altar como dádiva a Deus, e representava o oferecimento da oferta toda a ele. A parte que não era queimada se dava aos sacerdotes (v. 3). De 6:16, sabemos que esta parte seria comida pelos sacerdotes. Assim, contava comoparte de sua renda. Deste modo, ao dar a sua oferta de cereais, o cidadão israelita estava cum­ prindo a sua responsabilidade para com a manutenção do ministério sacerdotal, através do qual a nação permaneceria em comunhão comDeus. Há duas características invulgares, que deviam ser notadas nas instruções para a oferta de cereais. Nenhum fer­ mento havia de ser permitido no preparo de nenhum dosbolos. O motivo disso era que o cereal tinha de estar intacto, e a ação da fermentação da levedura estra­ garia isso. Mel e massa fermentada po­ diam ser trazidos somente como ofertas dasprimícias(v. 11,12). Isso queria dizer que podiam ser dados aos sacerdotes, para usarem como alimento, mas não haviam de ser oferecidos a Deus sobre o altar. Esse regulamento considera a leve­ dura como uma influência danosa e per­ turbadora, por mais necessário que fosse para fins de assadura. Ê este ponto de vista que se reflete na advertência •de nossoSenhor: “Acautelai-vos do fermen­ to dosfariseus” (Luc. 12:1). Por outro lado, não se havia de dar nenhuma oferta a Deus sem sal, que se descreve como o sal do pacto do teu Deus. Isto revela a importância do sal 28
  25. 25. como símbolo da amizade e da comu­ nhão. Aqueles que compartilhavam do sal numa refeição estavam numa relação genuínade confiança e lealdade. Como o fermento simbolizava o que era inaceitá­ vela Deus, assim o sal simbolizava o que lhe tomava as ofertas aceitáveis. Isso lança luz sobre a descrição, feita por Jesus, de seus discípulos como “o sal da terra” (Mat. 5:3). Como o sal tomava uma oferta agradável a Deus, assim os crentes no mundo devem tomá-lo aceitá­ velaDeus. 3. AOfertaPacífica(3:1-17) 1 Se a oferta de alguém for sacrifício pa­ cífico: se a fizerde gado vacum, seja macho oufêmea, oferecê-la-á sem defeito diante do Senhor; 2 porá a mão sobre a cabeça da sua oferta e a imolará à porta da tenda da revelação; e os filhos de Arão, os sacerdo­ tes, espargirão o sangue sobre o altar em redor. 3 Então, do sacrifício de oferta pací­ fica, fará uma oferta queimada ao Senhor; a gordura que cobre a fressura, sim, toda a gordura que está sobre ela, 4 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está juntoaos lombos, e o redenho que está sobre o fígado, juntamente com os rins, ele os tirará. 5 E os filhos de Arão queimarão isso sobre o altar, em cima do holocausto que está sobre a lenha no fogo; é oferta queima­ da, de cheiro suave ao Senhor. 6 E se a sua oferta por sacrifício pacífico ao Senhor for de gado miúdo, seja macho ou fêmea, sem defeito oferecerá. 7 Se oferecer um cordeiro por sua oferta, oferecê-lo-á perante o Se­ nhor; 8 e porá a mão sobre a cabeça da sua oferta, e a imolará diante da tenda da reve­ lação; e os filhos de Arão espargirão o san­ gue sobre o altar em redor. 9 Então, do sacrifício de oferta pacífica, fará uma ofer­ ta queimada ao Senhor; a gordurada oferta, a cauda gorda inteira, tirá-la-á junto aoespi­ nhaço; e a gordura que cobre a fressura, sim, toda a gordura que está sobre ela, 10 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está junto aos lombos, e o re­ denho que está sobre o fígado, juntamente com os rins, tirá-los-á. 11 E o sacerdote queimará isso sobre o altar; é o alimento da oferta queimada ao Senhor. 12 E se a sua oferta for uma cabra, perante o Senhor a oferecerá; 13 e lhe porá a mão sobre a ca­ beça, e a imolará diante da tenda da reve­ lação; e os filhos de Arão espargirão o san­ gue da cabra sobre o altar em redor. 14 De­ pois oferecerá dela a sua oferta, isto é, uma oferta queimada ao Senhor; a gordura que cobre a fressura, sim, toda a gordura que está sobre ela, 15 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está junto aos lombos, e o redenho que está sobre o fígado, juntamente com osrins, tirá-los-á. 16E o sa­ cerdote queimará isso sobre oaltar; é o ali­ mento da oferta queimada, de cheiro suave. Todaa gordurapertencerá ao Senhor. 17Es­ tatuto perpétuo, pelas vossas gerações, em todas as vossas habitações, será isto: ne­ nhuma gordura nem sangue algum come­ reis. O ritual da oferta pacífica descrito em Levítico 3 segue muito de perto aquele para a oferta queimada do capítulo 1. Não há necessidade, portanto, de expor o conteúdo do ritual novamente. A diferen­ ça principal é que, enquanto a oferta queimada inteira era ofertada sobre o altar a Deus e queimada, somente certas partes menores da oferta pacífica eram usadas dessa forma. Elas são alistadas pormenorizadamente(v. 3,4,9,10,14,15). 0 cultuador cozinhava ou assava o res­ tante da vítima e usava a came para proporcionar uma refeição para ele mes­ mo, para a sua família e para outros hóspedesconvidados. Enquanto a característica da oferta queimada era o oferecimento solene do animal inteiro a Deus, a da oferta pa­ cífica era a característica muito mais alegre, do gozo de uma refeição na com­ panhia da família e dos amigos. Con­ quanto a oferta queimada expressasse o custo da obediência, a oferta pacífica expressava a alegria e a felicidade da comunhão, que trazia. Não é de sur­ preender, portanto, que freqüentemente achamos estas duas formas de sacrifício mencionadas juntamente, como tendo sido oferecidas por ocasião do mesmo festival (I Sam. 13:9; II Sam. 6:17,18; 1Reis8:64). Defato, a oferta queimadae a oferta pacífica constituem, em con­ junto, as formas mais primitivas de sa­ crifíciocorrentesem Israel. 29
  26. 26. As instruções contidas em Levítico 3 dividem-se em três subdivisões, que tra­ tam, respectivamente, dos três tipos de animais domésticos que podiam ser usa­ dos para a oferta; um boi ou vaca (v. 1-5), uma ovelha (v. 6-11) ou uma cabra (v. 12-16). A oferta pacífica difere da oferta queimada no sentido de que o animal podia ser macho ou fêmea (v. 1, 6), enquanto a oferta queimada tinha de sermacho(1:3,10). A expressão oferta pacífica tem-se tor­ nado comum no inglês desde a versão do Rei Tiago (KJV) e é mantida na Versão Padrão Revisada (RSV). Porém pode causar mal-entendidos, pois este tipo de sacrifício certamente não tinha como fi­ nalidade apaziguar uma deidade irada da forma metafórica em que é às vezes usada. O sentido exato da palavra he­ braica tem sido muito discutido. Ela está ligada, etimologicamente, à palavra usa­ da para expressar “paz, bem-estar”, através de um sentido básico de “ser inteiro, completo”. Daí ter sido entendi­ da muitas vezes como referindo-se ao sacrifício que faz com que o relaciona­ mento entre as pessoas seja inteiro ou completo. Por conseguinte, tem sido su­ gerido que seu sentido real é ou “oferta de comunhão” ou “oferta comunitária”. Contudo, visto que diz respeito mais especialmente à relação entre Israel e Deus, muitas vezes num sentido nacio­ nal ou comunitário, tem sido também sugerido que deverá chamar-se de “sacri­ fício da aliança”. Isto não é satisfatório, porém, uma vez que, embora o sacrifício fosse certamente usado por ocasião das celebrações pactuais, o nome em si é mais antigo que o seu uso em Israel e sabe-se que era corrente entre os cana- neus. O nome em si, portanto, não pode ter sido derivado do significado determi­ nado que essa forma de sacrifício tinha em Israel. Mais provavelmente significa “sacrifício de encerramento” e refere-se ao fato de que semelhantes sacrifícios foram usados para completar uma festa de ofertas solenes a Deus. Isso concorda completamente com a ligação estreita entre a oferta queimada e a oferta pací­ fica. O título completo desse sacrifício é sacrifíciode oferta pacífica, que se com­ põe, no hebraico, de duas palavras. O tí­ tuloem si reflete uma história considerá­ vel, na qual, originalmente, cada uma dessas palavras se referia a um tipo dife­ rente de sacrifício. Como parte de um processo de definição mais precisa e de desenvolvimento mais complexo, o “sa­ crifício(abatido)” original e o “sacrifício pacífico (de encerramento)” têm sido ligados de tal forma que a natureza mais geral daquele tem assumido as caracte­ rísticas especiais deste. Estas caracterís­ ticas especiais diziam respeito primeira­ mente à maneira de tratar as partes gor­ durosas e o sangue. Assim, o ritual da oferta pacífica nos revela como Israel ordenou e interpretou as formas mais gerais de sacrifício que eram correntes entre os seus vizinhos e deu-lhes um significado especial. O versículo 17 estabelece a regra que se aplicava forçosamente a todos os sa­ crifícios em Israel. Nem sangue nem gordura deviam ser comidos pelo cultua- dor, mas deviam ser dados a Deus, no caso da oferta pacífica, pela queima da gordura no altar e pelo derramamento dosangue noslados do altar. A santidade especial do sangue, cuja inclusão era proibida na carne sacrifical queocultuadorcomia, recebemuito real­ ce no Antigo Testamento. É explicada mais completamente em 17:11: “Porque a vida da carne está no sangue.” A im­ portância dada ao sangue se deriva da observação básica de que, se o sangue é derramado, então avida da pessoa é der­ ramada com ele. A perda do sangue de maneira grave implica a perda da vida. É esta importância única do sangue para a vida que fez com que fosse tratado de uma forma muito especial, tanto no sa­ crifício, quando um animal era abatido 30
  27. 27. ritualmente, como, mais tarde, quando se permitia o abate profano de animais domésticos para alimento. Visto que a vida é dom de Deus, o sangue era consi­ derado, de forma única, como uma ma­ nifestação física desse dom. Tinha, por­ tanto, de serdevolvidoaDeus. O povojudeu continua a observar esta proibição por uma tradição de abate kosher (ou correto), que drena tanto sangue de um animal quanto possível, para este ser usado como alimento. Co­ mo um gesto conciliatório para os ju­ deus, o primeiro conselho apostólico em Jerusalém também advogou que os cris­ tãos devessem abster-se de carnes que continham sangue (At. 15:29). Quando da separaçãoentre cristãos ejudeus, essa praxe já não era vista como necessária. Os cristãos primitivos consideravam Je­ sus Cristo como o seu verdadeiro sacri­ fício, e oseu sangue derramado, como a verdadeira “vida” devolvida a Deus. As­ sim, uma proibição que se tinha tornado uma obrigação ritual dentro dojudaísmo foi abandonada pelos cristãos. Com o cumprimento dosacrifício em Jesus Cris­ to, terminou a obrigação de se abster da carne que continha sangue. É supérfluo comentar que essa norma do Antigo Testamento com relação a co­ mer sangue ou compartilhar dele não tem nada a ver com a prática médica moderna de transfusão de sangue e que não se pode, de maneira nenhuma, con­ siderar aquela como contrária a esta. Na medida em que a norma do Antigo Tes­ tamento se deriva de uma reverência para com a vida, seu espírito deverá, indubitavelmente, alimentar e encorajar toda técnica que ajude na salvação e preservação da vida. Precisamente comoosangue era consi­ derado a concentração da vida da cria­ tura, assim também as partes gordurosas eram consideradas lugares onde essa for­ ça vital estava localizada. Por esse mo­ tivo, não haviam de ser usadas como alimento, mas sim devolvidas a Deus. Em certa altura, na sociedade pré-israe- lita, isso se supunha ser, sem dúvida, para o reforço da própria vida de Deus em si. Porém em Israel tais idéias foram superadas pela consciência de que Deus era o Deus vivo, a fonte de toda a vida e acima de qualquer necessidade de revi­ talização. Portanto, os aspectos do ritual qué implicavam a queima das partes gordurosas da oferta pacífica sobre o altar (v. 14-16) se relacionavam com o lançamento do sangue contra o altar, visto que os dois expressavam a devolu­ ção da força vital do animal a Deus. Como a vida tinha sido dada por Deus, assim tinha de ser devolvida a ele por ocasiãoda morte da criatura, enãopodia serapropriada peloshomens. O versículo 17 termina com uma declaração geral, que resume a proibição permanente, em Israel, do uso da gordura como comida e do sangue como bebida. A mesma proi­ bição abrangente do uso do sangue e da gordurapara oalimentoéreafirmada em 7:23-27. Nada se diz diretamente, neste capí­ tulo, sobre o valor expiatório da oferta pacífica, como em relação à oferta quei­ mada (1:4). Conquanto o derramamento de todo o sangue no altar fosse consi­ derado um ato de expiação (17:11), pare­ ce que a oferta pacíficaera mais especial­ mente uma ocasião para ações de graças eregozijo. Era, num sentido real, uma refeiçãode comunhão, celebrada perante Deus, da qual compartilhavam a família e os ami­ gos do cultuador. Expressava a natureza alegre da verdadeira religião e servia para lembrar, a todo cultuador, da san­ tidade dos dons divinos da vida e do ali­ mento. As ofertas pacíficas podiam ser oferecidas voluntariamente ou em paga­ mento deum voto. 4. As Ofertas Pelo Pecado e Pela Culpa (4:l-6:7) Esta série de instruções diz respeito a duas formas de sacrifício: a oferta pelo 31
  28. 28. pecado e a oferta pela culpa. Estão rela­ cionadas muito de perto, e os dois nomes dohebraicopraticamente condizem. Que tenha existido alguma diferença entre eles em determinada época, contudo, parece inquestionável, embora seja mui­ to difícil definir precisamente em que tenhaconsistido. No decorrer dos séculos em que eram oferecidas estas ofertas em Israel, elas sofriam forte influência uma da outra e se tornaram tão aproximada­ mente relacionadas, que agora aparecem lado a lado, com rituais praticamente idênticos, visando oferenda por motivos semelhantes. Com mais probabilidade, devemos se­ guir a sugestão erudita recente (Rend- torf, p. 233), de que, em sua origem, a oferta pelo pecado visava primeiramente um sacrifício especial, de consagração e purificação pelo santuário, enquanto a oferta pela culpa visava uma oferenda para assegurar expiação pelos pecados cometidos por um indivíduo. Onde eram envolvidos os pecados de toda a comuni­ dade, e até detoda,a nação, já vimos que a oferta queimada? podia ser trazida a Deus para assegurar o perdão. Na forma em que agora existe, a oferta queimada também chegou a ser usada para obter a expiação pelo pecado de um indivíduo (1:4), de maneira que achamos a ocor­ rência de alguma repetição nas finalida­ des para que se usavam as diversas for­ mas de sacrifício. 1 Disse mais oSenhora Moisés: 2Fala aos filhos de Israel, dizendo: Se alguém pecar por ignorância no tocante a qualquer das coisas que o Senhor ordenou que não se fi­ zessem, fazendo qualquer delas; 3 sé for o sacerdote ungido que pecar, assim tornando o povo culpado, oferecerá ao Senhor, pelo pecado que cometeu, um novilho sem de­ feito como oferta pelo pecado. 4 Trará o no­ vilhoà porta da tenda da revelação, perante o Senhor, porá a mão sobre a cabeça do novilho e o imolará perante o Senhor. 5 En­ tão o sacerdote ungido tomará do sangue do novilho, e o trará à tenda da revelação; 6 e, molhando o dedo no sangue, espargirá dosangue sete vezesperante o Senhor, dian­ te do véu do santuário. 7 Também o sacer­ dote porá daquele sangue perante o Senhor, sobre as pontas do altar do incenso aromá­ tico, que está na tenda da revelação; e todo o resto do sangue do novilho derramará à base doaltar doholocausto, que está à porta da tenda da revelação. 8 E tirará toda a gordura do novilho da oferta pelo pecado; a gordura que cobre a fressura, sim, toda a gordura que está sobre ela, 9 os dois rins e a gordura que está sobre eles, e a que está juntoaos lombos, e o redenho que está sobre ofígado, juntamente com os rins, tirá-los-á, 10 assim como se tira do boi do sacrifício pacífico; e o sacerdote os queimará sobre o altar do holocausto. 11Mas o couro do novi­ lho, e toda a sua carne, com a cabeça, as pernas, a fressura e o excremento, 12enfim, onovilhotodo, levá-lo-á para fora do arraial a um lugar limpo, em que se lança a cinza, e o queimará sobre a lenha; onde se lança a cinza, aí se queimará. Basicamente, as ofertas pelo pecado e pela culpa não são tipos novos de sacrifí­ cio, mas, sim, formas desenvolvidas da ofertapacífica, etinham como finalidade servir como sacrifícios de expiação por pecados determinados. Diferem, portan­ to, da oferta pacífica, mais pelas situa­ ções para que o seu uso era proposto do que por qualquer diferença essencial no tipo do sacrifício. Nas situações esboça­ das neste capítulo, a oferta pelo pecado é oferecida pelas ofensas inadvertidas (inconscientes), enquanto a oferta pela culpa érequerida por ofensas que redun­ daram nalgum dano a pessoas ou a suas posses. Baseando-se nisso, N. H. Snaith (p. 40,48,50) mostra que a oferta pela culpa, em 5:14; 6:7, era essencialmente uma forma de oferta de compensação. Era oferecida quando uma perda, que na maioria dos casos podia ser avaliada, tinha sido sanada. Assim, o ritual a seguir é muito seme­ lhante ao da ofertapacífica, ea diferença principal é que, conquanto a maior parte da carne do animal oferecido como uma ofertapacífica tivesse de ser comida, isso era proibido no caso da oferta pelo pe­ cado. A maneira de dispor da maior parte do corpo do animal é descrita em 32
  29. 29. 4:12: “Onovilhotodo, [o sacerdote] levá- lo-á para fora do arraial a um lugar limpo, em que se lança a cinza, e o queimarásobrealenha.” Embora, como com a oferta queimada, o corpo do ani­ mal fosse queimado, isso não erâ reali­ zado sobre o altar, mas feito num lugar especial, assinalado para esse fim. Por ser oferecido como um sacrifício de ex­ piação a Deus, tinha-se tornado santíssi­ mo, e, portanto, não podia servir como carne para uma refeiçãosacrifical. No ritual da bem de perto relacionada oferta pela culpa (7:1-6), era permitido aossacerdotes(embora não às suas espo­ sas ou famílias) comerem a carne. Em alguns casos também a oferta pelo peca­ dopodia sercomida(6:26,29,30). A série inteira de instruções para as ofertas pelopecado e pela culpa demons­ tra uma natureza diferente daquela das instruções tratadas noscapítulos 1-3. En­ quanto estas últimas se preocupam pri­ meiramente com a definição do ritual correto e com os animais apropriados para o uso, o principal interesse com relação às ofertas dopecado e da culpa se focaliza nas ocasiões quando se haviam de fazer os sacrifícios. Por conseguinte, revelam mais informações sobre o signifi­ cado dossacrifícios. Levítico 4:3-12 discute a oferta pelo pecado, a ser apresentada por pecado cometido pelo sacerdote ungido. Este título seacha de novono versículo 16 e se refere ao sumo sacerdote, que estava incumbido de uma responsabilidade es­ pecial pela santidade de Israel. Mais tarde, todos os sacerdotes, os filhos de Arão, foram instalados em seu ofíciopela unção (Êx. 29:21). Agora se dão as ins­ truções (4:13-21) para a oferta pelo pe­ cado quando era oferecida para fazer expiação por pecado cometido por toda a congregação de Israel. Isso podia signifi­ car tanto uma comunidade local como a nação inteira. Em seguida (4:22-26) se descreve o sacrifício pelo pecado de um governante. Otítulo, aqui, se refere, sem dúvida, ao rei ou príncipe (cf. Ez. 44:3; 45:7), porém em épocas primitivas se aplicavaa um chefe ou representantes de uma tribo. O surgimento de qualquer rivalidade à soberania de Deus sobre Israel tem sido evitado. Dão-se instru­ ções especiais para a oferta pelo pecado por um israelita comum, leigo (4:27-35). 13 Se toda a congregação de Israel errar, sendo isso oculto aos olhos da assembléia, e eles tiverem feito qualquer de todas as coisas que o Senhor ordenou que não se fi­ zessem, assim tornando-se culpados; 14 quando o pecado que cometeram for co­ nhecido, a assembléia oferecerá um novilho comooferta pelo pecado, e o trará diante da tenda da revelação. 15 Os anciãos da con­ gregação porão as mãos sobre a cabeça do novilho perante o Senhor; e imolar-se-á o novilho perante o Senhor. 16 Então o sacer­ dote ungido trará o sangue do novilho à ten­ da da revelação; 17 e o sacerdote molhará o dedo no sangue, e o espargirá sete vezes perante o Senhor, diante dovéu. 18E do san­ gue porá sobre as pontas do altar, que está perante o Senhor, na tenda da revelação; e todo o resto do sangue derramará à base do altar doholocausto, que está diante da tenda da revelação. 19 E tirará dele toda a sua gordura, e queimá-la-á sobre o altar. 20 As­ sim fará com o novilho; como fez ao novilho da oferta pelo pecado, assim fará a este; e o sacerdote fará expiação por eles, e eles serão perdoados. 21Depois levará o novilho para fora do arraial, e o queimará como queimou o primeiro novilho; é oferta pelo pecado da assembléia. 22 Quando um prín­ cipepecar, fazendo por ignorância qualquer das coisas que o Senhor seu Deus ordenou que não fizessem, e assim se tornar culpa­ do; 23se o pecado que cometeu lhe for noti­ ficado, então trará por sua oferta um bode, sem defeito; 24 porá a mão sobre a cabeça do bode e o imolará no lugar em que se imola o holocausto, perante o Senhor; é oferta pelo pecado. 25 Depois o sacerdote, com o dedo, tomará do sangue da oferta pelo pecado e po-lo-á sobre as pontas do altar do holocausto; então o resto do sangue derramará à base do altar do holocausto. 26 Também queimará sobre o altar toda a sua gordura comoa gordura do sacrifício da oferta pacífica; assim o sacerdote fará por ele expiação do seu pecado, e ele será per- 33
  30. 30. doado. 27 E se alguém dentre a plebe pecar por ignorância, fazendo qualquer das coisas que o Senhor ordenou que não se fizessem, e assim se tornar culpado; 28se o pecado que cometeu lhe for notificado, então trará por sua oferta uma cabra, sem defeito, pelo cado cometido; 29 porá a mão sobre a beça da oferta pelo pecado,e a imolará no lugar do holocausto. 30 Depois o sacerdote, com o dedo, tomará do sangue da oferta, e o porá sobre as pontas do altar do holocaus­ to; e todo o resto do sangue derramará à base do altar. 31 Tirará toda a gordura, como se tira a gordura do sacrifício pacífi­ co, e a queimará sobre o altar, por cheiro suave ao Senhor; e o sacerdote fará expia­ ção por ele, e ele será perdoado. 32 Ou, se pela sua oferta trouxer uma cordeira como oferta pelo pecado, sem defeito a trará; 33porá a mão sobre a cabeça da oferta pelo pecado, e a imolará por oferta pelo pecado, no lugar onde se imola o holocausto. 34 De­ pois o sacerdote, com o dedo, tomará do sangue da oferta pelo pecado, e o porá sobre as pontas do altar do holocausto; então todo o resto do sangue da oferta derramará à basedoaltar. 35Tirará toda a gordura, como se tira a gordura do cordeiro do sacrifício pacífico, e a queimará sobre o altar, em cima das ofertas queimadas do Senhor; as­ sim o sacerdote fará por ele expiação do pecado que cometeu, e ele será perdoado. Em cada um desses casos se dá grande importância à advertência de que a ofer­ ta visava assegurar expiação somente pe­ las ofensas cometidas despercebidamente (4:2,13,22,27). Essa expiação, podia cer­ tamente abranger os pecados cometidos por ignorância, tais como a infração por Jônatas do juramento feito pelo seu pai (I Sam. 14:24-26), do qual não tinha tomado conhecimento. Também abran­ gia as muitas infrações de regulamentos rituais, quefacilmentesepoderiam come­ ter por erro. Mais precisamente, contu­ do, a palavra significa sem premeditação e se refere não apenas às infrações da lei divina cometidas por ignorância, mas também a outras transgressões que se não tenham feito com a intençãoproposi­ tada depecar. Dá-se expressão ao contrário pelo ter­ mo pecar “à mão levantada” (Núm. 15: 30), que denota um ato cometido com o propósito firmado de pecar contra Deus. Mais tarde, osrabinos interpretavam isso com referência aos pecados cometidos com a clara intenção, já de antemão, de procurar o perdão depois por meio de sacrifício. Em tais casos nenhum sacrifí­ cio podia valer. Esta é uma das caracte­ rísticas e limitações mais notáveis dos sacrifícios rituais do Antigo Testamento. Pela desobediência deliberada a Deus não se especificava sacrifício algum pelo qual se pudesse fazer expiação, e ao pe­ cador não se deixava esperança nenhu­ ma, senão que selançasse sobre a miseri­ córdia deDeus. Não se deve interpretar isso como se implicasse que muitas ofensas não pu­ dessem ser perdoadas. Não é isso que se quer dizer, e é claro, das narrativas do Antigo Testamento, que até ofensas sé­ rias como roubo e assassínio podiam ser perdoadas por Deus quando se eviden­ ciava verdadeiro arrependimento (I Reis 21:29). Deus sempre se mantinha sobe­ rano sobre o ritual i,..j selhe prestava. O perdão era livre prerrogativa dele, e não um direito humano, sendo controla­ do por condições rígidas. A intenção bá­ sica na definição de quando se deviam usar determinados sacrifícios era odesejo positivo de demonstrar o que eles conse­ guiriam, e não o negativo, de mostrar o que nãopodiam conseguir. Como teólogos cristãos têm visto, coe­ rentemente, e como a experiência confir­ ma, é a pecaminosidade da vontade hu­ mana que constitui oproblema mais pro­ fundo do homem. Erros inadvertidos não trazem omesmosentimento deculpa que a nossa própria consciência, quando pe­ camos, de que temos escolhido o cami­ nho da desobediência deliberadamente. É a pecaminosidade da vontade humana quejaz por detrás de cada feito pecami­ noso, eéisso que levou certos profetas do AntigoTestamento a antevera renovação do coração do homem (Jer. 31:31 e ss.; Ez. 36:26 e s.) e os escritores do Novo Testamento aver essa esperança cumpri­ da pelo dom do Espírito (Rom. 8:2 e ss.) 34
  31. 31. XSealguém, tendo-se ajuramentado como testemunha, pecar por não denunciar o que viu, ouo que soube, levará a sua iniqüidade. 2 Se alguém tocar alguma coisa imunda, seja cadáver de besta-fera imunda, seja cadáver de gado imundo, seja cadáver de réptil imundo, embora faça sem se aperce­ ber, contudo será ele imundo e culpado. 3 Se alguém, sem se aperceber, tocar a imundícia de um homem, seja qual for a imundícia com que este se tornar imundo, quando o souber será culpado. 4 Se alguém, sem se aperceber, jurar temerariamente com os seus lábios fazer mal ou fazer bem, em tudo o que o homem pronunciar temera­ riamente com juramento, quando o souber, culpado será numa destas coisas. 5 Deverá, pois, quando foi culpado numa destas coi­ sas, confessaraquiloem que houver pecado. 6 E como sua oferta pela culpa, ele trará ao Senhor, pelo pecado que cometeu, uma fê­ mea de gado miúdo; uma cordeira, ou uma cabrinha, trará como oferta pelopecado; e o sacerdote fará por ele expiação do seu pe­ cado. 7Mas, se as suas posses não bastarem para gado miúdo, então trará ao Senhor, como sua oferta pela culpa por aquilo em que houver pecado, duas rolas, ou dois pom- binhos; um como oferta pelo pecado, e o outro como holocausto; 8e os trará ao sacer­ dote, oqual oferecerá primeiro aquele que é para a oferta pelo pecado, e com a unha lhe fenderá a cabeça junto ao pescoço, mas não o partirá; 9 e do sangue da oferta pelo pecado espargirá sobre a parede do altar, porém o que restar daquele sangue espre- mer-se-á à base do altar; é oferta pelo peca­ do. 10E do outro fará holocausto conforme a ordenança; assim osacerdote fará expiação por ele do pecado que cometeu, e ele será perdoado. 11 Se, porém, as suas posses não bastarem para duas rolas, ou dois pombi- nhos, então, como oferta por aquilo em que houver pecado, trará a décima parte duma efa de florde farinha como oferta pelo peca­ do; não lhe deitará azeite nem lhe porá em cima incenso, porquanto é oferta pelo pe­ cado; 12 e a trará ao sacerdote, o qual lhe tomará um punhado como o memorial da oferta, e a queimará sobre o altar em cima das ofertas queimadas do Senhor; é oferta pelo pecado. 13 Assim o sacerdote fará por ele expiação do seu pecado, que houver co­ metido em alguma destas coisas, e ele será perdoado; e o restante pertencerá ao sacer­ dote, comoa oferta de cereais. 14Disse mais o Senhor a Moisés: 15 Se alguém cometer uma transgressão, e pecar por ignorância nas coisas sagradas do Senhor, então trará ao Senhor, comoa sua oferta pela culpa, um carneiro sem defeito, do rebanho, conforme a tua avaliação em siclos de prata, segundo 0 siclo do santuário, para oferta pela culpa. 18 Assim fará restituição pelo pecado que houver cometido na coisa sagrada, e ainda lhe acrescentará a quinta parte, e a dará ao sacerdote; e com o carneiro da oferta pela culpa, o sacerdote fará expiação por ele, e ele será perdoado. 17 Se alguém pecar, fa­ zendo qualquer de todas as coisas que o Senhor ordenou que não se fizessem, ainda que não o soubesse, contudo será ele culpa­ do, e levará a sua iniqüidade; 18 e como oferta pela culpa trará ao sacerdote um carneiro sem defeito, do rebanho, conforme a tua avaliação; e o sacerdote fará por ele expiação do erro que involuntariamente houver cometido sem o saber; e ele será perdoado. 19É oferta pela culpa; certamen­ te ele se tornou culpado diante do Senhor. 1 Disse ainda o Senhor a Moisés: 2 Se al­ guém pecar e cometer uma transgressão contra o Senhor, e se houver dolosamente para com o seu próximo tocante a um depó­ sito, ou penhor, ou roubo, ou tiver oprimido a seu próximo; 3 se achar o perdido, e nisso se houver dolosamente e jurar falso; ou se fizer qualquer de todas as coisas em que o homem costuma pecar; 4 se, pois, houver pecado e for culpado, restituirá o que rou­ bou, ou o que obteve pela opressão, ou o depósito que lhe foi dado em guarda, ou o perdido que achou, 5ouqualquer coisa sobre que jurou falso; por inteiro o restituirá, e ainda a isso acrescentará a quinta parte; a quem pertence, lho dará no dia em que trouxer a sua oferta pela culpa. 6 E como a sua oferta pela culpa, trará ao Senhor um carneiro sem defeito, do rebanho; conforme a tua avaliação para a oferta pela culpa trá- lo-áao sacerdote; 7e osacerdote fará expia­ ção por ele diante do Senhor, e ele será per­ doado de todas as coisas que tiver feito, nas quais se tenha tornado culpado. A seção 5:1-6:7 forma uma espécie de apêndice ao capítulo 4, e trata de deter­ minadas situações em que era requerida a oferta pelo pecado ou pela culpa. Em 5:1-6, temos quatro exemplos alistados, nos quais uma pessoa podia incorrer em culpa por negligência. Essas são ofensas de tipos bem diferentes, que têm em co­ mum o fato de que o ofensor traz culpa sobre si mesmo pela retenção de infor­ mações sobre ofensas de que ele tem conhecimento. 35

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